CNBB e organizações da vida religiosa manifestam apoio ao Papa Leão XIV

O Papa Leão XIV tem se colocado abertamente contra os conflitos em andamento no mundo. Sua posição profética em favor da paz está causando reações dos que promovem a guerra. A CNBB, que congrega os bispos, e a CRB Nacional e a CLAR, estas últimas, entidades ligadas à vida religiosa consagrada, emitiram mensagem em solidariedade ao Papa e reforçando os valores do Evangelho. Veja a íntegra dos textos!
A consciência, a caridade e a missão

Se se opuser à paz a guerra, aquela se tem, portanto, distanciado de qualquer cidadão brasileiro por conta desta. Algo distante, considerando o fato de que sua precedência já se perdeu em qualquer memória de cidadão vivo, pois não há guerra por aqui há anos. Se se opuser à paz a violência, aquela se tem apenas pelo espectro da televisão higienizada no conforto dos lares da classe média. Infelizmente distante e, algumas vezes, politicamente incorreta. Se se opuser à paz a “a-pro-atividade” em favor de uma sociedade mais humanizada, talvez se possa discorrer sobre os casos de pessoas comuns e conformadas com o mundo que as cerca. Muitas pessoas aceitaram bem o distanciamento proporcionado pela televisão, ainda que uma lágrima preguiçosa escorra de quem anda sentado no sofá de sua sala climatizada, regozijando seu biscoito recheado. A televisão e suas campanhas encapsulam, cercam e não permitem que a sociedade, nos altos condomínios urbanos, se infecte e se afete das mazelas sociais que, lá de cima, são miradas em distância e com pouco comprometimento. Isso porque há quem crê que a pseudoconsciência de seus compromissos humanitários se encerra com um “obrigada!” da telefonista plantonista dos call-centers de doações. Será que a paz se revela apenas na facilidade de um telefonema para doação aos carentes, motivado por essa mesma televisão que vende o conforto das consciências coletivas? Será que o vidro da janela da sala do apartamento marca o limite entre a minha afetação e a dor do outro, a necessidade do outro, a linguagem do outro, o outro? Por que a caridade deve ser asséptica? Para aqueles que não entendem os vários efeitos de sentido de missão, resta o costumeiro conformismo. Não há como abandonar a caridade, tampouco não se envolver. Não há de se permitir que a televisão reconcilie as ambições que se tenham de justiça na sociedade contemporânea, virtualizando qualquer ação assertiva a favor dos mais necessitados. Veja um caso. Dobri Dobrev tem mais de noventa anos. É búlgaro. Perdeu a audição durante a guerra. Vive em uma modestíssima casa nos arredores de Sófia. Modesta, mas sem a depauperação que os intelectuais sociólogos de favela brasileira chamam de miserável. Ostenta uma grande barba e um certo carisma não ameaçador. Vive da mendicância pelas ruas da capital e uma bolsa-família de oitenta euros. Com seu pulôver grande e religiosidade extrema, arrecadou da “generosidade” búlgara mais de quarenta mil euros em esmolas. Essa pequena fortuna, Dobri doou em sua totalidade, sem pestanejar, à caridade. Quarenta mil euros ao orfanato cuidado pela Igreja que frequenta, num gesto de humildade e desprendimento. Em um gesto de paz. Se se opuser à paz o peso social da consciência, aquela palavra deve ser substituída por Dobri Dobrev e por tudo o que ele representa. Desprendimento, crença e ação em prol do outro. Como na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”. Não é por nada que as irmãs desta Congregação têm a missão no nome. Não é semântica. É linguagem, é ação, é a palavra que se faz verbo e é um verbo que se faz ação: missionárias. A palavra é nossa primeira missão. Nas escolas da Rede, talvez este seja o maior problema enfrentado pela comunidade escolar: não poder ir até os locais dos enfermos, dos idosos, das crianças. A reclusão necessária à saúde também criou um vazio enorme, uma falta. A falta do outro na caridade da afetação. A pandemia amordaçou as mãos de todos nós. Amordaçou, porque era na linguagem do toque que conhecíamos a nós mesmos; vivificamos nossa identidade. Todos fazem parte de tudo. Esteja onde estiver. Todos fazem parte de um todo. Não há paz onde não há consciência. Não há consciência onde só há letargia. Tony Labanca Professor do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-
Escola de Perdão e Reconciliação tem nova gestão

O VI Encontro Nacional Espere (Enespere), realizado em Belo Horizonte-MG, de 23 a 25 de maio, contou com a participação de voluntários de todas as regiões do Brasil, que acolheram a metodologia da Escola de Perdão e Reconciliação (Espere) como uma das formas de encontrar caminhos e estratégias para uma cultura de paz. O evento teve as presenças do fundador do projeto, padre Leonel Narvaez, e da presidente da Fundación para la Reconciliación, Paula Monroy, ambos procedentes de Bogotá, Colômbia. A programação permitiu a contribuição de todos os inscritos no Seminário Internacional de Cultura de Paz, promovido na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Palestras, diálogos e partilhas com temas relacionados à alteridade, verdade, ódio e a justiça restaurativa nos âmbitos Judiciário e comunitário marcaram o primeiro dia do encontro. A palestra da dr.ª Petronella Boonen, mais conhecida como Ir. Nelly, missionária serva do Espírito Santo (SSpS), encerrou o dia. Ela convidou professores, alunos, representantes do Judiciário e demais participantes do Seminário a refletirem sobre a “Justiça restaurativa na perspectiva comunitária”. A programação no segundo dia, desta vez, na Casa de Retiros São José, propôs diversas oficinas temáticas. Entre elas a do “Autoperdão”, conduzida por Joana Blaney, do CDHEP (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular) de Campo Limpo, e Ir. Helena Suzana Christo, também SSpS, da mesma comunidade de Ir. Nelly, localizada na periferia de São Paulo-SP. Os voluntários se envolveram na experiência e puderam reavaliar fatos que deixaram marcas em suas vidas, as quais podem ser vividas com uma melhor compreensão do autoperdão. Por fim, houve a reunião dos coordenadores regionais, a apresentação do levantamento da realidade nacional e a eleição para o novo modelo de coordenação da Espere Brasil para o biênio 2019-2021. As regiões puderam indicar nomes para a nova modalidade de gestão. O grupo reconheceu o esforço e o trabalho desenvolvido pela Ir. Nelly em mais de dez anos de atuação com perdão e justiça restaurativa. Ela foi eleita como articuladora nacional dos núcleos Espere. Essa gestão será compartilhada com a assessoria de Minas Gerais, na área de comunicação, e do Distrito Federal, na secretaria, em diálogo com as cinco coordenações regionais. Mesmo participando pela primeira vez no Enespere, percebo que o encontro fortaleceu a reflexão sobre a importância do perdão e da mediação de conflitos para as comunidades, em especial, as esquecidas pelo Poder Público. Nesse sentido, gostaria de salientar que, nessa missão, a coerência e a ética são primordiais para a efetiva aceitação da proposta. Participar do encontro foi motivo de alegria, especialmente pela oportunidade de conhecer parte daqueles que, em diferentes esferas da sociedade, dinamizam voluntariamente ações que contemplam a metodologia Espere, pois os voluntários e voluntárias nos animam e nos levam a ter esperança na construção de uma realidade verdadeiramente justa e fraterna. Miriam de Souza, São Paulo-SP, voluntária no CDHEP e missionária leiga.
Justiça restaurativa e cultura da paz

Os conflitos fazem parte da vida humana, mas, em uma sociedade em que a desigualdade social, a má distribuição dos recursos e a falta de segurança predominam, os conflitos se intensificam e se tornam cada vez mais violentos. Nesse contexto, oferecer ferramentas para lidar e superar os conflitos é contribuir para a construção de uma cultura da paz. Isso é o que a irmã Nelly Boonen vem realizando, por intermédio do CDHEP (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular) de Campo Limpo-SP, pelo Projeto de Formação em Justiça Restaurativa. “A justiça restaurativa é um processo que busca a reparação moral e material do dano, por meio do diálogo e escuta efetiva entre vítimas, ofensores, além de representantes de sua comunidade de afeto”, explica Ir. Nelly. A meta de todo o trabalho é dar assistência às vítimas e levar os ofensores a assumirem a responsabilidade pelo que fizeram e ser reinseridos na comunidade. A consequência, segundo Ir. Nelly, é “o empoderamento dos envolvidos, a solidariedade, o respeito mútuo e a humanização das relações”, ou seja, a restauração dos vínculos sociais existentes antes do conflito. Irmã Nelly e a equipe do CEDHEP vem realizando diversos cursos em fundamentos de justiça restaurativa, tanto em sua sede, em São Paulo-SP, como em diferentes regiões do Brasil e até mesmo no exterior. A formação é sempre teórica e prática, e busca identificar criticamente a cultura punitiva existente no País e ajuda a elaborar os próprios sentimentos e comportamentos decorrentes de conflitos e experiências pessoais, interpessoais e sociais de violência. Formação em Santarém Nos dias 26 a 28 de abril, em Santarém-PA, Ir. Nelly trabalhou com representantes das paróquias animadas pelos missionários do Verbo Divino da Região Amazônica, a convite da Dimensão da Jupic (Justiça, Paz e Integridade da Criação). O tema foi “Conflitos e justiça restaurativa”. Embora tenha sido uma formação mais curta, uma vez que o curso “Fundamentos em Justiça Restaurativa” tem 48 horas de duração, de acordo com Ir. Nelly, as pessoas, todas elas engajadas em trabalho comunitário, conseguiram absorver os conteúdos e saíram satisfeitas no fim do domingo. Exemplo disso é o depoimento de José de Freitas, coordenador do Núcleo da Pastoral do Menor: “O curso foi um instrumento de renovação, no qual consegui embasamento para resolver conflitos que causam dor em mim e nos outros”, declara. Também Mirtes Terezinha Pagel, facilitadora de círculos restaurativos, considerou o curso muito esclarecedor. “Sinto-me provocada a repensar minhas atitudes e como posso ajudar as pessoas, ao mesmo tempo em que me sinto encorajada para continuar aprendendo e praticando a cultura da paz”, disse ela. Na mesma ocasião, Ir. Nelly também deu palestra sobre justiça restaurativa na Universidade da Amazônia, em Santarém. Entre 12 e 18 de maio, a missionária participará de uma conferência internacional e de eventos na Universidade da Bélgica, partilhando sobre a experiência brasileira em justiça restaurativa. Conheça Ir. Nelly O nome completo de irmã Nelly é Petronella Maria Boonen. Ela nasceu em Luxemburgo, na Europa, e ingressou na Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Ministra cursos, oficinas e palestras sobre temas como justiça restaurativa, perdão, conflitos e habilidades emocionais para pessoas ligadas, principalmente, à área socioeducativa, prisional, judicial e pastoral. Tem formação pelo International Institute for Restorative Practices dos Estados Unidos, o European Forum for Restorative Justice, a Fundación para la Reconciliación de Bogotá, Colômbia, e a Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul, Brasil. É doutora e mestra em Sociologia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP), com tese sobre justiça restaurativa. Graduou-se em Ciências Sociais também pela USP e é especialista em mediação de conflitos pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). Foi coordenadora das Escolas de Perdão e Reconciliação – Brasil e pesquisadora no Núcleo de Estudos de Violência-USP. Já realizou trabalhos na Guatemala, Honduras, Peru, Colômbia, Bolívia, Argentina, Uruguai, Romênia e Áustria.