Sobre “agradeSER”

Por toda flor que brotou em meu caminho Por todas as vezes em que eu nunca me senti só Pelas vezes em que tropecei e não caí… Pelas vezes em que caí e me levantei Pelo abraço inesperado e gargalhadas sem fim Pela luz que ilumina cantos obscuros e pelo Sol que nasce iluminando a solidão Pelo rio que corre para o mar e por toda estrela que se apaga Por todas as vezes em que o ciclo da Lua se completa Pelas voltas que o mundo dá Pelas brincadeiras que aprendi Por todo acorde de música que fez meu coração pulsar lentamente Pela saúde que permite meu corpo se recuperar da exaustão Pelo dom de Deus que se expressa em sinfonias, soluções tecnológicas e descobertas científicas Por toda vez que soubemos economizar, num gesto de humildade dos que têm muito mais do que precisam Pelas mãos que ajudam a levantar Pelo amor que não se cansa de enfrentar tanta violência Pela coragem de me calar diante do que não é essencial e de gritar sempre que a vida se encontra ameaçada Pela esperança que me leva para dormir e acorda comigo Pela capacidade de sonhar e pelos sonhos realizados Pelo milagre da vida Por ter vivido amores desfeitos Por viver amores feito infinito Por toda criança que nasce e vence a batalha que é (re)nascer o tempo todo Por todo fio de cabelo branco que vira memória e sabedoria Pelo vivido… Por ser e viver, gratidão! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Ecumenismo raiz

O almoço estava quase pronto quando Dona Aurora escutou o filho sentando-se no banquinho próximo ao fogão a lenha. Ele tirou os fones de ouvido e começou a contar: — Sabia que eu tirei total na prova de redação lá da escola, no simulado do ENEM? — Que bênção, filho! Orgulhosa de você, pois eu nunca consegui desembaralhar as vistas para escrever direito. — Mas foi por sua causa que eu fechei a prova. — Como assim? – disse a mãe, de forma espantada e curiosa, deixando de lado as panelas – Logo eu que nada sei? — O tema era ecumenismo. A professora deu as explicações gerais, falando que era a unidade de todos os povos, um movimento favorável à união de todas as igrejas cristãs. — Vixe, filho! É uma palavra muito difícil: ecumenismo… — Então, mãe, eu me inspirei em sua vida de fé para escrever. Você é ministra da comunhão, é da Pastoral da Saúde e tem amiga de outras religiões, celebram juntas na Campanha da Fraternidade, fazem coisas em comum pelo bem da comunidade. Comunicam entre vocês, de forma respeitosa, qualquer assunto que é interpretado de modo diferente pelas diversas religiões e igrejas aqui em nossa comunidade, mas isso não vira motivo de briga nem de discussão. Cada um “sabe do seu quadrado”, mas estão lado a lado, como se fosse uma engrenagem da minha bicicleta, que funciona em várias marchas. Eu sei disso porque eu fico de fone o tempo todo, mas abaixo o som quando vocês fazem encontros aqui em casa – disse ele, meio envergonhado. — Que belas palavras filho! Por isso ganhou nota total. Mas é isso mesmo! Somos todos irmãos. A gente reza a vida, por isso, aqui na comunidade, a gente não deixa acontecer a guerra de fé que existe em tantos locais! A gente vai caminhando e encontrando os caminhos. É caminho de comunhão. — Na redação, contei também sobre sua emoção quando foi levar comunhão para Dona Maria e o fez ao som dos tambores do filho dela, que soavam como expressão de outro jeito de experimentar a fé. Sabia que o nome disso é diálogo inter-religioso? Aprendi hoje. — Não sabia, mas meu respeito eu sei que abre portas para o diálogo… Isso eu sei. E eu gosto de conversar, viu! — Eu terminei a redação falando que toda mudança sempre vem das sementes, que viram raízes, das bases, das experiências cotidianas que vão criando atalhos até que ganham força para apontar caminhos para que as autoridades, lideranças, responsáveis, legisladores, teólogos, estudiosos possam aprofundar no assunto e encontrar soluções, e criar uma estrada mais segura para o povo caminhar. Essa história aqui imaginada é para nos aproximar da simplicidade quando estamos diante da complexidade. A raiz do ecumenismo é fortalecer a comunhão para anunciar com mais força e alcance. O Papa Francisco já fez seu apelo: “Encontrar-nos, olhar o rosto um do outro, trocar o abraço de paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão para a qual tendemos”. Vamos fazer eco às provocações do Papa, que o caminho ecumênico não é uma escolha, é “uma exigência essencial” de nossa fé, um “requisito” que vem do fato de sermos discípulos de Cristo. De volta à casa de Dona Aurora, a conversa segue, agora com o prato de comida à mesa, como fazem todo dia… — Mas filho, conte-me qual vai ser o próximo assunto de sua redação. — Família no século XXI. Os dois se entreolharam e sorriram discretamente. Vinha ali uma redação forte e incrível! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
“Primaverize-se”

Aqui em Minas Gerais, a gente nasce e cresce embalada por esta convicção, escrita por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, e cantada por Milton Nascimento: “Tudo que move é sagrado…”. O imperceptível se faz mistério e poesia. Algumas pessoas vivem o divino mistério cotidiano de conviver com pássaros a cantarolar, gatos pelos telhados, frutas no pé, flores no caminho, sol batendo à porta, água limpa da mina, lua iluminando o caminho, comida sem agrotóxicos à mesa, chuva que faz germinar, abelhas, joaninhas, hortas, pomares, criações de animais, compotas, colheitas, plantios, fogão a lenha… Para essas pessoas, a primavera chega sem avisar, sem fazer alarde; devagarzinho, vai dando sinais de que o inverno está indo embora. É um movimento sagrado, como nos canta Milton, esse carioca que se fez mineiro. Na cena urbana, essa cadência de mudança de estação salta aos olhos só de quem se deixa contagiar pelos pequenos sinais espalhados pelo caminho. Flores caídas no chão… Dias mais claros para quem madruga… Ventos e chuva anunciando a mudança da estação… Feito mistério e poesia, brota uma calmaria para os que se deixam abraçar pelos ipês-amarelos, e nosso coração se alegra ao ouvirmos a cantoria dos pássaros. O dom da espiritualidade nos enche de fé, mas a magia da natureza nos aproxima de Deus, do divino. A primavera profetiza, anuncia que é possível renovar a vida, fazer novas moradas, construir ninhos, reproduzir, buscar florescer em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Feito profecia, a primavera anuncia tempos mais amenos e férteis. Primavera também é efervescência, ruptura e transformação ao longo da história. Esta estação que vem nos anunciar que outros verões virão está magistralmente a serviço do que virá, explodindo em cores, sabores, biodiversidade, polinização e fertilidade. É tempo de reconhecer luzes e sombras em nossas vidas, como nos ensina o equinócio da primavera. Tempo de transformar o que precisa ser transformado, de abandonar o que vem nos fazendo mal, de aprofundar raízes, de expandir, de florir, de colorir nossos caminhos. Ande descalço… Nade num rio… Colha frutas… Beba água fresca… Passeie numa praça… Visite um parque… Leve flores para uma pessoa que anda sumida… Plante árvores… Primaverize-se! Em tempo: vote pensando no que queremos (vi)ver no verão que virá! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Somos todos condutores

Bastaria um dado estatístico: em 2021, 32 pessoas, a cada dia, perderam a vida em acidentes no trânsito, no Brasil. Uma antiga máxima educativa sempre nos alertou para essa situação caótica e problemática: “Somos todos pedestres”. A condição de pedestre como um campo de intercessão que une as recomendações de zelo e segurança no trânsito de toda a população sempre foi e continuará sendo enfática e contundente. Quero propor, todavia, uma nova provocação pedagógica: na condição de pedestre, ciclista, motociclista, motorista… somos todos condutores. Conduzindo guidão, volante ou nossos próprios pés e rodas, fazemos escolhas a cada instante. E é exatamente esse “detalhe” que vem ao caso. Conduzindo nossas escolhas e carregando a própria vida e a de outras pessoas, nossas opções podem ser sinal de vida ou de morte. É aquele instante, aquela fração de segundo que a conduta de cada um e de todos os envolvidos no trânsito e no transitar pode preservar, causar sequelas, salvar ou ceifar vidas. Mortes e sequelas evitáveis dizem de nossa incompletude humana. Trânsito deve ser lócus de cidadania, cooperação e de conduta zelosa pela preservação da vida. Como condutores de vida, precisamos ressignificar os códigos vigentes relacionados a velocidade, mobilidade, seta, faixa de pedestres, compartilhamento, fazendo um uso digno de nossa autonomia na condução pela preservação da vida. Sem querer aprisionar a questão do trânsito na dimensão pessoal, precisamos reconhecer a necessidade de melhorar a conduta também com relação a políticas públicas, mobilidade urbana, transporte público, acidentes de trânsito, modais sustentáveis. Na Física, condutor se diz o corpo suscetível de transmitir o calor, a eletricidade… Na vida, condutores que somos, diria que devemos ser corpos suscetíveis de transmitir uma atitude que contribua para preservação da vida. Vestir nossa incompletude e fragilidade humana e nos deixar conduzir por atitudes conscientes que preconizem a defesa da vida no trânsito pode mudar essa alarmante estatística. Para saber mais: https://www.sbtnews.com.br/noticia/brasil/194388-no-brasil–cerca-de-32-pessoas-morrem-por-dia-em-acidentes-de-transito https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2022/04/21/quem-mais-morre-no-transito-do-brasil.htm https://www.dicio.com.br/condutor/ Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Abriu… Apenas abrir

Abril e a questão indígena precisam ser ressignificados.Necessário é abrir o debate de forma permanente.Por isso, nada de respostas velhas e absolutas.No Brasil, mais de 200 povos, mais de 200 línguas.Fica o convite para que cada um se abra para repensar.Ofereço provocações em conta-gotas, para refazer perguntas,Estereótipos…Povos indígenas…Diversidade…Riquezas étnicas…Espiritualidades…Demarcação…Violência…Colonização…Rituais…Genocídio…Etnocídio…Racismo histórico…Patrimônio cultural…Terra…Modos de vida…Povos originários…Invasão…Ancestralidade…Que sigamos abertas e atentas aos desafios atuais, sem nos fechar ao debate. Das palavras inspiradoras de lideranças e pensadores dessa questão, uma última provocAÇÃO: se não houver espaço para os povos indígenas, não caberá ninguém. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Movidos a álcool

Eram 6h15min da manhã, e eu já estava correndo para pegar o ônibus. Estava indo, pela primeira vez, a um município vizinho, resolver assuntos de família. Custou a passar, mas o ônibus chegou… Logo reparei uma pessoa dormindo, ocupando duas cadeiras e com marcas de vômito no rosto. Logo atrás de mim, um jovem começou a falar alto: “Joaquim, você não sabe beber! Toda segunda-feira, é isso… Vou lhe ensinar!”. Dito isso, seu colega já retrucou: “Bebendo do jeito que você anda bebendo, não sei o que você vai poder ensinar para ele!”. A viagem era um pouco longa e, conforme mais passageiros subiam, um comentário a mais surgia a respeito da cena que me estranhara. Dessa vez, foi uma senhora de mais idade, que pegou seu terço e pôs-se a rezar. Até que tentou um contato, mas foi em vão. O tal do sr. Joaquim seguia “apagado”. Ele parecia popular por ali. Cada um que chegava tinha algo a lhe falar. Fechei meu livro e segui escutando discretamente o que cada um dizia, visto que o ônibus, àquela hora do dia, era vazio e quase silencioso. A resenha do que eu ouvi é mais ou menos esta: Parecia que o pai, o Joaquinzão, também era dado ao excesso de álcool. Já seu filho mais velho não bebia. Trabalhava no Posto de Saúde, indo de casa em casa e, com sua vivência, ajudando muita gente. Ele sabia que o pai estava doente, precisando se tratar da dependência. A esposa de Joaquim estava, havia seis meses, morando com irmãs na roça. Parecia que, de tanto enfrentar aquela realidade, ela fora descansar de tanta exaustão. Diziam que iria separar-se dele. Levara com ela uma filha de 6 anos. Disseram que aquela situação do sr. Joaquim com o álcool foi acontecendo aos poucos e, quando perceberam, ele já não parava mais de beber. Era beber para acordar, para trabalhar, para dormir, para tudo… O sr. Joaquim já tinha sido muito preocupado com a vida, família, com a comunidade, atuando na associação. Parece que o álcool era um amortecedor, um relaxante para ele aguentar tanta pressão. Um senhor da mesma idade e de uma aparência semelhante disse, em tom de tristeza, que não sabia o que era pior, se era ele dormindo daquele jeito ou criando confusões, quando bebia, perto de casa. Olhando um pouco de longe, já dava para ver sua pele, na altura do olho direito, “roxeando” e ficando inchada. De tudo que escutei, uma frase me chamou muita atenção. Existem frases lidas, escutadas, memorizadas que são mais que palavras, são bússolas, são faróis: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma” (1 Coríntios 6,12). Nem sei se eu alcanço a profundidade, a complexidade e a autonomia que essa citação bíblica nos implica. Fato é que a vida é tomada de decisões, até mesmo quando a gente opta por não decidir. O que me convém? O que lhe convém? O que seria conveniente ao sr. Joaquim? O que está por trás da cena que eu via no ônibus que seguia viagem? Qual a intensidade da condição do uso do álcool do sr. Joaquim para saber o que fazer? Como sobreviver a tantos apelos de consumo de álcool em tantas lives sertanejas e em tantos realities? Cada um de nós tem sempre um “sr. Joaquim” por perto e sabe da tensão permanente que é lidar com tramas, dramas e teias de esperança que cercam essa situação. Estava chegando meu destino. Eu sabia que, no ponto seguinte, que era o final, seria o destino do sr. Joaquim. Desci, mas fiquei acompanhando, de longe, a cena final. E lá foi ele. Desceu cambaleando e foi recebido aos pulos e latidos por um grande cachorro, que fez “festa” por sua chegada e acompanhou o sr. Joaquim no trajeto, fazendo rodeios e pulando de alegria… Segui olhando até os dois sumirem de meu campo de visão. A partir dali, não enxergava mais nada. Aliás, temo que eu já não estava enxergando muito bem desde que vira o sr. Joaquim pela primeira vez. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Educação: alavanca para o presente e para o futuro…

Desde a presença da Coroa Portuguesa, da Companhia de Jesus (religiosos jesuítas) e, muito antes, com a presença dos povos originários, a educação se faz presente na transmissão e na construção de conhecimentos no Brasil. Foram trajetórias de consensos e dissensos, mas com uma unanimidade: a educação é imprescindível. É alavanca para transformação social, para encontrar caminhos de cultura e de paz e para fortalecer o compromisso com a dignidade da vida. É elemento fundante, aquele ponto de apoio que faz mover até a Terra. Nutriente certeiro para promover relações de pertencimento, proximidade, justiça e paz, contribuindo para o desenvolvimento integral e para o cuidado com a Casa Comum. A educação tem muitas faces que dão conta da diversidade de seu alcance, seja em ambientes formais ou não. Para ilustrar, cito algumas: educação ambiental, educação pública, educação patrimonial, educação digital, educação a distância, educação financeira, educação tributária, educação profissional, educação urbanística, educação para o consumo, educação para inclusão, educação para diversidade, educação humanista, educação solidária, educação católica. Nossa esperança está depositada toda vez que nos encontramos numa relação educativa, que privilegia a formação para vida fraterna e para a cidadania. Apesar dos esforços de universalização, temos um gargalo no acesso inicial e ainda temos um funil quando se trata de garantir a permanência. Esse cenário da educação precisa ser revertido com oportunidades e ações assertivas, considerando especialmente as desigualdades territoriais, para garantir o acesso e a permanência, desde a mais tenra idade até quando a pessoa queira seguir estudando. Educação é “locus” da reflexão e do debate, e deve estar a serviço da comunidade, buscando caminhos criativos para os desafios de seu tempo e contribuindo para formar uma nova humanidade. Nas palavras do Papa Francisco, é necessário nos reunir em torno do desafio de educar, “reavivando o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão. Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla ‘aliança educativa’ para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido das relações em ordem a uma humanidade mais fraterna”. É claro que, sozinha, a educação não transforma a sociedade. Que as palavras de Paulo Freire sigam nos inspirando: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Um instante de silêncio…

No apagar das luzes de 2021… silêncio. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, proponha um instante de silêncio. Tempo precioso que vai valer uma eternidade, pois vai nos colocar diante das marcas do que se foi. Um silencioso suspiro para fazer memória aos amores e às dores. Uma fração de tempo para se encontrar com Deus e sorrir, mesmo diante das adversidades. Nada a dizer, nada a ver, apenas um gélido e refrescante vácuo neste mundo tão agitado. Instante para fazer memória aos que estão distantes e para celebrar a vida de tantos que estão diante de nós. Uma sinergia muda e duradoura com tudo o que nos move, nos agiganta, nos encoraja e nos dá sentido para romper mais um ciclo. Um instante de silêncio pelos gritos de gol engasgados na garganta, pelas lágrimas contidas e pelos abraços dados. Muita mudez para os momentos de nudez. Calmaria para enfrentar a indignação. Um instante de silêncio crítico e acolhedor diante do que a vida reserva a cada um de nós. Um instante de fé irmanada, de mãos dadas em missão. Na calada da noite ou do dia, um encontro com o inaudível. A sensação de levitar, em que o silêncio milagrosamente nos coloca no colo e baila conosco. A beleza dos fogos de artifício sem estampidos. Aquele instante de silêncio que nos faz encontrar o caminho do perdão. Instante para escutar o coração pulsando. A quietude do silêncio que eleva nossas preces e desejos aos céus e ao infinito. Um gesto coletivo de silêncio edificante para construir pontes e novos caminhos. Um instante de silêncio indignado para as vítimas da covid-19 e um silêncio esperançoso em homenagem a cada criança que nasceu para renovar nossas esperanças. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, ou mesmo em sua própria companhia, deixe o silêncio passar e levar você para mais um ano que se inicia. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Sobre infância e “desinteligência”

É outubro outra vez, o famoso Mês das Crianças. Nas tristes lembranças, os tiros que atingiram crianças ainda no ventre materno, as supostas “balas perdidas” nas comunidades, a estupidez no trânsito, o extermínio, o “desaparecimento”, a violência sexual, a violência doméstica, as drogas e o tráfico, os afogamentos, os sufocamentos, as agressões, as queimaduras, as vítimas da covid-19, enfim, um sem-fim de motivos. Nas doces lembranças, a alegria, as dancinhas, a espontaneidade, as conquistas motoras do dia a dia, as encantadoras perguntas e respostas no cotidiano, os segredos, as amizades, as músicas, as brincadeiras, a fantasia, as letras e números ganhando sentido, os desenhos e garatujas, as telas, os áudios, os vídeos, os gritos, os choros, as cólicas, as febres, as espinhas, os primeiros amores, a simplicidade complexa do cuidar, enfim, um sem-fim de registros de afeto e zelo. Das lembranças que se misturam e brotam em nós, lágrimas e sorrisos, uma certeza: crianças e adolescentes precisam de proteção integral para usufruir e fruir a infância e juventude, pois estão na peculiar condição de pessoas humanas em desenvolvimento. Aos olhos de uma criança de 6 anos que cunhou a expressão “desinteligente” numa banal cena do cotidiano, envolvendo uma ingênua crítica à conduta de um adulto a seu redor, um aprendizado para a vida. Em contraponto à infância e à adolescência como fase de formação e desenvolvimento, temos os adultos, aos quais cabe zelar, cuidar, oportunizar, proteger e, acima de tudo, ser porta-vozes de condutas e escolhas inteligentes que mudam o mundo. Diria que temos um “trio de adultos” dos quais se espera sabedoria e inteligência: o ESTADO, a FAMÍLIA e a SOCIEDADE em geral. A esse trio de adultos, um recado na potente voz de uma criança: “Não sejam desinteligentes”. O Estado precisa garantir, em qualidade e quantidade, as políticas públicas que garantam acesso e oportunidade de pleno desenvolvimento a todas as crianças e os adolescentes na complexidade do que é traduzir direitos na prática. Não seja “desinteligente”. A família, em sua multiplicidade de arranjos, precisa ser ambiente fértil e protetivo para dar conta dessa missão de proteção em sua dimensão cotidiana. Não seja “desinteligente”. A sociedade, como um todo, deve ser vigilante com relação ao dever de prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente, reagindo a toda forma de desproteção. Sociedade, não seja “desinteligente”. Este mês de outubro, quando celebramos a vida das nossas crianças, seja tempo para que esse “trio de adultos” possa olhar ao redor e para dentro para (re)ver e ter dimensão do alcance formativo e protetivo de nossas escolhas e decisões “inteligentes”, seja na dimensão cotidiana, seja na complexa dimensão social, política, econômica, cultural. Não sejamos “desinteligentes”! (Qualquer semelhança com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente não é mera coincidência.) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Arco e flecha para o Sete de Setembro

Sempre haverá um grito a ser escutado. Em contraponto ao “Grito da Independência”, desde 1995, ecoa o “Grito dos Excluídos”. Um grito que é fruto de um processo, de uma articulação de muitas pessoas e movimentos, de muita mística e simbolismo, marcado pela proximidade do cotidiano de quem vivencia as lutas populares. É a tentativa de superar um patriotismo passivo e dar lugar a uma cidadania ativa Desde sempre, foi assim: questionando os padrões de independência do povo brasileiro e sonhando com um Brasil mais justo para todos os cidadãos e cidadãs. Um passeio pelos lemas e temáticas dos Gritos dos Excluídos e Excluídas é uma aula de História contada à base de uma participação ampla, aberta e plural. Não é um evento isolado, mas a culminância de um processo de discussões coletivas. 1995 – A vida em primeiro lugar 1996 – Trabalho e terra para viver 1997 – Queremos justiça e dignidade 1998 – Aqui é o meu país 1999 – Brasil: um filho teu não foge à luta 2000 – Progresso e vida, Pátria sem dívida$ 2001 – Por amor a essa Pátria Brasil 2002 – Soberania não se negocia 2003 – Tirem as mãos… O Brasil é nosso chão 2004 – Brasil: mudança pra valer o povo faz acontecer 2005 – Brasil: em nossas mãos a mudança 2006 – Brasil: na força da indignação, sementes de transformação 2007 – Isto não Vale! Queremos participação no destino da Nação 2008 – Direitos e participação popular 2009 – A força da transformação está na organização popular 2010 – Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular 2011 – Pela vida grita a TERRA… Por direitos, todos nós! 2012 – Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população! 2013 – Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular 2014 – Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos 2015 – Que país é este, que mata gente, que a mídia mente e nos consome? 2016 – Este sistema é insuportável. Exclui, degrada, mata! 2017 – Por direitos e democracia, a luta é todo dia 2018 – Desigualdade gera violência: basta de privilégios! 2019 – Este sistema não Vale! Lutamos por justiça, direitos e liberdade 2020 – Basta de miséria, preconceito e repressão! E, em 2021, “Vida em primeiro lugar! Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já!” Como podem ver, ir para as ruas em Sete de Setembro, desde muito tempo, faz parte da agenda transformadora dos que desejam, permanentemente, avanços, conquistas e justiça social. Feita uma “metodologia do arco e flecha”, cada “Grito” tem a força de uma construção coletiva. Duas pontas unidas por uma linha, a qual é flexionada para trás por uma haste longa e fina, com uma seta na ponta que, ao ser solta, projeta-se adiante e revela nossa energia potencial. Olhar o que passou, analisar o vivido e prospectar, foi assim que capturei a metodologia desse movimento que há 27 anos denuncia, anuncia e busca trazer ânimo diante dos desafios de cenários de adversidades, conquistas e retrocessos. Olhando para o alto e adiante, trazendo a flecha para trás para acolher a força do vivido, a trajetória desse movimento passa pela cabeça e pelo coração, busca forças e se projeta com vistas à conquista dos avanços pretendidos. Arco e flecha para o Sete de Setembro… Porque é tempo de nos armar de cidadania! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. Referênciahttps://www.gritodosexcluidos.com/historia