Ecologia Integral e uma visita às entranhas da terra

Em uma missão da Comissão de Ecologia Integral da Conferência dos Bispos do Brasil, acompanhada por membros da Vivat International Brasil, a Irmã Nelly busca se aproximar das comunidades que enfrentam os impactos da mineração e das barragens em seus territórios. Confira mais sobre suas reflexões na matéria a seguir.
O cuidado efetivo da casa comum exige mudar nosso estilo de vida

Cuidar é envolver-se afetivamente com algo que vai além de nós, abarcando as dimensões da esfera pessoal, social, ecológica e espiritual. O ser humano é o único ser que necessita do cuidado do outro, desde o início de sua vida até seu último suspiro [1]. Na mitologia greco-romana, o Mito do Cuidado já nos apontava isso: “Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura (ser humano), ficará sob seus cuidados enquanto ela viver”. O cuidado é um parâmetro para se compreender o que é humano. O ato de cuidar é um aprendizado contínuo. Seguindo esse mesmo caminho do cuidado como balizador de nossas atitudes, no ano de 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato si’,que, a meu ver, é a mais icônica dos últimos tempos. Nela Francisco entrega a todos o coração do seu pontificado: a ecologia integral, o cuidado da casa comum. Ecologia integral não se refere apenas ao meio ambiente, mas inclui aquelas dimensões já mencionadas no início de nosso texto: pessoal, social, ecológica e espiritual. Para Francisco, tudo está interligado e, assim sendo, propõe a nós uma nova maneira de entender esse entrelaçar de vidas de todas as criaturas do planeta. A proposta do Papa Francisco se aproxima muito da filosofia do bem viver, presente na vida dos povos originários da América Latina: a reciprocidade entre as pessoas, a amizade fraterna, a convivência com os outros seres da natureza e o profundo respeito pela terra [2]. Francisco resgata essa herança que nós, latino-americanos, recebemos dos povos indígenas e a reelabora escrevendo a chamada “Encíclica Verde”. Três anos após publicar a Laudato si’, Francisco lança a encíclica Fratelli tutti, que fala sobre a fraternidade e a amizade social, indicando que primeiro precisamos nos entender como irmãos, habitantes de uma casa comum para, aí sim, trabalharmos juntos e eficazmente pelo bem de todos. E, como já era de se esperar, como um bom jesuíta que é, assumiu e convidou todos nós a abraçar o Pacto Educativo Global, que não é a solução dos nossos problemas, mas é o caminho. Como ele mesmo fala: “Porque toda mudança precisa de um caminho educativo para fazer surgir uma nova solidariedade universal e uma sociedade acolhedora” [3]. A educação é o caminho. Somos chamados a educar o pensar, educar o olhar, educar o sentir, educar o ouvir, educar o falar… Tudo em nós precisa ser educado para podermos atingir a plenitude a que somos chamados. Entre tantos significados sobre educar que encontramos, cito este: “dar (a alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento da sua personalidade”. Com o Pacto Educativo Global, o Papa Francisco nos aponta um caminho para que possamos cuidar da educação e passemos a agir. Ele nos convida a uma verdadeira conversão, no sentido mais estrito da palavra, metanoia, mudança de pensamento, de sentimento que leva a uma verdadeira mudança de atitude. Conforme educamos e somos educados, vamos adquirindo novos hábitos, refletindo nossas atitudes e, quando percebemos, estamos mudando nosso estilo de vida. Finalizo com o pensamento de Hannah Arendt sobre a educação: “A educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, de jovens. Na educação decide-se também se nós amamos tanto os nossos filhos a ponto de não os desalojar do nosso mundo, deixando-os à mercê de si mesmos, a ponto de não arrebatar de suas mãos a possibilidade de realizar algo novo, algo de imprevisível para nós, e prepará-los, em vez disso, para a tarefa de renovar um mundo que será comum a todos”. Referências[1] Ruth Cavalcante. O afeto e a arte de cuidar.[2] Disponível em: https://cimi.org.br/o-bem-viver-indigena-e-o-futuro-da-humanidade/[3] Mensagem do Papa Francisco para o lançamento do pacto educativo. Alexandre BrittoCoordenador missionário do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ.
Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.
Semana Laudato Si’ 2020

O ano de 2020 marca o quinto aniversário da Laudato Si’. A encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a Casa Comum foi assinada em 24 de maio de 2015. Mais que um documento eclesial, a encíclica é uma proposta de um projeto de vida para a humanidade e para o nosso planeta. A Laudato si’ foi acolhida como um documento profundo e cheio de beleza, e impulsionou pessoas ao redor do mundo a refletirem mais profundamente sobre o Criador e a criação. Sua visão da ecologia integral, que vê as conexões entre como tratamos Deus, a natureza e uns aos outros, oferece-nos verdades simples, porém profundas, sobre os laços que nos unem. Certamente esse documento é uma inspiração durante momentos de dificuldade, como a crise que atravessamos atualmente. Ele nos encoraja a refletir sobre os valores que compartilhamos e a criar um futuro mais justo e sustentável. Em uma grande campanha, o Papa convida todas as pessoas a participar da Semana Laudato Si’, de 16 a 24 de maio, que tem como tema “Tudo está interligado”. Assista, a seguir, ao vídeo do Papa Francisco. Para mais informações e materiais, acesse o site: Semana Laudato Si’ 2020 Vídeo do Papa Francisco:
Semana dos Povos Indígenas Sementes de vida, resistência e esperança

Desde 1943, 19 de abril é lembrado, em nosso país, como o “Dia do Índio”. Um olhar sincero e honesto sobre a contínua relação de exploração, violência e preconceitos de vários atores de nossa sociedade com os povos indígenas nos faz questionar qual o sentido remanescente dessa data. Assumir a causa indígena como nossa é uma das mais apreciadas formas de celebrar e colaborar na luta e na resistência desses povos. A Semana dos Povos Indígenas 2020, organizada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta a seguinte reflexão e convida todas e todos nós a assumir ações em defesa da vida dos povos originários e de nossa Casa Comum. O que podemos fazer em apoio à causa indígena no Brasil 1 – A defesa da vida dos povos indígenas começa com a defesa de seus territórios e com a ecologia integral que conecta o exercício da justiça, da igualdade e da solidariedade com o exercício do cuidado com a natureza (proposta: trabalhar essas questões em grupos). 2 – O Sínodo para a Amazônia propôs definir e discutir um novo pecado, “O pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras e se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, em transgressões contra os princípios da interdependência e na ruptura das redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça” (DF 82). 3 – Como um novo estilo de vida, uma “sobriedade feliz” (LS 224s), de toda a sociedade está ligado com a defesa da vida dos povos indígenas e com o pecado ecológico? 4 – Fazer um levantamento da presença de grupos indígenas na minha região e visitar o cárcere, para saber se há indígenas presos, quais foram os motivos e se existe proteção jurídica para eles. 5 – Manifestarmo-nos contra qualquer iniciativa jurídica ou legislativa que atentem contra os direitos indígenas assegurados constitucionalmente. Nesse sentido, é importante solicitar junto ao Supremo Tribunal Federal que, ao julgar o Recurso Extraordinário número 1.017.365, caracterizado como sendo de repercussão geral, faça-o tendo como parâmetro os direitos originários dos povos (fato jurídico do Indigenato) contra a tese jurídica do marco temporal, que pretende impor restrições às demarcações de terras, argumentando que os indígenas somente teriam direito a uma terra se nelas estivessem fisicamente, ocupando-a, por ocasião da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988. Essa tese é uma aberração jurídica e precisa ser extirpada do sistema de justiça brasileiro. O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) preparou dois vídeos para marcar a Semana dos Povos Indígenas: Fonte: folder da Semana dos Povos Indígenas 2020 Ir. Stela Martins, SSpS Coordenadora da Redes Rede de Solidariedade
Guia Prático para o Mês Missionário Extraordinário

A Vivat Brasil, durante o encontro sobre o Sínodo da Amazônia, ofereceu este guia prático com sugestões e indicações de materiais para ser usados em outubro, para as atividades do Mês Missionário Extraordinário. Agora disponibilizamos na versão eletrônica, com os links para os materiais disponíveis na internet. Motivações e sugestões Para uso nas celebrações paroquiais, nas escolas, nos grupos de base e nas diversas instituições sociais das (arqui)dioceses. Motivação para o Mês Missionário Extraordinário (MME) e o Sínodo para a Amazônia (usar também o material do Mês Missionário):a. contextualizar a partir da Vivat Brasil;b. contexto atual do Brasil / importância do Sínodo e sua relação com o MME. 2. Sugestões práticas: Aproveitar o tempo antes das missas ou celebrações dominicais, para uma maior sensibilização a respeito do Sínodo, com vídeos e canções relativos ao tema da ecologia integral. Usar símbolos ecológicos durante a liturgia. Trabalhar a mesma temática nos diversos encontros e atividades da paróquia, escola ou instituição ao longo do mês de outubro. Utilizar atividades escolares para divulgar e discutir as questões relativas à ecologia integral e à realidade da Amazônia. 3. Durante o Mês Missionário Extraordinário, colocar banners com a temática da Amazônia em frente à comunidade ou instituição. 4. Usar Power Point com fotos e canções durante as missas ou encontros de formação e animação. 5. Sugestão prática para os domingos do mês de outubro:Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros. Dia 29 de setembro – Vídeo: Preparação para o Sínodo Dia 6 de outubro – Abertura solene do MME – Vídeo: Sínodo para a Amazônia Dia 13 de outubro – Canonização da Ir. Dulce – Vídeo: Mãos Carinhosas Dia 20 de outubro – Domingo das Missões – Vídeo: O Mês Missionário e a Amazônia Dia 27 de outubro – Encerramento do Sínodo da Amazônia – Vídeo: Repam – documentário 6. Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros.
Vivat Brasil promove encontro sobre Sínodo da Amazônia

O Sínodo da Amazônia está provocando muita polêmica por causa da desinformação que está sendo divulgada, confundindo o público sobre suas finalidades e importância para a Igreja e para a humanidade. De fato, o Sínodo abordará questões relacionadas à evangelização e preservação do meio ambiente pela prática de uma ecologia integral, não somente na Amazônia brasileira, mas nos nove países que integram a Pan-Amazônia. Devido à urgência de esclarecer e envolver as pessoas na proposta do Sínodo da Amazônia, a Vivat Brasil promoveu um encontro para aprofundar o Documento de Trabalho e preparar agentes de pastoral, professores e representantes de organizações, para buscarem estratégias de como trabalhar os temas relacionados com a ecologia integral em suas comunidades ou locais de base. O encontro foi realizado neste sábado, 14 de setembro, no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Participaram 50 pessoas, membros da Vivat Brasil e representantes de dez paróquias da Grande São Paulo. O encontro foi aberto com um momento de espiritualidade ao ar livre, para se sentir o contato com a Criação, e continuou com apresentações dos conteúdos e estudo em grupos. Irmã Maria Percila Vieira, coordenadora provincial das missionárias servas do Espírito Santo, uma das congregações fundadoras junto com a Congregação do Verbo Divino, acolheu os presentes e explicou que os membros de Vivat Brasil julgaram importante provocar “uma maior consciência nas comunidades em relação a esse importante evento convocado pelo Papa Francisco, que envolve a Igreja da Amazônia, mas que deve também ser assumido por nós que estamos mais ao sul”, explicou. O missiólogo verbita, padre Fernando Doren, e a cientista da religião, Nilda de Assis Cândido, iluminaram uma parte do encontro. Eles apresentaram a síntese de alguns capítulos do Documento de Trabalho. Outros sete padres e duas religiosas também participaram. Foi distribuído o “Guia prático para o Mês Missionário”, com sugestões de cantos, apresentações e vídeos para serem utilizados durante o mês de outubro, tanto nas celebrações e atividades paroquiais como também nas escolas e outras organizações. Os interessados no guia poderão seguir o link e ter acesso ao conteúdo. No encontro também esteve presente a liderança indígena Imaculada Lima Barreto, da Região do Rio Negro e da etnia tucana, que atualmente reside em São Paulo. Ela deu testemunho da contribuição dos povos indígenas na preservação da floresta. No estudo em grupos, os participantes conversaram sobre as sugestões concretas do Documento de Trabalho, procurando ver como aplicá-las à realidade de São Paulo. Sugeriram utilizar as motivações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para chamar a atenção sobre o cuidado da Criação e aproveitar as sugestões do Guia Prático antes das missas e celebrações dominicais ou mesmo durante a própria celebração, como pequenos vídeos, a Oração do Sínodo, a Oração do Mês Missionário e alguns cantos de Campanhas da Fraternidade anteriores que abordam a preservação da natureza. Outra proposta foi a instalação de painéis para dar visibilidade ao Sínodo. Padre Arlindo Pereira Dias, um dos organizadores do encontro, avaliou que os participantes “desejam encontrar formas de estar em comunhão com os membros do sínodo em Roma e apoiar concretamente essa iniciativa importante e vital, relacionada com o cuidado da casa comum que Deus nos entregou com tanto carinho”. Segundo ele, a ecologia tem sido presença constante nas Campanhas da Fraternidade desde 1979, mas precisa ser mais bem compreendida. “Queremos gerar ações concretas e, ao mesmo tempo, dar prosseguimento a esse caminho depois da realização do Sínodo”, acrescentou Pe. Arlindo. Como parte da equipe organizadora do encontro, fiquei muito feliz com o engajamento e compromisso dos participantes. Todos saíram muito motivados para trabalharem as temáticas do Sínodo em seus próprios ambientes e com muito desejo de se organizarem para que a reflexão sobre a ecologia integral se transforme em ações concretas nas comunidades. Também expressaram o desejo de continuar a se reunir para estudo e aprofundamento. Do ponto de vista da Vivat Brasil, o encontro trabalhou uma das ações imediatas propostas pela rede de congregações que fazem parte da instituição, que é o acompanhamento do Sínodo da Amazônia e também se articular melhor dentro de suas duas prioridades: sustentabilidade e cultura da paz. Para conhecer melhor as propostas da Vivat Brasil, sugerimos assistir ao vídeo produzido pela Verbo Filmes, disponível no Youtube: Vivat Brasil – workshop maio 2019. Ir. Ana Elídia Caffer Neves, SSpS, secretária executiva da Vivat Brasil, jornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN). _______
Sabedoria indígena em terras amazônicas

Em preparação ao Sínodo da Amazônia, que será realizado em outubro, estamos publicando uma série de artigos que nos ajudam a conhecer um pouco da realidade pan-amazônica e compreender a importância do sínodo para a Igreja Católica, os povos amazônicos e a sociedade em geral. O documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral” está organizado em três partes, seguindo o método “ver, julgar (discernir) e agir”. Já apresentamos uma síntese sobre a primeira parte do ver (https://blog.ssps.org.br/diversidade-cultural-e-ambiental-da-pan-amazonia) e, agora, publicamos sucintamente a segunda parte, que fala sobre a história eclesial, direito dos povos e sua sabedoria. Memória histórica A presença humana na Pan-Amazônia tem mais de 10 mil anos, quando o território passou a ser habitado por diferentes povos, incluindo as principais civilizações pré-colombianas. Com o processo de ocupação colonial de Portugal e da Espanha, a partir de 1500 d.C., estes povos sofreram “um agigantado processo de dominações”, cheio de “contradições e dilacerações”, conforme reconhece o Documento de Puebla (DP 6). O próprio documento preparatório do Sínodo afirma: “Lamentavelmente, ainda hoje, existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas”. A consequência disso é o enfraquecimento das estruturas sociais indígenas e o desprezo de seus saberes e de sua expressão. Os 400 anos de missão e evangelização passaram pelas contradições da mentalidade colonizadora e, apesar dos cerca de 200 anos de independência dos países da Pan-Amazônia, “processos semelhantes continuam se alastrando sobre o território e seus habitantes, hoje vítimas de um novo colonialismo feroz com máscara de progresso”. Essa realidade levou o Papa Francisco a afirmar, em Puerto Maldonado, que, “provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como estão agora”. Direito dos povos Em visita a Puerto Maldonado, o Papa Francisco falou que a Amazônia é vista como despensa de recursos naturais, sem levar em conta seus habitantes. As relações harmoniosas entre o Deus Criador, os seres humanos e a natureza foram quebradas pelas consequências nocivas do neoextrativismo de recursos como petróleo, gás, madeira e ouro, e pelos megaprojetos, como hidrelétricas, eixos viários e monoculturas agroindustriais. Francisco denunciou o modelo de desenvolvimento anônimo, obcecado pelo consumismo que transforma o “planeta num lixão”. Os novos colonialismos ideológicos, em nome do progresso, destroem as identidades culturais indígenas, portadoras de sabedoria ancestral de relação harmoniosa com a natureza. Além disso, segundo o Papa, há também políticas perversas de conservação da natureza que não levam em conta seus habitantes, que também têm direito ao desenvolvimento social e cultural. O direito ao território dos povos indígenas, campesinos e outros setores populares ainda gira em torno da falta de regularização de terras e de reconhecimento de suas propriedades ancestrais e coletivas, sem articular a dimensão cultural e a cosmovisão dessas comunidades. Para a Igreja, “Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental e um compromisso básico dos direitos humanos”, o que está de acordo com o enfoque da “ecologia integral” da encíclica Laudato Si’ (cf. LS, cap IV). Espiritualidade e sabedoria Na região amazônica, os povos indígenas buscam a sabedoria do bem viver, o que significa estar em comunhão com as outras pessoas, com o mundo, os seres em seu entorno e com o Criador, o que somente será alcançado “quando se realizar o projeto comunitário em defesa da vida, do mundo e de todos os seres vivos”. Dentro da grande diversidade cultural e religiosa, as comunidades são chamadas a se unir em defesa da vida e cuidar da Casa Comum. As famílias, como instituição social, têm dado uma grande contribuição para manter vivas as culturas. Mas há também a presença de algumas seitas motivadas por outros interesses que nem sempre favorecem uma ecologia integral.
Espiritualidade e ecologia integral

É urgente fortalecer relações comunitárias, cooperativas de produção, trabalho colaborativo, consumo consciente, comércio justo, respeito ao próximo e à diversidade e tantos outros aspectos humanos definitivamente incompatíveis com a lógica de acumulação do capital que “coisifica”, “explora”… Vivemos tempos difíceis, com pessoas adoecidas física e espiritualmente, sistemas social, político e econômico marcados pelo egoísmo do “salve-se quem puder”, corrupção… É preciso identificar o que não convém: “Aprender o caminho do inferno para dele se afastar”, como recomendava, há cinco séculos, Nicolau Maquiavel. Não temos mais tempo a perder. Juntos podemos iluminar alguns caminhos para uma ação cotidiana, silenciosa, que pode provocar mudança para uma vida harmoniosa consigo, com o próximo, com a Natureza e com Deus. A espiritualidade e a ecologia integral nascem da prática libertadora de Jesus que fez e continua fazendo, ainda hoje, o apelo a uma profunda conversão interior e integral para vida em abundância (Jo 10,10), de inter-relação entre pessoa-espiritualidade-natureza. Está em curso uma mudança da “ecologia ambiental” para a “ecologia integral”, incluindo a ecologia político-social, cultural, educacional, ética e a espiritual (Laudato Si’) que nos leva a uma consciência do rosto humano de Deus e nos impele a uma profunda defesa e valorização da vida humana em todas as suas manifestações. Como entender a “ecologia integral” com base na realidade que nos cerca e no momento político que vivemos no Brasil? Nossa proposta oferece uma reflexão baseada em três dimensões: religioso-missionária, comunitária e econômica. Vamos a elas. Dimensão religioso-missionária Na dimensão religioso-missionária, somos provocados a refletir sobre a experiência de fé e o diálogo, os desafios e a promoção da ecologia integral. Essa dimensão caracteriza a nossa relação com Deus, o Criador. Por essa relação, pode-se adquirir uma experiência da fé profunda que deve motivar para a convivência cotidiana na relação interpessoal. A experiência com Deus não é somente para construir uma relação vertical, mas ela fundamenta nossa relação com outros seres, outra criação. Nessa relação cabe um compromisso para que as mensagens e os mandamentos divinos sejam realizados para transformar a vida em mais integrada e harmônica. Por isso a missão é fazer o bem, promover e cuidar da vida em todas as suas manifestações, colaborar e fazer acontecer o que Deus quer e deseja desde a criação o mundo. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como a experiência de fé ajuda no diálogo e promove uma ecologia integral? Quais os desafios da missão na perspectiva da ecologia integral? Dimensão comunitária Na dimensão comunitária, somos provocados a refletir sobre os desafios que se apresentam no dia a dia nas comunidades, na Igreja, na sociedade. Precisamos ir além das limitações pessoais, sabendo que a missão é o maior tesouro. Como criar unidade nas diferentes maneiras de ser religioso, religiosa, cristão no dia de hoje em diferentes frentes de trabalho, como formação, vivências, visão de Igreja, culturas, partilha dos bens e interesses pessoais e comunitários? Só criando um diálogo de vivências comunitárias com respeito mútuo, interesses comuns e crescimento humano que aproximam o discurso da prática de vida. Cultivar os encontros e relacionamentos onde a vida familiar vai crescendo em exemplo e testemunho de fé como evangelizadores da Família Arnaldina. Cultivar verdadeiras amizades significa buscar valores em comum, aprender a gerenciar conflitos inerentes à convivência humana, um diálogo corajoso em refazer relações, momentos de partilha da fé, cultivar sonhos em comum, celebrar acontecimentos que reforçam a identidade. A figura a seguir propõe a “ecologia integral” como centro das atividades pastorais e comunitárias. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Acredito nos valores de uma comunidade que me faz crescer humanamente? Onde busco alimentar meu espírito comunitário? Qual a relação entre uma vida comunitária bem vivida e a contribuição ao meio ambiente? Dimensão econômica Na dimensão econômica, somos provocados a refletir sobre a urgência de uma articulação estratégica dos diferentes níveis do Poder Público para obtenção de resultados efetivos nas políticas ambientais que precisam estar presentes e articulados com as políticas educacionais, industriais, energéticas… Sabe-se da dificuldade em articular esferas de poder autônomas e com focos específicos, mas, pela ênfase na ecologia integral, pode-se estruturar uma grande transformação na realidade socioeconômica do Brasil. Estratégias para uma solução demandam uma abordagem articulada para combater a pobreza, garantir direitos e proteger a natureza. Não se trata de um documento para avaliar o índice de desenvolvimento humano (IDH), mas que o conceito de “ecologia integral” seja estruturante para todas as políticas públicas, no sentido de colocar o Brasil em outro patamar civilizatório, com geração e distribuição de renda e maior sustentabilidade. Como cidadão e cristão, a vida humana se sobrepõe a qualquer outro interesse de natureza econômica, comercial ou política. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como as políticas públicas podem promover a ecologia integral (CF 2019)? Como estimular o protagonismo dos cidadãos na intervenção social? Equipe de Espiritualidade Nacional SSpS e SVD: Maria Cristina Maia, Ir. Paolo Delucca e Pe. Matheus Nurak.