Acolher Jesus de verdade

O Domingo de Ramos nos provoca a dar um passo a mais: não apenas receber Jesus, mas caminhar com ele também nas horas difíceis. Nesta Semana Maior, acompanhe conosco as reflexões propostas pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS).

A cidade que sonhamos: casas abertas e uma mesa para todos

Neste Domingo de Ramos, abrimos a série Semana Santa Orante, assinada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro. O primeiro texto comenta a passagem do Evangelho de Mateus (21,1-11), proclamada nesta liturgia. Ao longo desta Semana Maior, em que celebramos as bases da fé cristã, acesse reflexões sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

A esperança de uma Jerusalém humanizada

Abrimos hoje a série Semana Santa Orante, proposta pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro. O primeiro texto comenta a passagem do Evangelho de Lucas (19,28-40), proclamada na liturgia deste Domingo de Ramos. Ao longo desta Semana Maior, acompanhe os textos que ajudarão a refletir sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, eventos centrais da fé cristã.

Domingo de Ramos

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste Domingo de Ramos, abrindo a Semana Santa, narrado em Marcos 11,1-10.

Jerusalém: uma “praça da alimentação”

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou, e diziam: ‘Quem é este homem?’” (Mt 21,10) Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar da acolhida, ambiente fecundo onde ninguém passaria fome, pois todos teriam o direito de participar da “grande mesa do pão”. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça, e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar da inclusão e da partilha, onde se cumpririam as esperanças dos povos. Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade…, desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade. Jesus entrou em Jerusalém rodeado pelo povo simples. Este povo, escravo e oprimido, o aclamou porque viu n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação; escutou seus ensinamentos e viu seus feitos durante alguns anos; sentiu-se tocado pelas palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz… Também viu seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de oferta de alimento aos famintos, de reabilitação dos desprezados, de acolhimento dos marginalizados, de denúncia dos opressores… Jesus quis continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quis também humanizar esta cidade para que ela fosse sol de justiça e paz para todos os povos. Esta é a cidade que Deus deseja: uma praça da alimentação, uma mesa celebrativa para todos. A praça é de todos e todos podem ter acesso a ela, todos podem circular livremente, criar relações e convivência, fazendo a experiência de serem aceitos e reconhecidos como humanos. A mesa, no centro da praça, é lugar de hospitalidade, de festa e de memória, lugar da partilha do pão e dos frutos da terra. Ali ninguém passa fome. Compartilhar a mesa é o grande símbolo da convivialidade, da reconciliação e da inclusão. O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A comunhão acontece por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que distribuem… A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão. Com o gesto do “re-partir” se estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, co-inspirar,o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma causa. E nada fica como estava… encantamento que faz ressuscitar a vida que já estava morta; refeição que transforma os desertos em mananciais de água. Fazer memória da entrada de Jesus em Jerusalém pode ser uma ocasião privilegiada para transitarmos por nossa Jerusalém interior, um bom espaço onde encontrar a nós mesmos, identificar-nos com os diferentes personagens e sentir-nos parte daquela história. O relato da Paixão de Jesus revela ser também a história de cada um de nós. Porque, afinal de contas, é uma história que aconteceu no passado e continua acontecendo também hoje, em nossa interioridade. E é a partir do hoje que nós temos de vivê-la, numa atitude contemplativa. E é a partir de nós, e não a partir daqueles personagens de então, que teremos de assumi-la. Vamos, então, com Jesus montado num jumentinho, transitar pelas ruas de nossa Jerusalém interna, reconhecendo os diferentes personagens que ali atuam e que significam diferentes atitudes vividas por cada um de nós. Cada personagem do evangelho é um espelho onde nos vemos. Jerusalém não é só uma cidade geográfica, situada na Palestina. Domingo de Ramos nos motiva a fazer o percurso em direção à nossa Jerusalém interior. Mas, para descer em direção a esta cidade, é preciso despojar-nos da vaidade, do prestígio e do poder, montado no jumentinho da simplicidade. Nossa Jerusalém interior é também lugar das contradições e ambiguidades; ali dentro experimentamos a trama de relações conflitivas, ali nos deparamos com as angústias, carências e dúvidas… É preciso cuidar o coração da nossa “Jerusalém interior”, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde e acolhedor espaço, para que o Espírito do Senhor possa aí descer e habitar, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura… É preciso voltar a pôr o “coração de Deus no coração de nossa Jerusalém”. Faz-se necessária uma opção corajosa, como Jesus, para entrar e estar no interior de nossa Jerusalém, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa no ritmo dos excluídos, dos sofredores, dos sedentos. A Campanha da Fraternidade deste ano quer despertar em nós uma sensibilidade solidária com aqueles que são vítimas de uma estrutura social e política que concentra os bens nas mãos de poucos, de maneira especial os alimentos. “Fraternidade e fome” denuncia a vergonhosa chaga social dos famintos em um país que é grande produtor de alimentos. A fome clama aos céus e ressoa em nosso coração; ela é expressão de uma profunda incoerência dos cristãos que se dizem seguidores d’Aquele que veio multiplicar os alimentos. Estamos muito distantes das primitivas comunidades cristãs que “tinham tudo em comum, partiam o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). Nosso coração deve se revelar como “praça da alimentação”. O lema da Campanha da Fraternidade deste ano – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de

Domingo de Ramos

“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”Lucas 19,29-40 (Como seria impossível fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma reflexão tão curta, refletiremos sobre o Evangelho da procissão.) Quase não há comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana ramos, celebram-se encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns fazem questão de não perder a procissão hoje. Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é importante estudar o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Dificulta nosso entendimento da passagem nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como “os pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias libertador. Nesse grupo, encontravam-se Maria, José e os discípulos de Jesus. Foi dentro dessa espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as características do messias: seria um rei “justo e pobre”, não de guerra, mas de paz. Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e nosso), em que os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos. Seria uma sociedade na qual, entre outros elementos, a economia estaria a serviço da vida. Um rei jamais entraria numa cidade montado em um jumento, o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco, de raça. Jesus, entrando assim, fez uma releitura de Zacarias e se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um governante de nossos tempos: com pompa, imponência e demonstração de poder e força. Na verdade, houve uma procissão assim em Jerusalém, no mesmo dia da entrada de Jesus: a entrada do procurador romano Pôncio Pilatos, com toda a pompa, chegando de Cesareia Marítima, com uns cinco mil soldados, para ostentar o poder repressor do Império. À tarde, pela porta oriental, Jesus fez o contrário. Entrou como o Servo de Javé, na simplicidade que é própria de Deus e de seus enviados. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus”, e realmente o foi, mas como triunfo do Deus que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O poder e a pompa seduzem. Devemos ficar eternamente gratos ao Papa Bento XVI pelo desapego que ele demonstrou em renunciar, pelo bem da Igreja. Uma atitude digna de um verdadeiro discípulo do Mestre do Domingo de Ramos. O texto convida todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos outro Jesus: poderoso nos moldes de nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? Aquela semana foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus, de suas opções concretas em favor dos oprimidos, de seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas e econômicas de sua proposta de uma sociedade justa e igualitária, manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramarem sua morte. É importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequência de sua vida. É impossível entender o que significa a Semana Santa sem a ligar com o resto da vida de Jesus e com sua proposta para a sociedade e para seus seguidores. Jesus não morreu, mas foi morto porque incomodava, como continua a incomodar, ainda hoje, os que mantêm o sistema opressor, que é a expressão do antirreino, mesmo quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo. Adverte-nos um canto usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou apenas fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Domingo de Ramos

“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”Marcos 11,1-11 Uma das grandes festas religiosas na tradição popular brasileira é a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos. Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns hoje fazem questão de não perder a celebração. Tudo isso tem o potencial de ser muito positivo, mas, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore ou teatro, acredito ser importante aprofundar, com base em textos bíblicos, o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Talvez nosso entendimento da passagem (como de outros textos) é dificultado pela nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Para que entendamos bem o sentido do gesto profético de Jesus nesse evento, seria bom relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os anawim, na língua hebraica, ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Herdeiros dessa espiritualidade e esperança seguramente estavam Maria e José, e os discípulos e discípulas de Jesus. O Senhor foi educado dentro dessa espiritualidade. Zacarias traçava as características do verdadeiro messias: seria um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra, mas de paz. Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós), onde poderosos e ricos oprimiam os pobres e pacíficos. Um rei jamais entraria em uma cidade montado em um jumento (o animal do pobre camponês), mas em um cavalo branco, de raça. Então Jesus, fazendo sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um presidente ou governador dos nossos tempos: de pompa, imponência e demonstração de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus. O contrário do que significava o que Jesus fez. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”, e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor, o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus. De fato, naquele dia, havia duas procissões entrando em Jerusalém. Primeiro, pelo portão ocidental, a de Pôncio Pilatos, representante do imperador, que chega de Cesareia Marítima com uns cinco mil soldados legionários. Podemos imaginar a impressão causada: milhares de soldados com espadas, elmos e escudos brilhando no sol, trombetas tocando e Pilatos montado num cavalo de raça branco, para demonstrar o poderio de César, o opressor do povo. À tarde, entrou pelo portão oriental uma pequena procissão, de um camponês pobre, Jesus de Nazaré, montado num jumentinho com seu séquito de pobres e estropiados. O anti-Rei, diante do poder opressor de César. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O texto de hoje convida a todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus, poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? É valiosa a advertência contida em um canto muito usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força do direito (Jesus e seu projeto de vida) ou no direito da força (tantos poderosos do cenário mundial com o seu projeto de morte)? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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