Deus perdoa em nós

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 24º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 18,21-35.

Grandeza e força da sensibilidade

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 11º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 9,36-10,8.

Sobre PAI, PAIxão e comPAIxão

Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Compaixão

Quero convidar você a olhar, por vários ângulos, a compaixão: em você mesmo, mesma; unido aos clamores que se levantam devido à injustiça, violência, vida ameaçada; a partir do mistério da presença de Deus em você, em tudo (nele somos, movemo-nos e existimos); a partir da consciência de que tudo está interconectado; como um dom que nos foi entregue por Deus e que gera um compromisso em cada um de nós. Compaixão vem de patire, “passar por algo com outra pessoa”, sentir com, ser atravessado pelo que acontece. Olhamos a compaixão na manifestação de Jesus Cristo ao mundo, revelação da presença do mistério que nos habita e em quem habitamos. Contemplamos essa manifestação de Deus, Jesus Cristo, como o espelho para saber quem somos, para saber o sentido profundo da vida, dos valores, da compaixão. Podemos contemplar o “sentir com” em Jesus? Que profundidade tem esse “sentir com”; que amplitude? Que intensidade? Como Jesus se deixa tocar pelas pessoas e as situações de seu tempo? Em Jesus, manifesta-se um “sentir com” que emana de dentro dele e percebe a vida de uma maneira estranha para nossa forma comum de ver. Ele vê felizes os pobres, felizes os mansos, enquanto nós competimos e lutamos tanto; felizes os que choram, enquanto temos urgência de comprar a “felicidade” custe o que custar; vê felizes os pacíficos, os perseguidos por causa da justiça. Um “sentir com”, de tal maneira, de tal forma, com tal intensidade que o leva até a morte violenta da cruz, e a maneira tão humilhante como é conduzido a essa morte foi um contínuo “sentir com”. Tendo amado os seus, amou-os até o fim. Sua resposta à violência não é a condenação, mas a compaixão: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. O que é essa compaixão então? Jesus continua vivendo entre nós. Hoje temos testemunhos de vida que mantêm viva sua presença neste mundo. Muitos são desconhecidos e alguns conhecemos. Na Campanha da Fraternidade de 2020, foi apresentada a figura da Ir. Dulce. Ela acolhia os pobres e indesejados, os sem endereço da cidade de Salvador. Em seu peito, ardia a chama da compaixão. Os olhos iluminados de Dulce miravam também o invisível, o ser profundo nos pobres, nos indesejados. Um Francisco de Assis, como será que ele “sentia com” a Natureza? Contam que ele pedia que a Natureza parasse de gritar sua grandeza, sua beleza, sua formosura. Tanto encanto na irmã Natureza, no irmão Sol, ultrapassavam-no. Ele se deixava tocar também pelo irmão leproso, irmão inimigo, irmão desconhecido.De onde vem essa capacidade de sentir com os outros, sentir com as situações de injustiça, com a doença, com a vida como ela é? Qual seria o segredo de Jesus, da Ir. Dulce, de Francisco e de tantos que assim sentem com os outros? Como esse “sentir com” me atravessa? No outro extremo dessas figuras, temos o mito de Narciso. Ele, ao ver-se refletido na água, ficou tão apaixonado por si mesmo que não conseguiu sair de si. Não conseguiu escutar as ninfas que, apaixonadas por sua beleza, queriam entrar em relação com ele. Narciso estava tão deslumbrado por si mesmo, por sua imagem refletida na água, extasiado por uma ilusão, por um engano, que caiu na água e terminou afogado. Narciso se afogou nas águas da própria admiração e do ego. Vivemos uma profunda crise humanitária. A vida está cada vez mais ameaçada. A pobreza, a exclusão, a devastação ambiental e a violência vêm crescendo. A preocupação com a dor alheia e com o futuro do planeta parecem desaparecer e há pouca preocupação com a vida ameaçada. Continuamos com um consumo como se vivêssemos anestesiados, e a indiferença toma conta de nós. Escreve o Papa Francisco: Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros, […] desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios; já não choramos à vista do drama dos outros nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas as vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma (Evangelii gaudium, 54). Ao falar da compaixão, desse sofrer com, alegrar-se com, dessa conexão conosco, com o outro, com a vida, a primeira coisa que nos vem é o reconhecimento da loucura em que vivemos. Estamos desconectados de nós mesmos, desconectados dos outros, da criação e da Fonte da criação. Como chegamos a essa construção mental de que nos salvamos sozinhos, que outras criaturas são “apenas” objetos, coisas para nosso uso e nossa satisfação, fruto de nossos esforços e méritos? O grito da encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, chama-nos de volta: abaixo da superfície, tudo está interconectado e ligado à Fonte de todos os seres; tudo é manifestação da única VIDA que chamamos Deus. E a última encíclica, Fratelli tutti, o grito põe o foco na vida humana, chamando-nos para acordar nosso sermos um com o Todo e entre nós. A destruição da natureza, as crises humanitárias, líderes políticos em nosso e outros países expressam, de alguma forma, como está nosso “sentir com” o mundo e pedem para nos revermos como humanidade. É um apelo para uma profunda conversão em nosso modo de vida, para nos voltar para nossa essência, para nosso verdadeiro ser. Será que o Narciso em mim permite que exemplos como o da Ir Dulce, do Irmão Francisco consigam me tirar do autoengano, da ilusão, do medo que me leva ao fechamento, do querer ter mais, consumir mais, competir mais? Essas atitudes nos levam a ser violentos com nós mesmos, com os outros, com a natureza.Com a consciência de que tudo está conectado, que nos salvamos juntos ou nos afogamos juntos, podemos ultrapassar a indiferença, amar-nos de verdade em vez de amar ilusões e enganos; podemos

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