Educar para o diálogo: a diversidade como caminho de aprendizado e transformação

No contato com o diferente, somos confrontados com nossos próprios preconceitos e limitações. Tendo o outro como espelho, nós nos deparamos com os contrastes. O educador deve ensinar (pelo exemplo) que escutar não significa necessariamente concordar, mas sim reconhecer o direito do outro de existir e se expressar. Veja o artigo de Ana Paula Lopes, coordenadora de Educação Inclusiva da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

Diálogo

A palavra diálogo tem sua raiz no grego, cujo prefixo “diá” significa “através de” e “logos” que quer dizer “palavra”, “saber”. Resumindo: diálogo é o processo de conhecimento através da palavra. O diálogo, nesse sentido, envolve sempre duas ou mais pessoas que, pela conversa, buscam o conhecimento sobre um determinado assunto. É uma conversa interativa entre duas ou mais pessoas. Supõe, portanto, que um compreenda o outro em sua maneira de ver o mundo e interpretá-lo. Parte-se do princípio de que todos têm algo a contribuir na busca da verdade. Para dialogar, é preciso uma atitude de abertura para acolher a opinião do outro, livre de preconceitos, procurando ouvir o sentido real da forma como o outro vê. Muitas vezes, ocorre que, quando alguém começa a emitir uma opinião, alguém já o corta e diz “Ah, já sei o que você quer dizer”, e conclui pela pessoa, sem dar ouvido às conclusões do outro, que podem ser bem diferentes do “ah, já sei”. Num diálogo nem sempre se chega a uma conclusão consensual. Na verdade, não se é obrigado a concordar com alguém se a opinião dele diverge frontalmente com as próprias convicções. Contudo o bom dialogante respeita a opinião divergente sem se tornar inimigo ou beligerante. O diálogo supõe respeito pelo outro e pelo que pensa. A Campanha da Fraternidade deste ano de 2021 propõe “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Ela é ecumênica, que significa que várias igrejas cristãs participam dela, sendo que cada uma tem a própria doutrina, com alguns aspectos divergentes umas das outras, contudo o diálogo é possível sobre os pontos em comum. O grande objetivo da campanha é a busca da “paz” oriunda de Cristo. Como a Campanha diz, Cristo é nossa paz. Quanto a isso todas as igrejas participantes concordam, e o diálogo é feito para realizar essa paz na sociedade dividida por discórdias, ódios, separações, preconceitos. Num mundo tão plural em ideias e ideologias, mais do que nunca, é necessário o diálogo permanente na busca da verdade para uma convivência pacífica. O igualitarismo seria tedioso e negaria uma característica humana que é a da complementariedade em todos os níveis. Nenhum cientista é capaz de realizar todas as descobertas. Cada nova iniciativa de pesquisa sempre parte de algo já conhecido, portanto, de alguém que pesquisou antes e abriu janelas para novos conhecimentos. Nesse sentido, nenhuma ciência é completa em si mesma. A Física precisa da Química, que precisa da Matemática, que precisa da Sociologia, da Filosofia, da Teologia; assim cada uma contribui com o seu saber para complementar o conhecimento mais amplo do mundo e da complexidade que envolve o universo. Pode-se falar em diálogo então em todos os níveis, desde a convivência familiar, diálogo entre seus membros; da convivência social com grupos heterogêneos; das relações entre povos e nações; das teorias econômicas, das relações de negócios; das crenças diferentes, das cosmologias discutidas nas diversas teorias. Dialogar é preciso para manter viva uma característica básica do ser humano, que é a convivência com seus pares e com o mundo em que habita. Não estar aberto ao diálogo é caminhar na contramão da vida e fechá-la em horizontes muitos pequenos. Quem não dialoga se perde no próprio caminho e se distancia da convivência pacífica com os demais. O diálogo envolve um aprendizado, que supõe respeito pelo outro e pelo que pensa, admitindo que a verdade total não está só de um lado e que há espaço para todos e liberdade de expressão das próprias ideias e sentimentos. O bom senso diz que ninguém pode ultrapassar os limites quando isso ofende, intimida ou menospreza o outro. A liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Dialogar é também respeitar limites. Por isso é dialogando que se pode chegar ao mais próximo da verdade. Ninguém dialoga sozinho, isso seria manifestação de doença psíquica. Dialogar, portanto, implica relação com o outro. Dialogar é abrir a porta para a convivência sadia e humanizadora. Humanize-se dialogando! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Diálogo: compromisso de amor

A Campanha da Fraternidade chegou para ajudar na consciência de que o diálogo é o único caminho possível para um compromisso de amor e fraternidade. Esse é um dos motivos de ser mais um projeto de campanha ecumênica. Ao chamar a atenção para a necessidade de aceitar plenamente as pessoas que são diferentes e ver, nas diferenças, a riqueza da família humana, convida a trilhar caminhos que redescubram a força e a beleza do diálogo como compromisso de realizações mais amorosas e humanas; afinal não é possível acreditar na diversidade e, ao mesmo tempo, discriminar e desrespeitar por diferenças étnicas, religiosas ou de gênero. Muito além de pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação, pelo diálogo, das polarizações e violências, testemunhando a unidade na diversidade, compõem os objetivos da Campanha o engajamento em ações concretas de amor ao próximo, a conversão de uma cultura de ódio para uma cultura do amor, a convivência fraterna como experiência humana irrenunciável, em meio a diferentes crenças, ideologias e concepções, e em um mundo cada vez mais plural, e a partilhar de experiências concretas de diálogo e convívio fraterno. E quando falamos em experiências concretas de diálogo, vale a pena lembrar que ele é muito mais que uma conversa pontual. O diálogo é um estilo de vida É a capacidade de compreender o outro por sua forma de ver o mundo e compreender as coisas. Assim, quanto mais crescemos no diálogo como capacidade de escuta ativa, mais a paz se torna presente em nosso meio. Em um mundo de polarizações como lembramos acima, o diálogo pode ser o caminho para a construção desse lugar que buscamos. Jesus nos ensina a capacidade da escuta, da compreensão do outro, de forma empática. Ensina ainda que, no diálogo, não existem ganhadores, afinal seu objetivo é compreender uns aos outros, o que não deixa de ser também uma forma de amar o próximo. Mesmo nas diferenças, devemos buscar sempre o que nos une, o que nos conecta como família humana, e destruir os muros de separação. Para isso, faz-se necessário favorecer espaços para a vivência do diálogo, da diversidade, da união que gera necessariamente o respeito. O maior testemunho cristão e humano que podemos dar ao mundo é nossa capacidade de acolher a diversidade e possibilitar a união e o respeito para que, assim, possamos sempre celebrar a vida. Recuperar a nobre capacidade de dialogar diante de tantas fragmentações, quando parece que já não conseguimos mais escutar uns aos outros, é sim uma das formas de amar. Fazer a opção pelo diálogo significa recuperar em nós a nobre capacidade de um coração capaz de cuidar uns dos outros, por meio de uma escuta que dá ao outro a possibilidade de ser por inteiro. Muitas vezes, alguém mal começa uma conversa, e nós já estamos pensamos na resposta a ser dada, perdendo a oportunidade de compreender o outro a partir de um espírito cristão de entendimento, de sua história de vida, de como compreende o sentido da vida e o sentido do mundo. Cada uma das campanhas sinaliza que o diálogo é nosso melhor testemunho, e nossa fé anima-nos a prosseguir pelo caminho da unidade na diversidade. Oxalá, como discípulos de Jesus, aprendamos que só o diálogo com Jesus faz o coração arder; afinal, se o coração arde em chamas pelo projeto de Jesus, os pés partem em missão. ReferênciaCONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2020. Agostinho Travençolo Junior é educador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

Sínodo: missionário verbita defende uma Igreja como rosto amazônico

Neste domingo, 27 de outubro, concluiu-se um dos mais importantes eventos do pontificado do Papa Francisco, no que se refere à América Latina. O Sínodo da Amazônia reuniu no Vaticano centenas de pessoas, entre eles representantes de povos nativos dos nove países que compõem a Pan-Amazônia, missionários e missionárias leigos e consagrados, padres e diáconos, e especialistas de diversas áreas. Entre os convidados estava o padre José Boeing, missionário verbita que trabalha no Pará. Ele representou o superior-geral da Congregação, o Pe. Paulus Budi Kleden. Paranaense, o padre atua na Paróquia São José Operário, em Trairão-PA, e há 29 anos luta pelos direitos dos povos da floresta. Em entrevistas ao Vatican News, o religioso da Família Arnaldina apresenta suas impressões e expectativas quanto ao Sínodo. Igreja feminina Padre Boeing salienta que há um esforço grande para que os leigos sejam sujeitos da missão. “Faltam missionários, mas estamos aqui defendendo uma Igreja ministerial; quer dizer, não queremos somente consultar os leigos, mas que eles tenham o poder de decisão”, defende. Ele relata, por exemplo, que 70% das comunidades cristãs são guiadas por mulheres, sejam religiosas, sejam leigas. Por isso acha justo que o papel delas seja discutido mais profundamente no encontro. Justiça eficiente Também destacou a luta em favor dos direitos humanos. Ele denuncia que o Brasil propaga aos outros países uma criminalização dos movimentos sociais. “As pessoas que lutam são taxadas como inimigas do progresso, do capitalismo, portanto são perseguidos em suas comunidades, sejam líderes sindicais, das associações, inclusive da Igreja”, relata. O missionário defende que a Igreja também incentive que o Estado, por meio do Judiciário, possa julgar efetivamente os crimes. “Nós temos uma impunidade na Amazônia. Não existe boletim de ocorrência, não tem processo. Por isso é fácil eliminar o outro, com interesses econômicos, políticos, sociais”, afirma. E continua: “Que não possamos nos calar diante dessa situação. Que nós sejamos solidários com quem está sendo ameaçado. A Igreja deve, sim, se posicionar e exigir que o Estado assegure o direito das pessoas”. O próprio verbita, advogado e mestre em Direito, já recebeu ameaças de morte. Ele mantém o projeto “Agentes Comunitários de Justiça e Paz”, de incentivo à justiça restaurativa, para ele mais eficiente que a punitiva. Diálogo “Lá já estava o Espírito de Deus”, por isso o Pe. Boeing afirma que os evangelizadores precisam ter uma cuidadosa atitude de escuta, para compreenderem as culturas que eles encontram na Amazônia. “Por que não, na liturgia, falar de um rito amazônico? Respeitando, assim, as culturas e as tradições que lá existem”, propõe. O religioso conta que os verbitas atuam na Região Amazônica desde 1980, com o compromisso de ser uma Igreja inculturada a serviço do povo. “O que a Congregação defende está sendo discutido aqui: diálogo intercongregacional, diálogo inter-religioso, com as culturas, defesa dos territórios, dos povos”, diz ao jornalista Silvonei José Protz, de quem o missionário foi colega no Seminário de Ponta Grossa-PR. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.

Bomba! Diálogo inter-religioso e Ecumenismo não são a mesma coisa!

Vai uma salada aí? Este é um daqueles assuntos que confundem as pessoas e que acabam sendo passados adiante de forma errada. Não mais! Porque hoje vamos esclarecer sobre este tema que envolve várias religiões. Ontem foi o Dia de Liberdade de Cultos, uma data importantíssima em respeito à escolha de expressão da fé de cada um. E por falar em cultos, hoje vamos explicar a diferença entre o diálogo religioso e o ecumenismo. Diálogo inter-religioso x Ecumenismo Ecumenismo é a o diálogo entre os cristãos que professam a mesma fé, ou seja, acreditam no Pai, no Filho e no Espírito Santo – a Trindade, na ressurreição de Jesus e todos os acontecimentos do Novo Testamento. Ele promove a união entre todos os cristãos. Já o diálogo inter-religioso acontece entre as diferentes religiões, como Islamismo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo, Xintoísmo, Espiritismo e outras. Este diálogo serve para aproximar as pessoas e trata-se de uma conversa sobre como a graça de Deus opera no coração e na vida dos homens e também como Deus nos aproxima da verdade, da justiça e da paz. Pra que diálogo? Somente um propósito divino mesmo, pra colocar pessoas de diversas religiões numa mesma sala, algumas até tradicionalmente consideradas ‘inimigas’ das outras. Mas veja bem, o intuito deste diálogo é fazer com quem todos os líderes religiosos possam entrar num consenso para a construção de uma sociedade ideal, onde todos se respeitem e contribuam para o crescimento pessoal e social do meio em que vivem. “O diálogo ecumênico e inter-religioso não é um luxo. Não é algo exterior ou opcional, mas é essencial, algo de que o nosso mundo, ferido por conflitos e divisões, tem cada vez mais necessidade.” – Papa Francisco

Irmã Missionária SSpS participa de encontro inter-religioso

“Uma visão feminina sobre a paz num encontro de mulheres de diferentes religiões e crenças” Esse foi o tema do encontro Unidas Pela Paz – Um Diálogo Inter-Religioso promovido pela Na´amat Pioneiras, uma organização de mulheres que visa contribuir para o desenvolvimento da mulher e preservar as tradições e a identidade judaica. Realizado em São Paulo no dia 27 de agosto no  Hotel Meliá Jardim Europa ( Itaim Bibi, São Paulo), o encontro contou com a participação de mulheres de diferentes religiões e crenças que apresentaram suas visões sobre a paz em uma mesa redonda com a mediação da jornalista Rosana Hermann, roteirista chefe do humorista Fábio Porchat. As convidadas para a discussão foram a Monja Cohen (comunidade budista), Monica Buonfiglio (comunidade espiritualista), Pastora Merly Christina S. do Nascimento (comunidade evangélica), Paloma Awada (comunidade muçulmana), Rabina Fernanda Tomchinsky Galanternik (comunidade judaica) e a nossa Irmã Missionária Serva do Espírito Santo Nelly Boonen, co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP da área prisional, judicial e pastoral, representando a comunidade católica. Assista a reportagem sobre o encontro:

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