Homenagem das irmãs SSpS no Dia Internacional da Mulher. Assista!
Uma homenagem da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS) à força das mulheres que caminham juntas. “Ela é meu dia” é uma reflexão poética sobre amizade feminina, solidariedade e a luz que as mulheres se tornam umas para as outras. Assista!
Mulher feliz é mulher respeitada

Mesmo com avanços em direitos e políticas em favor das mulheres, o Brasil está em quinto lugar em feminicídio. Em 2025, os casos cresceram 4,7%, com recorde de registros de casos provocados por parceiros ou ex-parceiros, majoritariamente em casa. Maria Terezinha Corrêa apresenta outros dados e fala da importância do cuidado e respeito às mulheres.
Entre ações e orações: violentômetro

Eu até peço a Deus que nos livre do mal que é o feminicídio. Mas, além de rezar, eu me lembrei também do “Violentômetro”, um material muito didático, criado originalmente no México. Orações e ações mudam histórias! Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, veja o impressionante alerta de Maria José Brant (Deka)!
Mulher, pedaço do mundo

Sou um pedaço do mundo O mundo é um pedaço de mim Sou braço, colo e abraço Sigo intuição e metas Sou vazio e solidão De repente, sou lágrima e dor, alegria e rancor, compaixão e paixão A paz e a guerra habitam em mim A esperança e a força bruta correm nas minhas veias Acredito no que não vejo e não creio em muita coisa que insisto em enxergar Escuto pássaros nos locais menos improváveis Aprecio o choro de quem se banha de lágrimas para (re)nascer A vida pulsa em mim e, para seguir viva, também pulsa no Universo A fé me cobre nos caminhos mais íngremes Eu nunca estou só Sou filha, mãe, neta, bisneta, irmã, prima, amiga Somos muitas Sei ser pá, terra e semente Sei ser paz e compaixão, e indignação Aprendo a ser cerca e me afasto Sou mulher, sou “humananidade” Enxergo o mundo pela lente do amor, vejo dores, sinto sabores, dissabores e odores. Devolvo conchas para o mar e deixo as pedras rolarem Sou corrente elétrica, tenho correntes em mim Abro portas e janelas para a vida me levar, e para (tentar) ir aonde quiser Aprendi a atirar pedras no leito do rio, para formar círculos infinitos Nasço mulher, acordo mulher, durmo mulher Há mulher em mim que se cala e tem medo Tem mulheres caladas para sempre, na ironia de quem se acha mais e é menos Sou mulher, realizo, destruo, construo e desconstruo o que querem de mim Na matemática da vida, lido com equações, divisões, somas, subtrações e multiplicações, em possibilidades infinitas Sou o que quiser, somos os quereres de muitas mulheres Somos mulheres Sou mulher Sou um pedaço do mundo O mundo é um pedaço de mim Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Mulher: gênero, biologia, trabalho e construção cultural

Você se lembra da música de Benito Di Paula? “Agora, chegou a vez, vou cantar / Mulher brasileira em primeiro lugar / […] Norte a sul / Do meu Brasil / Caminha sambando/ Quem não viu / Mulher de verdade / Sim, senhor / Mulher brasileira é feita de amor.” Refletindo sobre o Dia Internacional da Mulher, podemos perceber que a música sempre exaltou a mulher em prosa e verso, entretanto vemos muitas batalhando no trabalho, criando os filhos, dedicando-se à família, sem falar naquelas que arrumam tempo para estudar e dedicar-se à solidariedade. Temos cientistas de renome, exemplos de várias “guerreiras”. Mas como o Brasil é o quinto país em feminicídio? Infelizmente, nas sociedades humanas, ainda existe uma mentalidade de que mulher deve somente servir ao homem, seja o pai ou o marido, cuidar das tarefas domésticas e das crianças. Trabalhar fora de casa, dirigir um carro ou uma empresa é coisa para homem. O péssimo exemplo de um deputado do Estado de São Paulo, que foi à Ucrânia recentemente, em tempo de guerra, com uma proposta “humanitária”. Postou em uma de suas redes um comentário, afirmando que “as ucranianas são fáceis porque são pobres”, comparando a fila de refugiadas com a fila de baladas no Brasil. Um médico turista, em um dos países do Oriente Médio, também fez comentários maldosos a uma comerciante. Uns meses antes, durante a Copa do Mundo, na Rússia, um advogado foi advertido por mexer com jovens do local. Esses fatos demonstram como a mente machista ainda está fortemente presente no sexo oposto. A cada minuto, temos notícias de violência doméstica, tanto física e psicológica quanto patrimonial. Quase sempre, não há aceitação do término de um relacionamento, significando que o outro é visto como propriedade privada, rejeitando a ideia de liberdade das mulheres e suas conquistas. A pensadora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) fez muitos estudos sobre a condição da mulher na sociedade. Em sua obra O segundo sexo (1949), afirmou que “ninguém nasce mulher, mas se torna mulher”. Conforme a mulher conquista seu espaço, cresce seu reconhecimento. Nesse sentido, a questão do ser mulher não é biológica, mas cultural ao longo da história de um povo. A questão de gênero (masculino/feminino) é vivida por homens e mulheres, independentemente da visão biológica, mas em determinada época e lugar. O corpo é construído culturalmente. Assim, o corpo da mulher, em nossa sociedade, foi “coisificado”, ou seja, passou a ser visto como uma mercadoria, uma “coisa”, basta observar as propagandas. Neste século XXI, muitas mulheres têm ocupado diversos espaços, mas ainda precisamos de mulheres ocupando os espaços políticos, como as câmaras municipais e o Congresso, o cenário científico-acadêmico, etc. Procuremos educar as gerações com sabedoria e nos despertar para a importância de sermos tratadas como seres humanos e não como coisa mercadológica. Há muito trabalho a ser realizado. Aproveitemos a Campanha da Fraternidade, que reflete sobre não condenarmos a mulher, atirando pedras, como faziam os fariseus, mas dando oportunidades, gerando vida. Mulheres, uni-vos! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura, pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
A mulher na política brasileira

Quantas vezes você ouviu as expressões “lugar de mulher é na cozinha” ou “mulher no volante, perigo constante”? Essas frases transmitem uma mentalidade machista e preconceituosa. Em tempos remotos, cozinhar já era uma atividade fora da moradia, como acontece em algumas culturas. E quais foram as mulheres que criaram movimento para combater o preconceito e lutar pela liberdade feminina no Brasil? Sabemos que as mulheres brasileiras começaram suas conquistas com muita persistência e busca de ideais. Graças à luta delas pelo direito à vida, à terra, ao estudo básico e superior, ao voto, à dignidade, conquistaram reconhecimento perante a sociedade atual. Como exemplos, temos Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares (falecida em 1694); a indígena Clara Camarão (século XVII); Luísa Mahin, mãe de Luís Gama (falecida em 1882); Maria Quitéria, que lutou pela Independência do Brasil (falecida em 1853); Nísia Floresta, primeira educadora negra do Brasil (falecida em 1885); a bióloga e política Bertha Lutz, que lutou pelo direito do voto feminino (falecida em 1976); Lélia Gonzalez, filósofa e antropóloga, cofundadora do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras do Rio de Janeiro (falecida em 1994); Therezinha Zerbini, advogada e ativista dos direitos humanos, fundadora do movimento feminista pela anistia (falecida em 2015); e tantas pensadoras e batalhadoras de nosso dia a dia, como Maria da Penha. A discriminação da mulher ocorre em todas as camadas sociais. A violência contra o sexo feminino vem de longa data. Infelizmente, o Brasil é o quinto país no mundo em feminicídio. De acordo com dados do IBGE (2020), com a pandemia, 35% das mulheres brasileiras têm sofrido violência sexual e psicológica. Todavia, graças à coragem de Maria da Penha, vítima de violência doméstica, depois de várias denúncias policiais contra seu parceiro, reivindicou proteção à vida, garantindo para as demais companheiras o direito a um recomeço longe de seus desafetos, ao ser criada a Lei n.º 11.340/2006, que tenta coibir maus-tratos e desrespeito. O Disque 180 e as delegacias da mulher têm sido uma ferramenta de amparo e esperança. Caso precise ou conheça alguém que necessite, utilize. Conforme o censo do IBGE de 2010, a maioria da população brasileira é do sexo feminino (51,5%, sendo 43,6% brancas e 56,10% que se declaram pardas e negras, destacando 9,7% de mulheres indígenas). Isso demonstra que, mesmo sendo a maioria no País, a cidadã brasileira ainda é pouco reconhecida na sociedade. Com efeito, a cada eleição, as brasileiras têm procurado seu espaço na política. No Congresso Nacional, atualmente temos como representantes do povo 76 deputadas federais, o que corresponde a 15% do total de 513 parlamentares, e 12 senadoras, entre os 81 senadores. Percebe-se que há, ainda, uma tímida participação feminina nas eleições também das câmaras municipais, mesmo com a Lei n.º 9.504/1997, que estabelece 30% de mulheres nos partidos políticos. Entretanto sabemos que, na realidade, a participação das mulheres na política brasileira não é satisfatória. Na eleição de 2018, apenas uma governante é do sexo feminino, a do Estado do Rio Grande do Norte, tentando cumprir seu mandato. Na História do Brasil, até hoje, somente tivemos uma presidente, Dilma Rousseff, que sofreu com as pressões machistas. Em 2022, teremos novas eleições e precisamos nos conscientizar da força e da responsabilidade política que todos nós temos. Sabemos que a educação da mulher tem, no Brasil, em seu núcleo familiar, uma história conservadora, gerando preconceitos e discriminação, reproduzindo a mentalidade machista, já que a educação dos filhos, por várias gerações, ficou sob sua responsabilidade. Nesse sentido, desde quando a mulher passou a trabalhar fora, percebeu a exploração da mão de obra, o assédio sexual, além da violência doméstica. Com a união e a força do movimento feminista/feminino, o respeito pelo “sexo frágil” passou a ser conquistado. A afirmação da pensadora francesa Simone de Beauvoir (1905-1986), “Não se nasce mulher; torna-se mulher”, provoca muitas reflexões que geram ações de busca pela liberdade feminina de construções culturais equivocadas. A educação da mulher, embora tímida, reflete na educação bem como em várias esferas sociais. Reconhecer a participação feminina nos projetos de políticas públicas, nas universidades, nas manifestações artísticas e desportivas é necessário para a emancipação da sociedade brasileira, que busca viver uma democracia plena. Infelizmente o “empoderamento” feminino tem incomodado o sexo oposto, acostumado, culturalmente, a ser o poder, tanto no espaço público quanto no privado. A compreensão dos papéis de ambos os sexos se faz necessária para uma parceria que, naturalmente, deveria ser para o bem comum. Que o Dia Internacional da Mulher não seja apenas uma demonstração do carinho, da ternura e da delicadeza estereotipados como características do sexo feminino, que, muitas vezes, se “coisifica” nos comerciais, sendo objeto de desejo, recebendo flores, mas seja de engajamento nos movimentos de luta pela conscientização de políticas públicas à dignidade humana. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
Mulheres comprometidas com a vida

Março começa com a letra M; “M” de “mulheres”, “M” de “meninas” e, por que não, também “M” de “musas” inspiradoras da vida? Já pensou em quantas conquistas as mulheres brasileiras conseguiram ao longo dos últimos séculos? Você sabia que, em 1879, as mulheres no Brasil ganharam o direito de cursar uma faculdade? Lembrando, contudo, que eram apenas as da classe privilegiada, em tempos ainda de Monarquia. Em 1932, Período Republicano, às brasileiras foi garantido o direito de votar? Graças à reivindicação de um grupo de mulheres no Rio Grande do Norte. Nas décadas entre 1960 a 1980, muitas artistas, cantoras e atrizes revelaram-se no mercado da indústria cultural? Em 2006, criou-se a Lei Maria da Penha para combater a violência doméstica? Em 2010, escolhemos a primeira mulher presidente da República? Em 2015, a Lei de Feminicídio classifica o assassinato de mulheres como crime hediondo? Quantas mulheres lutaram pela liberdade e, até hoje, buscam pelo direito a uma vida digna, de escolher estudar, de ter uma profissão, de poder constituir sua família na paz? Mulheres de Abaeté, de Itapuã, lembradas no enredo do carnaval deste ano, mulheres quilombolas, indígenas, ribeirinhas, afrodescendentes, mulheres operárias, caminhoneiras, costureiras, cozinheiras, diaristas, domésticas, jogadoras, jornalistas, metalúrgicas, motoristas, professoras, arquitetas, médicas, engenheiras, advogadas, teólogas e tantas outras, enfim, conquistaram o espaço que antes era só masculino. Desde a Antiguidade, as mulheres ocidentais sofreram preconceitos, principalmente em relação à participação política. Ao longo da História, várias foram caçadas como bruxas, queimadas vivas, como na Inquisição, ou assassinadas por questionar atitudes desumanas e injustiças sociais. Um exemplo foi a francesa Olympie de Gouge, que criou a Declaração Universal da Mulher e da Cidadã (1791), como crítica ao Estatuto do Homem, após a Revolução Francesa. Pouco depois, foi morta (1793). No século XIX, outras tantas se comprometeram com a vida das mulheres, enfrentando até chefes, intelectuais, autoridades, como Rosa Luxemburgo. Uma fábrica em Nova Iorque, em 1911, sofreu um incêndio, e 130 operárias morreram carbonizadas, marcando, assim, a data do Dia Internacional das Mulheres. Em 1917, 90 mil operárias participaram do movimento “Pão e Paz” na Rússia. Em 1918, na Inglaterra, as mulheres conquistaram o voto e, somente em 1945, a Carta das Nações Unidas reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, garantindo a vida, a liberdade e a segurança. Na década de 1960, os movimentos feministas possibilitaram avanços internacionais das mulheres de conquistar seu espaço na sociedade, permitindo ver, sentir e cuidar melhor da vida. Simone de Beauvoir, Bertha Lutz, Olga Benário Prestes, entre outras, foram pioneiras em pensar num mundo melhor para todos. Nossa esperança é que as “meninas-guerreiras” do século XXI continuem com coragem e comprometidas com a vida, não somente pessoal, mas também planetária, a exemplo de Malala, que luta pelo direito das meninas à educação; Gretha, que busca conscientizar mundialmente a preservação do meio ambiente, sem esquecer que muitas deram e dão a vida por um mundo de paz e justiça. O Dia internacional da Mulher é lembrado em diversas partes do mundo, gerando vida nova a todas que estão a seu redor. No Brasil, sabemos o quanto ainda temos de melhorar: a presença das mulheres na política, o combate ao feminicídio, a violência doméstica, a igualdade salarial entre os gêneros, os direitos das mulheres rurais e domésticas em se aposentar com dignidade e tantos outros projetos. Elas renunciam a fama, o sucesso, a carreira, a família, mas, com fé, lutam pelos menos favorecidos em orfanatos, em hospitais, atendem moradores de rua, atuam em casas de recuperação, vivem em favor dos indígenas em aldeias, trabalham em campos de refugiados, fazem visitas a presidiários, a idosos e tantos outros. Temos muitos exemplos como os de Ir. Dorothy Stang, Margarida Alves, Santa Paulina, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce e tantas anônimas e voluntárias que ao verem a necessidade de humanos e também de animais, sentem empatia e buscam cuidar para o bem. Mulheres comprometidas geram vida! Maria Terezinha Corrêa é Mestra em Antropologia pela USP, especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, graduada em Filosofia pela UFJF e em Pedagogia pela Unitins, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, trabalhou por 27 anos na Rede Estadual de Ensino Oficial de São Paulo, lecionando Filosofia e Sociologia, atuou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.
Chega de violência contra a mulher

Celebrar o Dia Internacional da Mulher não é simplesmente reconhecer sua importância na sociedade, a qual é inegável, mas é, antes de tudo, um grito de protesto contra todo o sofrimento que é imposto às meninas e às mulheres no mundo inteiro. Por que será que as mulheres precisam carregar um fardo tão pesado de discriminação, violência, desigualdade e preconceito? Quanto dano faz uma cultura machista! Ser diferente não quer dizer ser inferior ou superior, significa apenas ter habilidades e possibilidades distintas para nos ajudar mutuamente e nos complementar como seres humanos, com os mesmos direitos e deveres. Infelizmente, ainda estamos longe disso. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking dos países onde há o maior índice de feminicídio no mundo. Só em 2016, uma mulher brasileira foi assassinada a cada duas horas. Mas o que é feminicídio? É matar uma mulher pelo fato de ela ser mulher, ou seja, por questões de gênero, em consequência do menosprezo ou discriminação da condição feminina. No Brasil, muitas mulheres são assassinadas pelos seus próprios maridos ou namorados. Até bem pouco tempo, as penas desses crimes eram abrandadas por estes serem considerados passionais e em defesa da honra. Somente a partir de 2015 o assassinato de mulheres passou a ser tido como crime hediondo, graças à Lei 13.104, que alterou o Código Penal Brasileiro. É preciso entender que o feminicídio é o último estágio da violência contra a mulher. Segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016, a cada hora, 503 mulheres acima de 16 anos foram vitimadas, resultando em 4,4 milhões de casos denunciados. Essas agressões foram desde a ofensa verbal e a ameaça até a violência física. Estes dados são alarmantes! Mas de onde vem toda essa violência? De acordo com a Organização das Nações Unidas, as agressões estão relacionadas ao sentimento de posse e de controle do homem sobre a mulher e seu corpo, do desejo de limitar sua emancipação e autonomia, e ainda o desprezo e até mesmo o ódio por sua condição de gênero. Todos esses fatores são culturais e precisam ser mudados. Daí a importância de abrir os olhos para o que está acontecendo e denunciar, ajudar as mulheres que sofrem agressões a buscarem amparo legal. Para isso temos a Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher. Vamos, sim, comemorar o Dia Internacional da Mulher, homenageando sua coragem, sua criatividade, seu cuidado pela vida, sua capacidade de amar e de criar beleza ao seu redor. Vamos agradecer às mulheres por tornarem o mundo um lugar muito melhor… Mas vamos também dizer “chega”! Chega de violência contra a mulher! Chega de feminicídio! Chega de desigualdade, preconceitos, exploração sexual e de todos os tipos de exploração! Chega de abusos contra a mulher! Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
Empoderamento feminino é uma questão de consciência. – Entrevista com Irmã Cecília Hansen

O dia das mulheres sem dúvida é uma data memorável para todos nós, para lembrar da força das mulheres e de toda sua conquista na sociedade ao longo dos anos. E o que mais nos chama a atenção no ser feminino, é que, ao mesmo tempo que possui uma lado carinhoso e delicado, ele também possui um lado forte e virtuoso. Essas incríveis qualidades, infelizmente, não são do conhecimento de muitas mulheres, ou até são, porém existe o medo do despertar desta força. Nossa Ir. Cecília Hansen, que durante 17 anos trabalhou com os grupos de mulheres nas periferias de São Paulo, conta como foi sua vivência de acompanhar, aconselhar e encorajar as mulheres. Baseada em suas experiências, ela afirma que “a mulher precisa tomar consciência do seu papel na sociedade e na Igreja”. Experiência com o Grupo de Mulheres “Na década de 1970, pós Concílio Vaticano II, D. Paulo Evaristo Arns fez um apelo às Congregações para liberar irmãs para a periferia. Esse chamado veio ao encontro do meu desejo de trabalhar com os (as) empobrecidos (as). Em 1972 iniciei meu trabalho em Vila Remo – periferia da Região Sul de São Paulo. Os Padres me convidaram para conhecer e ver a realidade e lá fiquei 17 anos. Naquela época, Vila Remo era uma periferia no extremo da cidade. Tudo faltava. Não tinha água encanada, coleta de lixo, faltava escolas, creches, transporte, etc. A maioria do povo vinha do Nordeste e do Interior de Minas, desenraizada de sua família, cultura e ambiente em busca de melhores condições de vida. Iniciamos o nosso trabalho formando Comunidades Eclesiais de Base. Era uma nova forma de viver a Igreja. Era uma Igreja circular onde todos (as) tinham voz e vez. Cada participante tinha o seu papel: padre, religiosa, leigo e leiga. Trabalhávamos em equipe (em redes). O trabalho foi distribuído. Todos tinham um compromisso com as CEBS – Comunidade Eclesiais de Base. Eu, pessoalmente, além das CEBS, me dedicava mais à catequese, aos Grupos de Mulheres e ao Movimento do Custo de Vida. A Palavra de Deus nos inspirava e sustentava nossa espiritualidade. Era uma releitura da Bíblia a partir do oprimido, era uma espiritualidade encarnada na Palavra de Deus e na vida – na linha do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos)”. Clube das Mães “Sendo uma Igreja onde todos (as) tinham voz e vez, o povo trazia para as nossas celebrações e encontros seus problemas, suas dificuldades, suas necessidades, suas angústias, suas esperanças. Formaram-se vários grupos conforme as suas necessidades. Assim, também as mulheres se organizaram em grupos. Todas as comunidades nos bairros tinham um grupo de mulheres que naquela época se chamava ‘Clube de Mães’. Formaram uma coordenação com representantes de cada Clube de Mães. O grupo escolhia a sua representante. A coordenação se reunia uma vez por mês e cada uma trazia a dinâmica e a vida do seu grupo e levava as propostas da coordenação para o seu grupo de volta. Queríamos a participação de todas as mulheres. Só assim se decidia sobre um assunto ou sobre uma ação assumida por todas. As mulheres sentiram mais que ninguém o sofrimento da situação. Tomaram iniciativas por vários movimentos sociais como: Movimento por creches, escolas, água encanada, transporte, etc. Um movimento que se destacava e se espalhava pela cidade e por todo país era o ‘Movimento do Custo de Vida’. Não conseguimos resultados concretos das nossas reivindicações, mas houve um grande salto na consciência das mulheres. Saíram das quatro paredes de suas casas e começaram a enxergar outras possibilidades na vida. Assumiram seu papel na Igreja e na sociedade”. Centro Sofia de Solidariedade “Passei um tempo em Goiânia e São Luiz de Maranhão. Voltei em 1995 para São Paulo. Houve muitas mudanças na Igreja e na sociedade. Com a mudança da Igreja de São Paulo, o espaço para as mulheres foi restringido e, às vezes, elas foram excluídas. Muitas mulheres sentiram a falta de se reunir, trocar ideias e celebrar. Algumas mulheres se propuseram a se encontrar e convidaram mais mulheres. O Convento Santíssima Trindade nos ofereceu o espaço físico e a infraestrutura. A semente foi lançada e em 1995 o grupo teve início. O objetivo do grupo era olhar um pouco para nós mesmas, resgatar nossa dignidade, tomar consciência do nosso papel na sociedade e na Igreja, cultivar uma mística, vivenciar uma espiritualidade integrada, cósmica e buscar energias e inspiração para o nosso dia a dia. Temos sempre um olhar e um pé na realidade. Refletimos, aprofundamos e participamos da Marcha Mundial das Mulheres, Fórum Social Mundial, Campanhas contra a Dívida Externa e Alca, Centenário das SSpS, Romaria à Aparecida do Norte, Pentecostes, canonização do Pe. Arnaldo e a Beatificação de Madre Josefa, etc… Anualmente avaliamos os nossos encontros. Já trouxeram algum resultado: maior auto-estima, maior consciência do nosso papel, uma nova concepção de mundo, aprendizagem de como lidar com conflitos, conquistas no espaço público, engajamento em projetos sociais. Todos os encontros se realizavam com dinâmicas participativas, usando técnicas, músicas, danças circulares, exercícios corporais integrando-nos com a natureza e energias do universo, a partir da ótica de relações de gênero e vivenciando uma espiritualidade holística, cósmica. A natureza com o seu encanto fazia sua parte na realização desse bem-estar”.