Conservação e preservação de nossa casa comum

As Ciências da Vida diferenciam “conservação” e “preservação” quando associadas à natureza ou discussões ambientais. O primeiro termo está ligado à conservação da biodiversidade e da ecologia. Em tal abordagem, os ecossistemas incluem espécies naturais, permitindo, entretanto, o uso sustentável e a participação humana, desde que orientada para a proteção, o uso racional e as gerações futuras. Já a segunda visão abrange a preservação das espécies, ecossistemas, biomas, diversidade genética, em uma perspectiva na qual o mundo natural não está à disposição dos humanos. Concebe a proteção da natureza para além do valor utilitário e econômico e visa à perenidade e à proteção integral. Ambos os significados são relevantes e pertinentes. Conservação, por possibilitar o uso sustentável, por considerar a participação humana; e preservação, por causa do valor atribuído à biodiversidade para além do utilitário, pelo compromisso com a proteção integral. Para que o cuidado com a conservação e a preservação de condições de vida na terra extrapolasse o campo das Ciências da Vida, foi percorrido um longo caminho. No trajeto, foram publicadas várias obras centradas no tema, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, quando nossa pegada ecológica já se fazia evidente. A hipótese de “Gaia”, tão presente nos textos de Leonardo Boff, foi formulada por Lovelock em 1969 e publicada em 1979. Para ilustrar a delicadeza, a beleza e a fragilidade do planeta, Lovelock valeu-se de uma imagem produzida um pouco antes: o planeta azul imerso no cosmos, registrado do espaço em sua primeira fotografia colorida. A partir de suas investigações sobre a biosfera, o cientista intuiu que todos os seres vivos e elementos materiais da superfície da terra constituíam uma comunidade, um megaorganismo, que, “inconscientemente”, afinava-se para manter o planeta como um sistema viável para a vida. Em sua percepção, nós, humanos, não teríamos direitos especiais, mas obrigações para com a preservação do equilíbrio do sistema, uma vez que nosso destino está conectado com o impacto de nossas ações sobre a terra. O cuidado requerido pela terra, presente em “Gaia”, também foi abordado em conferências sobre o desenvolvimento e meio ambiente, como aquelas sediadas em Estocolmo (1972), Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987), Rio de Janeiro (1992 e 2012), além de orientar as conferências climáticas anuais e documentos como a Agenda 21 e a Agenda 2030. Em tais ações, nem sempre a dimensão social e ambiental consegue sobreposição à agenda econômica, o que traz ainda mais relevância à Segunda Encíclica do Papa Francisco (2015), “Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum”. A Organização das Nações Unidas instituiu 28 de julho como Dia Mundial de Conservação da Natureza. É mais uma oportunidade para que a Equipe de Comunicação das SSpS Brasil reafirme seu compromisso de missionariedade com o uso sustentável de recursos, a valorização da biodiversidade em uma dimensão não utilitária e o cuidado integral com o planeta e a vida. ReferênciasAGENDA 2030. Plataforma agenda 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br. Acesso em: 6 jan. 2021.BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.EVERLING, Marli; KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Design, educação ambiental e ser-no-mundo: elementos para uma hermenêutica da complexidade e da sustentabilidade. In: Confluências Culturais; Dossier Nossa vida, nosso planeta, nossa saúde, Joinville, v. 11, n. 2. P. 58-71, 2022. Disponível em: http://periodicos.univille.br/index.php/RCC/article/view/1809/1524. Acesso em: 17 jul. 2023.FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História, Franca, v. 32, n. 2, p. 21-48, jul./dez. 2013. Acesso em: 8 jan. 2021.LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.MOREIRA, Catarina. Biosfera. In: Revista de Ciência Elementar,Porto, v. 3, n. 2, jun. 2015. Disponível em: https://rce.casadasciencias.org/rceapp/pdf/2015/113/. Acesso em: 17 jul. 2023.PADUA, Suzana. Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação? In: Jornal Eco, 2 fev. 2006. Disponível em: https://www.oeco.org.br/colunas/18246-oeco-15564/#:~:text=Conserva%C3%A7%C3%A3o%2C%20nas%20leis%20brasileiras%2C%20significa,integral%2C%20a%20%E2%80%9Cintocabilidade%E2%80%9D. Acesso em: 15 abr. 2021.PAPA FRANCISCO. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. In: Vatican.va, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf&ved=2ahUKEwjXkvHWspOAAxXKIbkGHTF6ATQQFnoECDoQAQ&usg=AOvVaw2u7wRcx62LzwHk1PDCrwCY. Acesso em: 15 abr. 2021. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br), colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br), colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais. Instagram: @designuniville
Missionárias servas do Espírito Santo falam sobre os dez anos do pontificado do Papa Francisco

“Conduzido pelo Espírito Santo, Papa Francisco é um profeta, capaz de chorar por seu povo e também de falar com firmeza quando necessário. Sua coragem e sua autenticidade são virtudes que os cristãos e o mundo apreciam”, afirma a irmã Adriana da Silva, SSpS. Por ocasião dos dez anos do pontificado do Papa Francisco, celebrados em 13 de março de 2023, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) manifestaram suas impressões sobre a missão de Francisco como líder da Igreja Católica. “Desde que assumiu seu pontificado, embora num contexto desafiador, mostrou ao mundo a importância da solidariedade, da esperança e do amor, por meio de documentos, cartas, discursos, catequeses e homilias”, acrescenta Ir. Adriana. De acordo com a conselheira-geral, a indiana Ir. Tressa Sebastian Nayathuda, Francisco tem marcado seu pontificado pelas virtudes da humildade, da simplicidade e da abertura. “Esses valores se tornaram visíveis quando lavou e beijou os pés de 12 pessoas, tanto mulheres como homens, na prisão, pouco depois da sua eleição como Papa”, afirmou. Irmã Hermelinda Ruschel ressalta, ainda, a grande capacidade de Francisco de se comover com o sofrimento humano causado pela guerra, pela pobreza. Ela também destaca a preocupação dele com o cuidado da natureza e enfatiza seu esforço em favorecer que as mulheres ocupem seu espaço na Igreja. “Aprecio muito a sua iniciativa de fazer ouvir a voz das mulheres na Igreja e seus esforços para realçar as contribuições delas”, declara. Para a irmã Maria Inês Aragão, o caminho da sinodalidade proposto pelo Papa Francisco é um convite a responder, de forma mais adequada, aos desafios de uma época turbulenta e conflitiva: “Como bom pastor, orienta-nos dia a dia, com lucidez”. Nascida na Indonésia, missionária no Brasil há mais de dez anos, a Ir. Theodora Illi sublinha: “Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem se mostrado sempre ao lado dos pobres e marginalizados, cheio de ternura para com os que sofrem”. Acrescenta que “embora respeite os dogmas e as doutrinas, é pela vivência do amor que ele tem chegado ao coração do povo”. “O Francisco da misericórdia e da compaixão, acolhedor e atento aos sofrimentos da pessoa. Como pastor zeloso, ensina e orienta o povo de Deus de como vier a sua fé, no concreto da vida”, diz a Ir. Hermelinda Ruschel, de Ponta Grossa-PR. Papa Francisco carrega, em seu nome, o amor pelos pobres e pela criação de Deus, segundo Ir. Juliana de Andrade. “Apesar de estar longe fisicamente, ele se faz tão próximo de nós e nos convida a sermos Igreja em saída que toca o seu povo com misericórdia.” Assista, a seguir, ao depoimento de Ir. Juliana. Dez anos de pontificado Em 2023, a Igreja Católica celebra os dez anos do pontificado do Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da maior instituição de caridade do mundo, somando 1,2 bilhão de fiéis. Natural de Buenos Aires (Argentina) e eleito Papa em 13 de março de 2013, Jorge Mario Bergoglio é o primeiro Papa não europeu em mais de 1.200 anos. O Papa, ao recordar sua eleição, sempre fala, com reconhecimento e admiração, sobre o amigo brasileiro, Dom Cláudio Hummes, OFM como a inspiração primeira para o nome Francisco. “Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E, quando os votos chegaram a dois terços, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. Ele me abraçou, me beijou e disse: ‘Não se esqueça dos pobres’. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei-me de São Francisco de Assis.” É o primeiro Papa que ousa tomar para si o nome de Francisco de Assis. Assumindo sua identidade espiritual, eclesial, teológica e pastoral, torna-se reconhecido por suas encíclicas que convocam o mundo à fraternidade universal e ao cuidado da Casa Comum, e por desafiar a Igreja à saída de si para uma evangelização ampla, fundada na simplicidade, na pobreza na misericórdia. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.
O cuidado efetivo da casa comum exige mudar nosso estilo de vida

Cuidar é envolver-se afetivamente com algo que vai além de nós, abarcando as dimensões da esfera pessoal, social, ecológica e espiritual. O ser humano é o único ser que necessita do cuidado do outro, desde o início de sua vida até seu último suspiro [1]. Na mitologia greco-romana, o Mito do Cuidado já nos apontava isso: “Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura (ser humano), ficará sob seus cuidados enquanto ela viver”. O cuidado é um parâmetro para se compreender o que é humano. O ato de cuidar é um aprendizado contínuo. Seguindo esse mesmo caminho do cuidado como balizador de nossas atitudes, no ano de 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato si’,que, a meu ver, é a mais icônica dos últimos tempos. Nela Francisco entrega a todos o coração do seu pontificado: a ecologia integral, o cuidado da casa comum. Ecologia integral não se refere apenas ao meio ambiente, mas inclui aquelas dimensões já mencionadas no início de nosso texto: pessoal, social, ecológica e espiritual. Para Francisco, tudo está interligado e, assim sendo, propõe a nós uma nova maneira de entender esse entrelaçar de vidas de todas as criaturas do planeta. A proposta do Papa Francisco se aproxima muito da filosofia do bem viver, presente na vida dos povos originários da América Latina: a reciprocidade entre as pessoas, a amizade fraterna, a convivência com os outros seres da natureza e o profundo respeito pela terra [2]. Francisco resgata essa herança que nós, latino-americanos, recebemos dos povos indígenas e a reelabora escrevendo a chamada “Encíclica Verde”. Três anos após publicar a Laudato si’, Francisco lança a encíclica Fratelli tutti, que fala sobre a fraternidade e a amizade social, indicando que primeiro precisamos nos entender como irmãos, habitantes de uma casa comum para, aí sim, trabalharmos juntos e eficazmente pelo bem de todos. E, como já era de se esperar, como um bom jesuíta que é, assumiu e convidou todos nós a abraçar o Pacto Educativo Global, que não é a solução dos nossos problemas, mas é o caminho. Como ele mesmo fala: “Porque toda mudança precisa de um caminho educativo para fazer surgir uma nova solidariedade universal e uma sociedade acolhedora” [3]. A educação é o caminho. Somos chamados a educar o pensar, educar o olhar, educar o sentir, educar o ouvir, educar o falar… Tudo em nós precisa ser educado para podermos atingir a plenitude a que somos chamados. Entre tantos significados sobre educar que encontramos, cito este: “dar (a alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento da sua personalidade”. Com o Pacto Educativo Global, o Papa Francisco nos aponta um caminho para que possamos cuidar da educação e passemos a agir. Ele nos convida a uma verdadeira conversão, no sentido mais estrito da palavra, metanoia, mudança de pensamento, de sentimento que leva a uma verdadeira mudança de atitude. Conforme educamos e somos educados, vamos adquirindo novos hábitos, refletindo nossas atitudes e, quando percebemos, estamos mudando nosso estilo de vida. Finalizo com o pensamento de Hannah Arendt sobre a educação: “A educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, de jovens. Na educação decide-se também se nós amamos tanto os nossos filhos a ponto de não os desalojar do nosso mundo, deixando-os à mercê de si mesmos, a ponto de não arrebatar de suas mãos a possibilidade de realizar algo novo, algo de imprevisível para nós, e prepará-los, em vez disso, para a tarefa de renovar um mundo que será comum a todos”. Referências[1] Ruth Cavalcante. O afeto e a arte de cuidar.[2] Disponível em: https://cimi.org.br/o-bem-viver-indigena-e-o-futuro-da-humanidade/[3] Mensagem do Papa Francisco para o lançamento do pacto educativo. Alexandre BrittoCoordenador missionário do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ.
SSpS do Brasil alertam para situação da Amazônia

Com base na Encíclica Laudato si’, publicada pelo Papa Francisco, e no Sínodo da Amazônia, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) no Brasil assumiram o compromisso de defender a Casa Comum. Assim, elas denunciam as violações ao meio ambiente e alertam para o caso específico da Floresta Amazônica. No manifesto Todos pela Amazônia, as irmãs alertam que a questão amazônica deve interessar ao mundo inteiro, não apenas às comunidades locais. Para as SSpS, o coração do planeta está ameaçado. “Não importa se você mora longe ou perto da floresta: a vida como é hoje só é possível por causa dela. E a Amazônia precisa de você. É hora de fazer escolhas”. As missionárias justificam que a Amazônia é o coração pulsante do planeta, que regula o sistema climático global e espalha chuva para outras regiões do Brasil, em nuvens que funcionam como veias, bombeando sangue para o restante do corpo. Elas recordam que o bioma tem uma incrível variedade de plantas, animais e é a casa de diversos de povos, entre eles indígenas e populações tradicionais, um legítimo tesouro humano. As comunidades se destacam pelas cores, saberes, cantos e mistérios. “Um lugar regido pela imensidão e força da natureza; um lugar único, diverso e plural.” Ataque à maior floresta tropical o planeta As irmãs servas do Espírito Santo denunciam o plano do governo Jair Bolsonaro de abrir a Amazônia para exploração, entregando o patrimônio ambiental de todos os brasileiros para empresas de mineração, de energia e para o agronegócio. Para elas, é um ataque final à maior floresta tropical do mundo. Só em 2020, a cada minuto, uma área maior do que dois campos de futebol foi desmatada ilegalmente. “Mais de mil árvores derrubadas a cada minuto! Isso mesmo: mil árvores por minuto!”, alertam. Para as missionárias, se a agenda de destruição for em frente, todo o delicado tecido de vida guardada pela floresta pode se desfazer para sempre. “A Amazônia não guarda apenas um tesouro; ela guarda nosso futuro comum. Sem ela, o planeta não é capaz de sustentar a vida”, afirmam. A ameaça, segundo as SSpS, não é apenas à Amazônia e ao povo brasileiro. “Este é um golpe fatal na esperança de um futuro possível para toda a humanidade, uma batalha que não podemos perder.” Assim, elas convocam para uma mobilização mundial em defesa da natureza e dos povos amazônicos. “Para cada voz de brasileiro ou brasileira que se erguer, milhares de outras se somarão até nos transformarmos em uma ampla rede de proteção ao redor da Amazônia e seus povos. Estamos aqui. E somos todos um.”Para incentivar a mobilização, as missionárias prepararam um vídeo. A produção apresenta depoimentos de pessoas que acompanham de perto a vida de um dos biomas mais importantes do mundo. Assista! #TodosPelaAmazônia Veja também Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comumhttps://ssps.org.br/irmas-renovam-compromisso-de-proteger-a-casa-comum
Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.
Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
Clima e crianças: pistas para mudar o mundo!

Para começar, uma confissão: ando um pouco sem esperança. Mas sempre que isso acontece, minha intuição me leva a aproximar-me das crianças. Então, é exatamente isso o que farei… Se você, adulto, está lendo este texto, compartilhe e traduza esta mensagem em forma de recado para alguma criança. Primeiramente, um pedido público de desculpas: crianças, nós, adultos, falhamos! Sim! Podem acreditar que adultos não são infalíveis, por isso é hora de dar as mãos e ouvidos à infância e contar um pouco sobre essa confusão e contradição que é falar das mudanças climáticas que ameaçam a vida no planeta. Nós, adultos, que fazemos parte dos governos, das instituições privadas e da sociedade civil como um todo, estamos perdendo as chances de buscar soluções conjuntas e globais para minimizar os efeitos das mudanças climáticas. Nossa Casa Comum está pedindo socorro, e sabemos: o que acontecer à natureza que nos foi confiada estará acontecendo a nós mesmos. Nossa Casa Comum está se esgotando pela forma com a qual a ação humana vem interferindo na natureza. Fato é que mudanças climáticas podem ocorrer por alterações na radiação solar e dos movimentos orbitais da Terra, mas o grande problema é quando ela é consequência das atividades humanas, e é sobre isso que vamos conversar. De forma gradual, começamos a perceber, em nosso cotidiano, os efeitos das mudanças climáticas com o aquecimento global, com a subida do nível das águas do mar, o derretimento acelerado de gelo nos polos, a incidência radical de chuvas e seca, a água se tornando mais escassa, perda da biodiversidade, a desertificação, entre outros. Inspirada nas referências de conteúdo aqui citadas, podemos dizer que nosso planeta é protegido por uma camada de gases que ajuda a manter e viabilizar a vida na Terra. Didaticamente apropriando desses conteúdos, o que acontece é que a “radiação solar que chega a nosso planeta é refletida e retorna diretamente para o espaço, outra parte é absorvida pelos oceanos e pela superfície terrestre, e uma parte é retida por essa camada de gases que causa o chamado efeito estufa. O problema não é o fenômeno natural, mas o agravamento dele. Como muitas atividades humanas emitem uma grande quantidade de gases formadores do efeito estufa, essa camada tem ficado cada vez mais espessa, retendo mais calor na Terra, aumentando a temperatura da atmosfera terrestre e dos oceanos e ocasionando o aquecimento global”. E então, crianças, depois dessa introdução, chegamos ao que interessa. Enquanto esperamos e apostamos que vocês vão crescer e vão nos ajudar a consolidar saídas e alternativas viáveis e criativas, já temos vários caminhos globais, árduos e adultos para fazer “diminuir o desmatamento, investir no reflorestamento, investir em energias renováveis não convencionais (solar, eólica e biomassa, por exemplo), investir na produção e uso de biocombustíveis, reduzir o consumo, reduzir, reaproveitar e reciclar materiais, investir em tecnologia de baixo carbono…”. Enquanto vocês estão crescendo, também temos vários caminhos que dependem de gestos conscientes e opções cotidianas que já podem assumir a liderança e fazer a diferença: pratiquem o consumo consciente e sejam cuidadosas com o que compram e desejam comprar; sempre que puder, usem transporte coletivo; façam a coleta seletiva e aprenda a reutilizar e reaproveitar materiais; economizem energia elétrica e sejam cuidadosas e econômicas no uso da água em geral e na hora do banho; prefira adotar animais, não os comprem; plantem uma horta em família, nem que seja em vasos, e adote o consumo de produtos orgânicos; andem a pé e de bicicleta sempre que puderem; diminuam o consumo de carne e alimente-se com qualidade… Eu poderia seguir com essa lista interminável, mas já vou concluir. Estudem… Estudem muito para que as saídas brotem nas mentes criativas e inquietas que são vocês. E amem, amem muito a diversidade e o mistério da vida na Terra. Referências https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/ https://www.biologianet.com/ecologia/mudancas-climaticas.htm Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Semana Laudato Si’ 2020

O ano de 2020 marca o quinto aniversário da Laudato Si’. A encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a Casa Comum foi assinada em 24 de maio de 2015. Mais que um documento eclesial, a encíclica é uma proposta de um projeto de vida para a humanidade e para o nosso planeta. A Laudato si’ foi acolhida como um documento profundo e cheio de beleza, e impulsionou pessoas ao redor do mundo a refletirem mais profundamente sobre o Criador e a criação. Sua visão da ecologia integral, que vê as conexões entre como tratamos Deus, a natureza e uns aos outros, oferece-nos verdades simples, porém profundas, sobre os laços que nos unem. Certamente esse documento é uma inspiração durante momentos de dificuldade, como a crise que atravessamos atualmente. Ele nos encoraja a refletir sobre os valores que compartilhamos e a criar um futuro mais justo e sustentável. Em uma grande campanha, o Papa convida todas as pessoas a participar da Semana Laudato Si’, de 16 a 24 de maio, que tem como tema “Tudo está interligado”. Assista, a seguir, ao vídeo do Papa Francisco. Para mais informações e materiais, acesse o site: Semana Laudato Si’ 2020 Vídeo do Papa Francisco:
Eis o tempo de conversão!

Instituições importantes emitem um grande sinal de alerta. É preciso converter-nos agora para garantir a vida do planeta. Há um mês, o Papa Francisco presidia a última sessão do Sínodo da Amazônia, na qual foi aprovado o documento final dessa grande reunião. No texto, a palavra que mais se destaca é “conversão”, tanto que o termo aparece nos títulos de todos os capítulos, indicando claramente que a humanidade precisa mudar de rumo. O alerta não vem apenas da Igreja, mas é o que também aponta o novo relatório lançado na terça-feira, 26 de novembro, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O clima é de urgência! De acordo com a ONU, se não houver uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa de 7% ao ano entre 2020 e 2030, as temperaturas sofrerão um aumento de 3,2º C, o que acarretará impactos climáticos mais destrutivos. A conclusão do relatório mostra que, ainda que todas as metas do Acordo de Paris sejam implantadas, as temperaturas continuarão a subir. Para permanecer abaixo de 2º C ou 1,5º C (que é a meta do Acordo de Paris), os objetivos precisam ser cinco vezes mais ambiciosos na próxima década. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas diz que, se a temperatura for além de 1,5º C, as ondas de calor e as tempestades serão mais frequentes e intensas. Quando a Igreja afirma que temos uma Casa Comum, significa também sustentar que somos todos corresponsáveis por ela. O futuro desse grande lar, e consequentemente o nosso, depende da ação de cada ser humano. Que nesse Advento, tempo de conversão, possamos repensar nossos estilos de vida e nos comprometer com a vida do planeta. Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade
Laudato si’: cuidando de nossa Casa Comum

Neste mês, a Encíclica Laudato si’ (Louvado sejas, meu Senhor) completou quatro anos de existência. Desde que foi lançada, veio ao mundo como uma grande primavera. Trouxe um florescimento, o aflorar do diálogo com todas as sociedades e religiões. O Papa Francisco lança ao mundo um grande apelo: cuidemos da Casa Comum, cuidemos do planeta. A Laudato si’ expôs, de forma clara, como devemos nos preocupar com a Terra. A novidade está em sua formulação: a Casa Comum. Não foi apenas uma preocupação unilateral em torno do meio ambiente, do meio onde se vive. Mas avançou para algo maior e nos fez pensar que o planeta é nossa casa. E sendo a nossa casa, deve ser cuidada, com afeto, esmero e responsabilidade. Uma obrigação de todos e todas que vivem dentro dela. Para tanto, apontou que, para organizarmos a casa, o planeta, precisamos ter em conta alguns pontos: a pobreza e a fragilidade do planeta, a interligação de tudo no mundo, as formas de poder que derivam das novas tecnologias, uma economia e um progresso não predatórios, o sentido humano da ecologia, a busca por diálogos sinceros entre os povos, a responsabilidade e local da política internacional, a cultura do descarte e um novo estilo de vida. Essa organização da casa comum não é fácil. Depende de cada um de nós, desde os pequenos gestos aos grandes feitos, tanto das Igrejas quanto das sociedades. Desses pontos destacam-se três. Primeiro, sobre a economia e progresso. O Papa Francisco, ao longo dos anos, nos adverte o quanto a ganância por riquezas vem gerando, cada vez mais, a pobreza, a miséria e a morte. Se existe a pobreza é porque não ocorre a distribuição justa dos bens e produtos de cada país. A economia está centrada nas mãos de poucos. Outro ponto é a questão política internacional e local que vem demonstrando o quanto desumaniza os povos. Vemos, na América Central, famílias inteiras em grande deslocamento, em busca de uma nova vida. Há alguns dias, presenciamos o quanto a vida vale pouco: um pai e sua filha, ambos da Guatemala, morreram afogados na travessia para os Estados Unidos. Assistimos a tudo isso e a outros casos mundo afora e nos perguntamos para onde vai o sentido da política humanitária do mundo. Para onde caminha o humano nestes tempos? O terceiro ponto nos mostra como tudo nos interliga dentro da Casa Comum. Na Laudato si’, o Papa Francisco nos mobiliza a pensar em outro mundo possível, de amor, solidariedade e partilha, com uma economia que beneficie a todos e todas, e um progresso que nos leve a um futuro de paz e comunhão. Hoje, no Brasil e em muitos países latino-americanos, presenciamos muitos gestos que nos fazem mais humanos e percebemos o quanto estamos interligados. O maior deles, para nós, cristãos e cristãs, é o Sínodo da Amazônia, que ocorrerá de 6 a 27 de outubro, em Roma. O Sínodo da chamada Pan-Amazônia, que compõe a Bacia Amazônica, toda uma área da selva onde estão muitas nações indígenas, quilombolas, reserva nativo-biológica de plantas e sementes que devem ser preservadas, atualmente palco de disputas internacionais por suas riquezas. Além disso, para nós, cristãos e cristãs católicas, de modo especial, traz a triste questão da falta do encontro de muitos cristãos e cristãs com a Eucaristia. Há povos que não recebem o Corpo de Cristo por falta de sacerdotes. Um assunto que nos provoca a refletir sobre o futuro das vocações religiosas no Brasil. Além desse assunto, outros temas serão discutidos no Sínodo. Oremos por nossos bispos, para que sejam iluminados pela luz do Espírito Santo. Que possamos, juntos, cuidar de nossa Casa Comum. O que apresentamos aqui, no plano de anúncio do papado de Francisco, é anúncio de vida e salvação, motivações nascida a partir da Doutrina Social da Igreja. Por isso a Igreja propõe ao mundo um ideal de uma civilização do amor. O amor social que é a chave para um desenvolvimento autêntico entre os povos. Porque tudo está interligado nesta Casa Comum. Nilda Assis Cândido, mestra em Ciências da Religião (UMESP), coordenadora de curso (CESEEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), professora de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.