Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva. Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra a religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos. Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável. De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança. Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado. Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade. A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história. Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação. A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente. A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso… Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui. O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu. Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus. Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento. Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas. A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior… Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa. Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus. No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo”é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem. “Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida. Não somos

Somos Petra/rocha sobre a qual construímos nossa vida

“Tu és pedra, e sobre esta rocha eu construirei minha Igreja” (Mt 16,18) O evangelho deste domingo nos situa num destes momentos em que Pedro, com sua habitual ousadia e rapidez, responde à pergunta que Jesus lhes dirige sobre sua identidade: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Diante da pronta confissão, Jesus o chamou, em hebraico, “Kephas”. O texto grego usa duas expressões: “petros” e “petra”. Simão é por si mesmo um “petros” (pedregulho, cascalho), mas, através de sua confissão messiânica, afirmando que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele realizou uma missão essencial no princípio da Igreja; assim, o mesmo Jesus acolheu esta profissão de fé e lhe chamou bem-aventurado (“makarios”), acrescentando que sobre a rocha da confissão de Pedro (“petra”) edificará sua Igreja. Por ter recebido uma revelação muito alta de Deus, o próprio Simão que em si mesmo é “petros” (pedra movediça, incapaz de ser alicerce) se converte, de maneira muito profunda, em Petra/rocha firme, revelando-se o alicerce da nova comunidade. O texto distingue e vincula assim duas palavras fundamentais: a) Petros (Pedro masculino), pedra-cascalho do caminho; b) Petra (rocha, feminino), na qual se expressa a revelação do Pai (“não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”). A realidade de Pedro está vinculada à sua história familiar, ao mundo conhecido ao qual pertence, à sua personalidade: é Simão (“petros”). No entanto, o olhar intenso e profundo de Jesus vai mais além, “perfura” essa realidade, descobrindo em Pedro a sua verdadeira identidade para o qual foi chamado a ser, ao se abrir à Graça: é “Petra” (Cefas). A missão para a qual foi chamado a ser, Pedro ainda não a conhece, mas é um dom que lhe foi dado já desde antes de nascer. A acolhida de Jesus se expressa na palavra de verdade oferecida e não imposta, uma palavra que o leva a dialogar consigo mesmo e a aprofundar: “Tu és ‘petros’ e sobre esta ‘Petra’ construirei a minha Igreja”. Pedro aparece, então, como o primeiro discípulo que manifesta sua fé pessoal em Jesus. E o evangelho faz um convite para que cada pessoa, cada seguidor(a), expresse para si mesmo qual é sua fé em Jesus. Como consequência, essa mesma fé, que aflorou na primeira comunidade cristã, é a que emerge e se prolonga, ao longo dos séculos, em cada seguidor(a) de Jesus, com sua fortaleza (petra-rocha) e, ao mesmo tempo, com sua fragilidade (petros-pedra); sem dogmatismos nem doutrinas, mas com a modesta manifestação de alguém que se sente interpelado e animado pelo modo como Jesus viveu e pelos estímulos que Ele lhe deu para caminhar na direção da nova humanidade. Por isso, continua sendo decisiva a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. No entanto, não basta ter uma ideia clara sobre Ele ou um conceito teológico apurado, mas viver uma relação que se expressa como adesão a um estilo de vida cristificado. O seguimento de Jesus não é questão de razão ou um profundo conhecimento da cristologia; é questão de sedução, de atração, de paixão… Só podemos responder à sua pergunta com o coração. Se a pessoa de Jesus – seu modo de ser e viver – não provoca um impacto afetivo em nosso interior, o seguimento vai se tornando estéril e sem maiores implicações na vida. A pergunta sobre “quem é Jesus para nós” é fundamental para radicalizar nosso seguimento, e é fundamental para entendermos a nós mesmos; cada um precisa se situar de maneira única e original diante da mesma pergunta feita a todos. Em muitas ocasiões as perguntas nos ajudam a avançar mais que as nossas próprias respostas. As “perguntas existenciais” são provocativas e mobilizadoras, pois sacodem nossas vidas e despertam os recursos mais nobres que carregamos em nossa interioridade. Por isso, a pergunta por Jesus se volta a nós mesmos; perguntar por Jesus é perguntar por nós mesmos. Nesta rede de perguntas e respostas o que está em jogo não é tanto a identidade de Jesus, mas a nossa identidade de seguidores(as) seus(suas). No centro das perguntas que nos fazemos na vida vão surgindo respostas com as quais vamos configurando nossa existência, identificada com a vida de Jesus. Mas hoje, talvez num gesto de ousadia e atrevimento, poderíamos inverter as perguntas. No Evangelho, é Jesus quem pergunta e nós respondemos; agora somos nós que fazemos as perguntas a Jesus. Se Ele está interessado em saber o que os outros pensam dele, também nós estamos interessados em saber o que ele pensa de nós: “Senhor, que dizes, que pensas de mim?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como batizado(a) e teu(tua) seguidor(a)?” “Sou realmente essa imagem do(a) homem/mulher novo(a) nascido(a) de tua Páscoa?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como: jovem? adulto? cristão/ã? trabalhador(a)…?” “Senhor, Tu, que pensas de mim como pessoa? Porque tu me deste a vida não para que a conserve atrofiada, mas para que me realize humanamente e chegue a ser uma pessoa livre, madura e comprometida. Tenho amadurecido no amor, chegando a ser essa pessoa que Tu esperas de mim?” Talvez, de início, possamos sentir um pouco de medo da verdade que Ele dirá sobre nós. Mas, pensando bem, podemos concluir que Jesus pensa melhor sobre nós que nós sobre Ele. E se nos dá vergonha responder às suas perguntas, certamente que Jesus não sentirá vergonha alguma em responder às nossas. Ao responder nossas perguntas, Jesus nos faz ter acesso àquilo que é o fundamento, a rocha sobre a qual construímos nossa vida. Assim como Ele respondeu, afirmando a verdadeira identidade de Pedro, podemos afirmar que “petros” é o que em nós é fragilidade, incoerência, vulnerabilidade, limitação… “Petra”, ao contrário, é o que é sólido, firme, consistente, sobre o qual fundamentamos a vida. “Carregamos um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4,7). Como seres humanos, vivemos a integração de “petros” e “petra”. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos,

Maria, mulher da “memória agradecida”

“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47) Maria foi assunta ao céu porque desceu ao mais profundo de sua humanidade e da humanidade dos outros. A Assunção nos revela que ela foi humana por excelência; toda a sua humanidade foi atravessada pelo divino: nela não havia resquícios de ego inflado, de vaidade, de busca de prestígio e poder. Reconheceu-se como “humilde serva” porque desceu ao “húmus” de sua vida e aí deixou-se conduzir por Aquele que entra na história de cada um pelo lado da fragilidade, limitação, pobreza… Ela viveu a assunção em todos os momentos de sua vida, porque se sentia envolvida pela presença misericordiosa e providente de Deus. Toda a vida de Maria foi “assumida” por Deus porque ela cuidou da vida, colocou sua vida a serviço da vida, ativou todos os seus recursos de vida… Vida aberta, comprometida, vida que se fez visita e se deixou visitar. Maria “desapareceu” no divino porque mergulhou no humano. Sua humanidade foi plenificada. Por isso, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos seremos “assumidos por Deus”. Esta é uma realidade que não acontecerá apenas no fim dos tempos; é realidade sempre atual: já vivemos em Deus, n’Ele nos movemos e existimos; Ele nos envolve continuamente com sua providência, misericórdia e cuidado. Vivemos, então, em contínuo “estado de assunção”. Portanto, a Assunção de Maria diz respeito a todos nós; todos estamos implicados neste mistério; experimentamos a assunção através de dois movimentos: No primeiro, vivemos a assunção quando descemos ao mais profundo de nossa humanidade, às raízes de nossa existência. Há muitos recursos, dons, potencialidades, desejos nobres, inspirações, beatitudes originais, presentes em nosso interior e que querem emergir, elevar-se… A assunção começa em nosso interior quando o “que há de divino em nós” se expande, plenificando e dando sentido à nossa existência. Deus assume tudo o que é humano em nós e ilumina, plenifica… Nada do que é humano lhe escapa; Ele nos eleva, nos faz planar sobre suas asas de águia, para ampliarmos nossos horizontes, nossa visão da realidade… Com sua Graça, desperta e ativa todos os nossos dinamismos e potencialidades internas. Quem vive a assunção sonha alto, deseja grande, torna-se criativo e um eterno buscador. Sua vida torna-se oblativa, descentrada, é movimento de saída de si… A assunção o faz viver com os pés plantados no chão da vida e da história e, ao mesmo tempo, o faz transcender, romper fronteiras, ir além de si mesmo… Quem não se deixa inspirar pelo mistério da assunção limita-se a uma vida “normótica”, repetitiva, mecânica, estreita, atrofiada… Perde o sabor da vida, trava sua criatividade e mata sua capacidade de sonhar. O segundo movimento despertado pelo mistério da Assunção é este: a partir de uma interioridade expandida a pessoa se eleva na direção do outro, através do serviço solidário, da presença compassiva e do compromisso eficaz na transformação da história. A assunção move a pessoa a reforçar os laços, alimentar a comunhão, mobilizar a viver a cultura do encontro; a assunção faz romper fronteiras geográficas, sociais, culturais, religiosas… conclamando à vivência da fraternidade universal. Ela abarca a humanidade inteira. Porque parte do chão da humanidade, a assunção nos humaniza e nos capacita a criar mediações humanizadoras. Não é possível crer na assunção da humanidade se nos deixamos levar pela cultura da aparência, do ódio, da intolerância, da violência… Quem entra no fluxo desses dois movimentos da Assunção sente despertar em si uma profunda gratidão; brota de seu coração e de seus lábios um novo “magníficat”, onde reconhece a ação criativa de Deus, em si mesmo, nos outros e na criação… Proclama que Deus fez, faz e fará maravilhas nele(a), por ele(a), através dele(a)… Vive com vibração e intensidade porque sente que tudo é Graça, de graça, envolvido pela graça… Assim, celebrar a Assunção é entrar no fluxo da gratidão que Maria canta no seu “magnificat”. É modo de ser e viver inspirado na vida de Maria; é preciso nos situar de “maneira mariana” diante de nossa história. “O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor”, é uma exclamação que Lucas põe nos lábios de Maria para fazê-la nossa e repeti-la com frequência. Quando algo ou alguém nos emociona, não podemos evitar expressar esse sentimento. O regozijo não é completo se não o compartilhamos. A experiência prazerosa de um Deus que é Misericórdia e Santo fez brotar os mais belos salmos e orações que nos foram legados, cheios de benção e assombro agradecido. A gratidão perpassa o Magnificat e é o sentimento mais nobre que brota das profundezas do coração do ser humano, ao se sentir cumulado de tantos dons. Todos temos experiência que a nossa história carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas. Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente. Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades…; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia…, embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido. Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos… Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória. Somente através da “memória redentora”, a pessoa é capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado. A memória sadia não muda o passado, mas o “re-corda” (coloca de novo o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras,

Travessia existencial para a outra margem

“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar…” (Mt 14,22). Jesus, “homem do mar”. Os evangelhos o apresentam como carpinteiro/operário da construção. Mas tinha amigos pescadores e com eles aparece nos evangelhos, passando, várias vezes, de um lado a outro, pelo mar da Galileia. Jesus não vive só no “terreno sólido”; Ele vive também “no terreno do mar”, sai dos limites conhecidos, aventura-se ao novo, abre-se ao diferente… O evangelho deste domingo nos fala de uma realidade muito humana: somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até a travessia definitiva. Toda travessia tem um “para que” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida. O relato sobre a travessia do mar em Mateus nos revela que há muitas tormentas e ameaças ao nosso redor. Em meio à tempestade, levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes… Sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos… Mas, em meio às tempestades, urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem… “Permanecer na barca” é a palavra-chave: permanecer firmes nos compromissos assumidos, nos passos que buscam abrir caminhos novos, ainda que seja arriscado; permanecer ancorados na fidelidade a Jesus e a seu Reino e consentir que os ventos levem todos os nossos velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não nos impulsionam para a outra margem…; permanecer apenas com a pessoa de Jesus e seu sonho como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas existências. Na tempestade também é necessário “soltar amarras e içar velas”, ou seja, atrever-nos a “viver no Vento”. Aproveitar dos “ventos contrários” para transformá-los em “ventos favoráveis” que conduzam nossa vida para a “outra margem”. Soltar as amarras e âncoras de nossos apegos, de nosso consumismo, de nossa prepotência, afã de domínio, fundamentalismos, patriarcalismo, machismo… Precisamos perder o medo dos novos ventos e içar as velas das novas ideias, das visões arrojadas, dos projetos criativos, da riqueza da pluralidade de culturas, religiões, raças, deixar-nos mover pelo vento dos movimentos de libertação (povos em desenvolvimento, negros, indígenas, os sem-terra, os movimentos ecologistas, pacifistas, feministas…), enfim, acolher o vento que nos impulsiona em direção ao novo e diferente… A barca de nossa vida naufragará na estreita calma de mares mortos se não formos capazes de desatar os antigos nós de marinheiros que impedem içar as velas para receber os novos ventos da história. Durante a tormenta, aprender a recordar que, depois da tempestade, vem a calma, para não perder assim o horizonte nem a esperança. Afinal, somos “seres de travessia”. Temos entranhas ardentes de voltar ao alto-mar, a disposição de enfrentar tormentas, o desejo de descobrir terras desconhecidas, a exploração do novo, a paixão por um horizonte de sentido. Tantos anos ancorados em portos seguros, com ritmos e horários prefixados, sem criatividade e sem intuição…; agora é tempo de nos perder no mar, com a proa voltada para a imensidade… Este é o desafio: despojar-nos do medo, romper os limites e confiar no Sopro, sutil ou tormentoso, que continua nos conduzindo para onde não sabemos. Reconhecer o temor nos impulsiona fortemente a atravessá-lo, a abandonar desculpas esfarrapadas, a não nos deixar prender pelos custos previsíveis. Continuar quebrando nossas pobres seguranças, despojar-nos daquilo que nos alivia e sair, sem alforje, nem duas túnicas, sem sandálias… A travessia traz e leva inovação. Deslocar-se, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma alteração do ângulo habitual, uma exposição ao diferente, um amadurecimento do próprio olhar, um reconhecimento de que alguma coisa nos falta, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto indispensável, um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa futura (Card. Tolentino). O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação interior, de colocar-se em movimento… Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira… para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade… A outra margem: lugar provocador, incitador e que desperta curiosidade… É aqui que brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, os projetos ousados, as ideais vitais. Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação… e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior… Os poetas, artistas, místicos… são aqueles que fazem a experiência da “outra margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser. O seguidor de Jesus tampouco sabe o que há do outro lado. A ele, como aos demais, lhe custa ver claramente. No entanto, considera que a outra margem é talvez diferente, mas tão apaixonante como esta margem onde ele está; e então, decide animar-se a cruzar a vastidão do mar interior. Em resumo: nessa experiência não se trata tanto de “chegar”, mas de “ser levado”, pois nossos remos não servem para vencer a distância e a correnteza, e precisa do vento benfeitor que sopre, dirija, empurre e persevere, até a outra margem. No nosso processo espiritual, queremos desenvolver esta capacidade de ver quem nós somos e onde estamos, sem o temor de nos defrontarmos com respostas desagradáveis. Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como

Transfigurar nossa capacidade de escuta

“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5) O apelo do Deus de Jesus a seu povo, a cada filho e filha é este: “escutar”. O maravilhoso “Shemá Israel”, que nossos irmãos judeus tanto repetem e veneram, esteve nos lábios de Jesus infinitas vezes ao longo de sua vida. Em seus lábios, sim, como bom judeu que era, mas sobretudo em sua vida, como uma atitude. De Jesus falamos mais de suas palavras e de seus feitos, o que Ele “fez e disse”. Quando nos referimos ao seu “fazer”, nós nos fixamos em suas curas, em seus gestos eloquentes como multiplicar o pão para alimentar a multidão, no gesto de lavar os pés dos seus discípulos, de devolver vida e força às pessoas alquebradas por enfermidades etc. E o que Ele “disse”, os textos canônicos e apócrifos conservam para serem rezados, estudados, repetidos diariamente em centenas de liturgias, nos corações orantes, nos estudiosos enamorados da Palavra… De Jesus falamos muito pouco de sua escuta. Jesus é “Shemá” em sua mais pura essência. Embora pareça que tenha falado muito, sempre nos inspira uma etapa longa de sua vida, antes de seu batismo, na qual vivia uma vida normal, como todo bom judeu, cujo guia foi a fidelidade ao “Shemá”. Jesus escutava seu Abba, sua realidade social e religiosa, e continuou escutando. E porque escutou, se tornou um buscador; encontrou João no deserto e o escutou. Depois de um tempo, tomou uma decisão, deixou-se batizar e imediatamente foi conduzido pelo Espírito ao deserto para escutar. O motor da atividade de Jesus foi a escuta da voz do Pai, dos textos revelados e do pulsar da vida. Assim como aconteceu com Jesus, ativar a capacidade de escuta é a que nos possibilita a entrada no mistério. A escuta é como um sacramento que nos unge para a trajetória do seguimento de Jesus, para a travessia que nos faz sair das pequenas ou grandes atrofias: maneiras de pensar, opiniões petrificadas e inamovíveis sobre Deus e os outros, atitudes petrificadas, moralismos doentios, culpas mórbidas… para poder caminhar em direção à plenitude de vida, que é a meta. Tal plenitude não é um lugar físico, é um “estado interior” que nos ajuda a descobrir a direção e a felicidade. Na mentalidade judaica trata-se da “Terra prometida”. Esta não consiste simplesmente em estarmos bem, mas em estarmos em comunhão com tudo, em descobrir que somos uno, que estamos conectados, que somos uns com os outros, que possivelmente passou por nossos pulmões o mesmo oxigênio que passou pelo resto da humanidade, que somos pó de estrelas…; logo, pertencemos ao infinito, ao cosmos e desfrutamos contemplando as estrelas. Somos família. Escutar é perigoso, subverte; e é libertador, pois nos arranca da estabilidade e da acomodação. Quem escuta sai de si e se põe em movimento. Escutar é conectar com o pulsar de tudo e sentir que é preciso ser pessoa de travessia para outra margem, pessoa capaz de soltar para acolher, para abraçar e acompanhar. A vida não é um mistério para aqueles que elegem caminhos seguros. Nossa vida começa a sentir o mistério quando escutamos e entramos em sintonia com a realidade e de sua mão nos deixamos introduzir em outro nível, o do “Shemá”, o da escuta da pulsação d’Aquele que é Presença providente e cuidadosa. A festa da Transfiguração nos anima a que nos tornemos homens e mulheres de “Shemá”, de escuta. Deixar que o longo tempo que Jesus se dedicou a escutar nos contagie; deixar que este aspecto de nossa essência configure mais e mais nossa identidade como pessoas “escutadoras”. A escuta mais profunda se realiza a partir da quietude e do silêncio interior. Como no lago sem ondas, em cuja superfície lisa se refletem as imagens, o ouvido interno capta o som de vida criada e criadora só quando os ruídos artificiais forem aquietados. É preciso afinar mais a capacidade de escuta interior para melhor sentir, discernir e optar. Ao escutar Jesus nos sentiremos movidos a sair de nosso conformismo, romper com um estilo de vida egoico no qual estamos, talvez, confortavelmente instalados, e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega a partir dos mais excluídos e desvalidos de nossa sociedade. Saber escutar nos liberta do fechamento indiferente, do fanatismo e do conservadorismo que aprisiona a vida; liberta-nos também da surdez cúmplice dos ruídos alienadores que bloqueiam os clamores que provêm da Terra machucada e dos irmãos violentados. O “ouvido evangelizado” nos permite abrir ao diferente, à palavra e ao silêncio, à brisa e ao rugir da tormenta. Através do ouvido podemos saborear a beleza das melodias da natureza (água, vento, árvores, pássaros…) e da criação artística. Um ouvido atento que possa perceber o Silêncio, um silêncio carregado de Presença, e o Mistério que pode ser nomeado de diversos modos: Transcendência, Ser, Energia Puríssima, Alá, Deus, Ser, Presença…; Jesus de Nazaré o denominou “Abba”, como expressão de sua experiência de relação amorosa. Saber escutar foi e continua sendo uma aprendizagem longa e difícil, que não termina nunca, e que vai nos conduzindo a um encontro com a Vida; portanto, a uma aprendizagem no caminho em direção ao amor. É preciso aprender o ofício de “escutadores/as”; escuta descentrada que nos coloca no lugar da outra pessoa, escuta para ativar os dois ouvidos: um atento às necessidades dos outros, e o outro atento às nossas próprias ressonâncias interiores. Por isso, é importante aprofundar no que significa fazer do ouvido um lugar para o encontro com o Ser, com a vida, com o Amor, porque isto supõe uma aprendizagem, requer arte e técnica, supõe transitar caminhos diferentes, cultivar um modo original de nos fazer presentes na realidade que nos envolve. É preciso afinar cada vez mais nossos ouvidos para poder escutar a voz dos sem voz, daqueles que já não tem nem forças para gritar, daqueles que perderam a esperança de serem escutados, daqueles que ficaram exaustos, atirados nos caminhos que eles acreditavam serem

No “chão da vida” está escondido nosso verdadeiro tesouro

“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo…; é também como um comprador de pérolas preciosas” (Mt 13,44-45) As parábolas têm sua força na luz da proposta e não na agressividade do contraste. São implicativas, têm valor universal, não precisam de um passo prévio de preparação intelectual para poderem ser compreendidas. São entendidas porque são transparentes, pequenas, sem contornos sofisticados. As parábolas nos evangelhos despertam o dinamismo da fé para acolher a novidade do Reino apresentada por Jesus. É na mesma fé que elas adquirem força para serem propostas, compartilhadas e presenteadas. As parábolas são parte essencial dos métodos terapêuticos de Jesus. Ele cura por meio de histórias, cura usando palavras que abrem o coração dos ouvintes para a própria verdade e para uma relação mais sadia com o Pai. Com seus relatos, Jesus desperta e extrai o melhor e mais nobre presente no interior de cada um; quem o escuta sente um novo movimento que o faz sair de si e abrir-se às surpresas da vida. Por isso, as parábolas apresentam uma linguagem simples, comum, próxima. Para quem as escuta ou as lê, é preciso alargar seus espaços interiores numa atitude de atenção acolhedora, de encontro, de deixar-se envolver e provocar por elas, sem ter que forçar o texto ou uma interpretação. As parábolas apresentam-se sempre como relatos abertos, provocando diferentes reações, despertando e ampliando a vida. Podemos, então, dizer que as parábolas contadas por Jesus são “arriscadas”. Não pertencem à literatura de consumo; ampliam a vida e a comprometem; pronunciá-las ou assumi-las como estilo de vida dá medo… Colocam-nos no fluxo do divino e precisamente por isso tem um atrativo muito especial: são incontestáveis. As parábolas do tesouro escondido ou da pérola procurada, presentes em diferentes tradições sapienciais, constitui um convite a encontrar ou descobrir aquilo que, mesmo sem saber, desejamos: o que realmente somos. Elas contêm várias indicações valiosas: o tesouro e a pérola estão aí, o tempo todo; trata-se simplesmente de descobri-los. Não são algo separado de nós, nem algo do qual carecemos, mas justamente aquilo que somos. Quando os encontramos ou descobrimos, tudo o mais começa a ser visto como algo secundário; e essa descoberta se traduz em alegria perene. Todo ser humano anseia por esse tesouro e essa pérola. De fato, é essa aspiração que nos move, nos faz iniciar a busca e percorrer diferentes caminhos, atraídos sempre por seu aroma de plenitude. No entanto, nessa busca pode acontecer de tudo: nos distraímos e terminamos enredados; nos conformamos com pequenas “guloseimas” ou nos entretemos com “brinquedos”, esquecendo o tesouro real; calamos a voz do desejo profundo, abafando-nos com múltiplos ruídos; dizemos a nós mesmos que a aspiração profunda é inventada e que é necessário ser “práticos” e não acreditar em “contos” ilusórios… E, mesmo no melhor dos casos, quando a busca se apoia numa forte determinação, não é fácil superar a armadilha que nos incita a buscar o tesouro ou a pérola em “algo” fora, longe ou no futuro. Há em todos nós o “bom odor” da plenitude. Mas, nossa mente, identificada com nosso ego separado, nos faz crer que a plenitude se encontra fora e aí começamos a correria que não conduz a nenhum lugar. As parábolas deste domingo nos recordam esta inspiradora verdade: nós, em nossa verdadeira identidade, somos já o que estamos buscando. Não é preciso correr para fora, porque onde temos de chegar é no nosso eu mais profundo, na nossa essência, onde somos nós mesmos. Basta pacificar a mente e, se tivermos paciência e perseverança nisso, o silêncio nos mostrará o tesouro que desde sempre aspiramos. Quando isto acontece, a busca será concluída: descobrimos o que sempre fomos e que nos permanecia oculto. Só podemos encontrar o tesouro e a pérola dentro de nós se descermos ao chão de nossa vida, ou mergulharmos nas profundezas de nossa interioridade. É normal que nós nos surpreendamos frente a frente com um “eu” desconhecido, temido ou reprimido há muito tempo. O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com os nossos instintos, com nossas paixões, com nossos problemas e fragilidades, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto grita dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente em nossas feridas nós descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu” escondido no fundo de nosso coração. “Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen). Se algo nos deixa claro nas parábolas deste domingo é que a renúncia ou desprendimento evangélico não é um meio para ter acesso ao Reino, mas consequência de tê-lo encontrado. É o tesouro e a pérola que exigem e possibilitam a renúncia, uma vez encontrado. Não o inverso. É muito curiosa esta íntima relação evangélica entre a alegria e a perda. Uma alegria que nos mobiliza… e nos despoja. “A alegria é o primeiro efeito do amor e, portanto, da entrega… Pelo contrário, a tristeza é um vício causado pelo desordenado amor de si mesmo, que não é um vício especial, mas a raiz geral de todos eles”(S. Tomás de Aquino). A partir daqui se entende muito bem a ligação direta entre alegria e entrega total, pois “cada um tanto se aproveitará em todas as coisas espirituais quanto sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Sempre e quando seja um sair que nos adentra em nós mesmos, nos desaloja para poder viver “em casa”. Talvez nos ajude a recuperar o sentido da abnegação e o “custo” (vendeu tudo) como condição necessária para uma vida evangélica. É o duplo movimento do “empobrecer-nos para sermos ricos” (2Cor 8,9), para que o tesouro que nos habita seja o centro de nossa vida e não o ego inflado e estéril. E isso porque se trata de descentrar-nos, de esvaziar o ego e converter o “eu” em um receptáculo cada vez mais disponível para que Deus possa irromper e manifestar-se através dos nossos melhores recursos. Enfim, podemos proclamar esta certeza: o tesouro

A paciência que nos faz criativos

“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29) A impressão que temos é que a paciência deixou de ser a virtude de nosso tempo; parece estar ameaçada de extinção. Aumenta a ansiedade que não espera, a angústia de não ter ainda o que se busca e a inquietude que parece não ter fim. Vivemos o tempo do imediatismo, da instantaneidade e da urgência. A pressa é a marca do nosso ritmo de vida, e, por isso, nossas ações, decisões e a construção de nós mesmos são tão efêmeras e sem raízes. O impaciente se afoga em sua instabilidade, atropela tudo e rompe a harmonia, a beleza e a relação com os outros. No entanto, a paciência é a atitude que faz vir à tona um conjunto de qualidades que nos fazem crescer como pessoas: saber esperar o ritmo das coisas e pessoas, tolerar o novo e diferente, aprender a conviver com aquilo que nos é próprio e respeitar o dos demais, firmeza na adversidade, levar adiante nossas próprias convicções, deixar-nos tocar pela crítica construtiva, olhar a realidade com uma visão mais ampla, crer naquilo que podemos chegar a ser, guardar no coração aquilo que ainda não está resolvido, não atropelar as pretensões dos outros, entrar em harmonia com a natureza, sonhar com uma realidade nova, trabalhar e confiar, respeitar o tempo de maturação das pessoas… A paciência não é um controle absoluto de tudo, senão impedir que a urgência das coisas nos arraste para o turbilhão de pressas que nos impede respirar, pensar, decidir e agir com criatividade. Em hebraico, a expressão “ser paciente”, significa “ter grandes narinas”.Isso quer dizer: respirar profundamente. De fato, ser paciente é ter uma respiração larga, uma respiração profunda. Observemos a maneira como respiramos, quando estamos impacientes; a respiração se torna curta quando estamos ansiosos. Ativar em nós a paciência é entrar no fluxo do ritmo tranquilo da respiração. Ser paciente é voltar sobre nossos próprios pés, enraizar-nos, aterrissar, estar aí, não nos deixar arrastar pela emoção. Após ter expirado profundamente, alguém é capaz de escutar o outro, é capaz de ser paciente. A paciência é tecida na espera, mas também é uma virtude que se ativa no esforço constante, muitas vezes rotineiro e pouco heroico. A paciência abre a possibilidade do novo futuro, mantém acesa a busca e movimenta valores como a perseverança, o discernimento, a confiança, a resistência, a contemplação… Segundo o evangelho deste domingo, o mistério escondido numa semente e as potencialidades presentes no ser humano merecem de todos nós o sagrado respeito pelo ritmo de crescimento, suscitando em nós uma atitude de admiração e encantamento. A sementeira já foi realizada com êxito, as forças de Deus continuam agindo, mesmo ocultas e desenvolvendo-se de uma forma silenciosa. Ainda não chegou a colheita, mas, com certeza ela virá. Enquanto isso, convém esperar pacientes e tranquilos e confiar na ação providente de Deus. O ativismo, a pressa e a inquietação não nos farão atingir os objetivos que almejamos; não são as pessoas que realizam o Reino de Deus por suas forças; o Reino chega pela força de Deus e vai crescendo silenciosamente, “por si só”, sem que se perceba a sua expansão. As três pequenas e inspiradas parábolas deste domingo nos falam de espera paciente, de respeito aos ritmos e processos, de confiança no dinamismo da vida… Jesus, em diferentes intervenções, faz referência a todo o processo agrícola, desde o plantio da semente até a colheita dos frutos. Semear, cuidar do crescimento, colher… tem seu ritmo próprio, o ritmo da natureza. As três parábolas têm uma mensagem comum. Nas três, o Reino de Deus se compara com algo pequeno e, ao mesmo tempo, carregado de vida, que cresce e se manifesta pouco a pouco, a partir de dentro, sem ruídos nem aparências. Não se impõe como uma superestrutura na qual vivemos ou temos, mas que perpassa e transforma tudo, como uma força silenciosa, mas potente, que vem da natureza, não de nós mesmos. Infelizmente, estamos perdendo o ritmo da natureza e queremos que tudo aconteça com a mesma rapidez quando nos comunicamos através dos meios eletrônicos. Temos “entranhas de impaciência”. Desistimos facilmente diante da falta de frutos ou as más ervas que crescem no campo da vida; queremos que as coisas sejam como imaginamos que devem ser; queremos plantar hoje e encher os celeiros amanhã. É preciso voltar a aprender com a mãe natureza. Um olhar repousado e paciente supõe capacidade contemplativa e vida interior, aprender a diminuir a velocidade de nossas vidas, ações e pensamentos, e preparar-nos para a serenidade e para a espera criativa. “A idolatria começa com um gesto de impaciência” (Onaknin). Na parábola do trigo e joio, a impaciência dos empregados leva-os a querer ter o controle do campo, onde fora semeada boa semente. A paciência, pelo contrário, está na entranha mesma da Vontade de Deus, que quer que cada coisa se desenvolva em liberdade, com seu tempo e seu espaço, sem que ninguém se sinta ameaçado. A paciência é mão estendida para Deus e para o outro, enquanto a impaciência é um punho que ameaça e arrebata. O “apressado” coloca-se em estado de revolta contra o que ainda está inacabado, sufocando seu amadurecer e impedindo o ritmo normal de desenvolvimento. A “pressa” tende a mostrar-se raivosa e impor-se, cega, à realidade. Prisioneiro de suas limitações, o impaciente julga absurda toda demora e mostra-se incapaz de ter interesse por tudo o que o cerca. Impaciente e irado, caracteriza-se pela intolerância que é destruidora. A paciência, por sua vez, nos dispõe a olhar ao nosso redor e sermos surpreendidos por tanta beleza; ela nos possibilita aguardar e deixar-nos “tocar” por algo surpreendente. Cada um de nós recebeu milhões de boas sementes ao longo de nossa vida. Também nos foram oferecidos todos os nutrientes que precisamos para crescer em meio às más ervas, misturadas em nossa realidade interior. Será que somos conscientes de que germinar e dar frutos, fermentar e mudar nosso ambiente é um processo lento que requer

Deus é “semente fecunda” em nosso interior

“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3) O ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível… é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é identidade dinâmica…; é uma mina de significados e riquezas. Com inesgotável potencialidade, ele recria a natureza e tem a possibilidade de inventar a sua própria vida. Onde há ser humano há espírito inteligente, impulso de liberdade e manifestação de tenacidade. Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso… Ele é seduzido pela liberdade que lhe apresenta horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”, “vida que se expande”. Com seu pensamento e seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços. Essa capacidade é o que nós chamamos transcendência, isto é, “transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado”. Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções. O ser humano é mais do que parece ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável… “Desejando e elegendo aquilo que mais nos conduz…” (S. Inácio). Jesus expressa toda essa originalidade e riqueza do ser humano através da parábola do camponês que, com suas mãos abertas, espalha as “sementes” em diferentes terrenos. A parábola começa afirmando: “Saiu o semeador a semear”. Ele faz isso com uma confiança surpreendente. Semeia de maneira abundante. A semente cai em todas as partes, inclusive ali onde parece difícil que ela possa germinar. De fato, na semente encontra-se presente uma grande força de crescimento… A força da vida, contida no interior da semente, envelhecerá e se extinguirá se não houver quem confie nela, e arrisque a sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; ela avança passo a passo, seja durante as horas em que as circunstâncias lhe são mais favoráveis, porque é de dia e existe luz e calor em abundância, seja porque é de noite, e o ambiente para seu crescimento já não é tão propício. Escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo. O talo, a espiga e os frutos conduzem toda a vitalidade da minúscula semente até a maturidade da planta. E cada árvore vive intensamente o tempo que lhe cabe viver, o tempo suficiente para produzir frutos em abundância. Ao terminar o relato da parábola do semeador, Jesus faz este apelo: “Quem tem ouvidos, ouça!”. Ele nos pede que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que deve estar focada nossa atenção: no semeador? na semente? nos diferentes terrenos? Tradicionalmente, nós cristãos nos fixamos quase exclusivamente nos “terremos” onde cai a semente, para revisar qual é nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto, é importante dirigir nossa atenção ao semeador e a seu modo de semear. Para nós que crescemos em um contexto religioso desde a infância, a leitura literal desta parábola condicionou nossa visão da realidade em dois aspectos determinantes: o dualismo e o moralismo. Em tal leitura aparecia a imagem do Deus semeador como um alguém separado e, portanto, distante. Essa crença de separação não só alimentava um dualismo religioso – Deus frente ao mundo – de nefastas consequências, mas que era a fonte de outras ideias igualmente perigosas em suas consequências: o pecado, a culpa, a alienação, o infantilismo religioso… Com frequência, o dualismo religioso era acompanhado de moralismo. Se a semente não dava fruto numa pessoa, devia-se simplesmente à sua própria maldade, já que não havia preparado adequadamente seu “terreno”. Assim se fazia presente a culpa em quem acreditava ser um terreno improdutivo ou caía-se no farisaísmo, passando a vida limitando-se somente a cumprir normas e leis. A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós. “O semeador saiu.” Para semear nos campos, na terra, é preciso sair de casa. Deus é, ao mesmo tempo, “semeador e semente”. Ele “desce”, faz um Êxodo, um deslocamento em direção à humanidade, onde encontra diferentes terrenos. Em nossa terra interior já está semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é como a chuva que ao cair desperta a vida presente na semente. Também gerará novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais. Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado, mas como semente, que cada deve acolher e deixar-se fecundar por ela, para poder frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O fruto seria uma nova maneira de nos relacionar com Deus, conosco mesmo, com os outros e com as criaturas. A semente é o mesmo Deus-Vida germinando em cada um de nós; sua presença é sempre fecunda. Deus habita em suas criaturas e se manifesta em todas elas como algo tão íntimo que se constitui como semente de tudo o que é. Não devemos dar a entender que nós os cristãos somos os privilegiados que temos recebido a semente (Escritura). Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira (a mão-aberta). Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e fantasias que envenenam sua existência. Entrar no fluxo da ação do Semeador divino é preciso sair de nossos espaços seguros, de nossas ideias e convicções atrofiadas, de nossos próprios esquemas fechados e abrir-nos aos diferentes terrenos. Semear é uma tarefa nobre na vida: semear trigo, trabalho, cultura, educação, semear ética, valores, esperança, respeito, dignidade, sentido da vida… Ao mesmo tempo que nobre, semear é uma tarefa de grande responsabilidade. Pais, mestres, escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, etc., todos temos a nobre e bela tarefa de semear. Ao nos

A gratidão dá “sabor e calor” à vida

“Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25) Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos… Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada). No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração…; trata-se de um louvor, um canto à vida. Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras. Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso… A gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão. Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo. Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos. A gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo. Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nosso próprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência. Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo. A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos. Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo. A gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça… Somos seres agraciados, “cheios de graça”. Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo. Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim! Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfrutamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia. Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser… “Dar graças”, “agradecer”, “louvar”… é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida”. Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve…, pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados. Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores

Como integrar “Pedro e Paulo” em nossas vidas?

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) Neste domingo, a liturgia nos convida a “fazer memória” de S. Pedro e S. Paulo, dois personagens instigantes, inspiradores e motivadores para todos nós cristãos, seguidores(as) d’Aquele que continuamente nos desafia com sua pergunta: “E vós, quem dizeis eu sou?”. Não se trata de dar uma resposta teológica, mas de reforçar nossa adesão e identificação à pessoa de Jesus Cristo. Por isso, cada um responde de maneira diferente, porque não há um seguimento igual para todos. Foi assim que Pedro e Paulo, com suas personalidades tão distintas, deixaram-se impactar pela pergunta de Jesus e souberam responder com a vida; por isso, eles são referências para nós. Há perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não nos comprometem. O problema está quando nos fazem perguntas nas quais nos sentimos implicados. Há perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que nos desvelam por dentro. Há perguntas secundárias sobre as quais podemos dizer qualquer coisa. E há perguntas essenciais que nos movem a falar de nós mesmos. E essas perguntas doem porque são perguntas que desnudam o fundo de nosso coração. São perguntas que nos implicam naquilo que somos realmente. O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação; leva dose de irreverência. “Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas têm uma força que não encontramos nas respostas. Enquanto perguntamos por alguém, palpita em nós um impulso, um interesse que não se apaga enquanto não sacia nossa curiosidade. A pergunta é movimento; é a pergunta que faz emergir a novidade, pois ela ativa a busca por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar põe em crise certas convicções, ideias fechadas, modos arcaicos de viver… e nos mantém em busca permanente. É neste nível que surge a pergunta de Jesus aos discípulos, na região de Cesareia de Filipe. Ele não pergunta aos seus discípulos sobre o que pensam a respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão à sua Pessoa. Por isso quer saber o que eles pensam e sentem, depois de um tempo de convivência com Ele. Jesus propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”; uma pergunta exigindo que eles se examinem a sério, que tomem consciência do que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo. Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa aventura. A pergunta é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige a todos. Cada um tem de dar sua resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé. Pedro e Paulo responderam com suas vidas à pergunta feita por Jesus; por isso, eles não são somente duas colunas que sustentam a grande comunidade cristã; eles representam as duas dimensões essenciais para o dinamismo da Igreja. A liturgia intuiu que é preciso integrar as identidades destes dois personagens. Não se pode privilegiar um em detrimento do outro. Nos Evangelhos, Pedro é o pescador que, impactado pela presença e pelo convite de Jesus, vai entrando, aos poucos, em sintonia com Ele. Um encontro que vai crescendo em adesão à proposta do Reino; um caminho de seguimento que tem seus momentos de obscuridade e de crise, sobretudo ao ver o fracasso do Mestre condenado pelas autoridades religiosas e políticas. Pedro é o protótipo do cristão que vai se convertendo, abrindo-se à presença desconcertante de Deus na conduta histórica de Jesus. Em Pentecostes, Pedro fala em nome dos primeiros discípulos, cuja fé vem a ser normativa para todas as gerações que se sucedem na história da igreja. Ele confessa o artigo central e original da fé cristã: “Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo”. E se a Igreja se mantém firme nessa confissão, nada nem ninguém a destruirá. Entre os discípulos de Jesus, Pedro foi, sem dúvida, o mais atirado, o mais impulsivo, com o perigo que isso implica. Era o líder do grupo, o primeiro a falar em qualquer circunstância, sem medo de repreender Jesus quando este anuncia sua paixão, sem medo de levar uma reprimenda quando Jesus quer lavar os pés ou quando anuncia que todos o trairão. O fato de ser tão lançado o situa também no lugar mais perigoso, o da negação de Jesus. Mas, ele mesmo termina confessando depois da ressurreição: “Tu sabes tudo, tu sabes que te amo”. Não é novidade que Jesus o visse como o líder natural do grupo depois de sua morte e ressurreição. Paulo, por sua vez, é o homem universal. Alcançado e convertido pela presença do Ressuscitado, ele abriu a Igreja ao mundo grego e romano, superando os moldes da religião judaica. Com sua itinerância, rompeu as fronteiras geográficas, culturais e religiosas, pois, para ele, o Evangelho de Jesus é anúncio de salvação para todos os povos. O que muitos não conhecem é a revelação que Deus lhe fez e que ele tanto insiste em suas cartas: que a boa notícia de Jesus não era só para os judeus, mas também para toda a humanidade. A expansão da Igreja primitiva é humanamente inconcebível sem a figura de Paulo. Percorreu milhares de quilômetros e se expôs a todo tipo de perigos para levar o anúncio de Jesus “até os confins da terra”. Em chave de interioridade, podemos afirmar que Pedro e Paulo são também dimensões de nosso ser. “Pedro” representa a solidez interior, a certeza, a convicção, os valores… Viver a “dimensão Pedro” é cuidar dos fundamentos de nossa vida, a rocha sobre a qual construímos a maneira de viver o seguimento de Jesus. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar no seguimento superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar a

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