Brumadinho: fazer memória para defender a vida

A memória é um primeiro passo de ressurreição, de esperança na vida que não morre. “Não vamos esquecer!”, repetiu-se muitas vezes no ato de denúncia, recordando os cinco anos do crime de Brumadinho-MG. O Pe. Dário Bossi partilha sobre indignação, homenagens, mentiras e esperanças que envolvem uma das maiores tragédias de nossa história.

Povo Pataxó Hã-hã-hãe: novo território, novos desafios

Em janeiro de 2019, um grupo de indígenas do povo Pataxó Hã-hã-hãe foi diretamente atingido pelo rompimento da barragem da mineradora Vale, ocorrido no Município de Brumadinho, Estado de Minas Gerais. O rio Paraopeba do qual dependiam para a alimentação, para a higiene e para seus ritos, tornou-se contaminado pelos rejeitos da mineradora. Com o surgimento de doenças e diante da impossibilidade de continuar na área, os indígenas foram obrigados a sair de seu território e ir para a periferia de Belo Horizonte. Vivendo em condições de vulnerabilidade, insegurança e precariedade, ao menos 23 pessoas foram contaminadas pela covid-19. Com a negligência tanto do Estado quanto da mineradora Vale, responsável pelo crime ambiental, os indígenas passaram a depender frequentemente de doações para a sobrevivência. Em junho de 2021, o alento veio de um grupo de japoneses. Em uma ação histórica no Brasil e na contramão das investidas do governo atual de retirada de terras dos indígenas, membros da Associação Mineira de Cultura Nipo-Brasileira doaram 70% de um território de 36 hectares, pertencente à entidade, em São Joaquim de Bicas, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os outros 30% foram negociados com os indígenas, sendo que o pagamento será feito com a futura indenização da mineradora Vale ao grupo.  A ocupação da então “Mata do Japonês” ocorreu imediatamente após o acordo. Cerca de 20 famílias foram para o território, que passou a ser denominado “Aldeia Katurãma”. Porém um novo desafio eclodiu. Desde 2010, a área vem sendo invadida por grileiros. Esses têm se recusado deixar o local. Mesmo se tratando de uma reserva de preservação permanente, os grileiros vêm provocando queimadas, derrubando árvores e ameaçando a segurança do grupo.  O Estado tem se mostrado ausente. A Polícia Federal, por exemplo, até o momento, não está fazendo a segurança dos indígenas, deixando suas vidas em situação de risco. Direitos fundamentais, como o acesso à água e à luz, também não estão assegurados.  Por outro lado, os indígenas têm buscado revitalizar a área, cuidando das árvores existentes e fazendo o plantio de outras nos locais devastados. Vários atores e coletivos da sociedade civil também têm sido solidários com os indígenas, ajudando-os a suprir as necessidades básicas, construir moradias e lutar por seus direitos.  Você também pode fazer parte da história dos pataxós hã-hã-hães e deixar que a história deles faça parte de sua vida. Em primeiro lugar, busque conhecê-los melhor. Se mora distante de São Joaquim de Bicas e não pode encontrá-los pessoalmente, na internet você poderá encontrar reportagens e artigos sobre essa comunidade. Em segundo lugar, divulgue nas redes sociais a atual situação deles. O mundo precisa saber que os povos originários continuam sendo tratados com descaso no Brasil. Em terceiro lugar, os indígenas estão precisando de ajuda para construir a nova aldeia. No momento, estão recebendo doações para a construir uma escola. Caso queira contribuir financeiramente, deixamos o número do pix da Associação Indígena do Povo Katurãma: 42 457 801 0001 20 Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail stelamartins.to@gmail.com. A causa indígena é de todos nós! Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.

Crime ambiental de Brumadinho completa um ano

Exatamente às 12h29min de 25 de janeiro de 2019, ocorria um dos maiores crimes ambientais da história. Nesse horário, rompeu-se a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, no Município de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. Em número oficiais, a tragédia vitimou 270 pessoas, sendo que, até o dia 31 de dezembro último, 13 destas permaneciam desaparecidas. Isso sem contar o incalculável dano ambiental, o que refletirá, por muito tempo, até em áreas bem distantes da barragem. A palavra “crime”, usada por organismos estatais, civis e mesmo a Igreja, não é um exagero. A Companhia Vale, responsável pelo empreendimento, parece não ter se preocupado em proteger a vida dos próprios trabalhadores e das pessoas que viviam no caminho da lama. Conforme investigações realizadas pelo Poder Público e outros profissionais de diversas áreas, a Vale sabia dos riscos do colapso da barragem e até mesmo já tinha na ponta do lápis o número de mortes que ela poderia causar: 214, segundo a Polícia Federal, que teve acesso aos relatórios. Tudo em números frios, tal como manda a idolatria do insaciável deus-mercado. Um relatório da PF, divulgado no fim de novembro último, mostra que a empresa TÜV SÜD não poderia ter emitido, em setembro de 2018, um aval de segurança da barragem de rejeitos de minério de ferro. Se o laudo da empresa tivesse dado um quadro real dos riscos, as autoridades poderiam ter se preparado melhor para minimizar os danos de uma possível tragédia. O Estado de Minas Gerais vem registrando esse tipo de crime desde que começou sua atividade minerária, no início do século XVIII. Um caso icônico ocorreu em 1884. Numa mina de ouro de Itabira da Serra, atual Itabirito, também nos arredores da capital, mais de cem trabalhadores ficaram presos dentro de uma galeria, após o desabamento de uma rocha. Como não havia tecnologia para abrir uma passagem para resgatá-los, a “solução” foi inundar o espaço, sacrificando todos os que gemiam no fundo da terra. As lições não foram aprendidas, em nome dos “benefícios” que a mineração leva à economia do Estado. Decisão inédita A Companhia também é acusada de outro crime, acontecido na tarde de 5 de novembro de 2015, em Mariana-MG. Dezenove pessoas morreram, e a bacia do Rio Doce, que passa por Minas Gerais e Espírito Santo foi contaminada. A Vale, juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton, era responsável pela Samarco, que geria a Barragem do Fundão, zona rural da cidade história. A Justiça Federal decidiu não responsabilizar pelo crime os executivos. Se o julgamento não for revertido, ninguém responderá pelas mortes. Mas o caso foi denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Em dezembro passado, o órgão considerou o crime ambiental como sendo também contra a humanidade. Essa é a primeira decisão desse tipo no Brasil e pode servir de base para representações contra o País em tribunais internacionais. Feridas que não cicatrizam Não há dúvidas de que as centenas de famílias das vítimas do crime ocorrido em Brumadinho precisarão ter muita força para, pelo menos, aliviar a dor das perdas de seus entes queridos, de suas histórias. Houve muitos outros danos, além dos humanos. Hortas, granjas e pastos às margens dos cursos d’água atingidos foram danificados. O comércio sofreu um forte golpe e nem mesmo o simpático Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico de Inhotim, lugar único no mundo, conseguiu devolver a vida aos eixos. A pacata Brumadinho, com cerca de 40 mil habitantes, já não é mais conhecida por seu museu, pelas festas, pelas construções históricas nem pelas alturas da serra do Rola Moça, local obrigatório para os adeptos do voo livre. Depois da tragédia, quando se fala na cidade, logo vem à mente as cenas da lama avermelhada e do esforço dos bombeiros para procurar as vítimas. A operação de resgate, aliás, prossegue e já é considerada a maior da história do Brasil. Deus ao lado dos sofredores Passado um ano, falta muito para que as famílias tenham acesso a indenizações devidas e justas. Aos poucos, os holofotes começam a se apagar. É importante que os missionários e outros profissionais que visitaram as famílias nos primeiros dias, rezando com elas e ouvindo-as, não deixem esfriar o ânimo. Também é essencial continuar acompanhando as investigações e exigindo das autoridades a punição aos responsáveis pelo crime, calculado e frio crime. O Deus, que é justo e está ao lado dos sofredores, console aquele povo, suas famílias, seus trabalhadores. De nossa parte, não permitamos que as trevas vençam as luzes. Brumadinho precisa voltar a ser o lugar da vida, da arte, das festas e de voos livres, bem livres. Sementes de esperança Luiz Felipe Ricobom de Sousa, aluno do 9º ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, partilha um poema. A reflexão é fruto da experiência vivida na “Missão sem Fronteiras”, realizada em junho de 2019. Do alto daquele monte,vejo casas, ruas, praças, a igreja,o menino indo estudar.Do alto daquele monte,mineradores indo almoçar. De repente, a lama cobriu as histórias daquela gente.De repente, nada estava mais lá.Quanto valem as vidas ceifadas?Quanto vale o preço da gente?E o risco em toda Minas ainda é iminente. Flor da esperança brota em meio à lama.Brota no suor do bombeiro,na atitude voluntária que canta,nas cordas do violeiro. Todos juntos, no mesmo ideal,mãos dadas contra a impunidade,a barragem vai virar ponte,e o sonho de justiçaé um sonho de realidade. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.

Rompendo fronteiras para construir a justiça e o bem comum

O fim de semana, de 28 a 30 de junho, foi marcado pelo 2º Encontro dos Alunos das Escolas da Rede de Educação SSpS – a “Missão sem Fronteiras”, que ajudou a juventude a pensar como o Evangelho e o trabalho missionário podem transformar a vida de tanta gente que se encontra à margem da sociedade. Os alunos viveram muitos momentos significativos, como os de reflexão e partilha de vida, além de assumirem um novo compromisso missionário. A missão reuniu jovens e educadores missionários de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e São Paulo. A proposta foi ultrapassar fronteiras e construir elos.  Proteção, amor ao próximo, solidariedade e doação foram as palavras inspiradoras que moveram e deram vida ao encontro realizado no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte. A escola recebeu os alunos com música, reflexão e partilha. Foi uma oportunidade de perceber que o caráter da missão é mais amplo do que se imagina. O coordenador da Dimensão Missionária, Agostinho Travençolo Junior, foi uma das pessoas contagiadas pela experiência. “Foi impressionante ver o envolvimento e o compromisso de cada jovem participante, e tanta gente acreditando nas bases como fermento de transformação das realidades mais sofridas”, partilha.  Outro destaque foi a presença da coordenadora do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Simone Fortunato Nunes, que ajudou o grupo a perceber que a missão somente pode dar-se quando as pessoas saem do lugar onde estão para irem ao encontro do outro.  O passo mais marcante vivido pelos alunos durante a experiência foi a visita à Paróquia de São Sebastião, no Município de Brumadinho, um lugar que oferece apoio, orientação e doações às vítimas da tragédia provocada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Vale. Os testemunhos e a troca de experiências transmitiram a mensagem de que todos são discípulos missionários, testemunhando a esperança. O grupo de alunos participou de diversas ações voluntárias. Também ouviu relatos de moradores locais, de indígenas e quilombolas que vivem em locais próximos de onde o crime ambiental aconteceu. O Projeto “Missão sem Fronteiras” foi além de um fim de semana. Tocou o coração dos jovens e contagiou a vontade de continuar o compromisso missionário. Os participantes retornaram para suas cidades com o coração aberto e esperançoso, na certeza de que viveram momentos que ficarão guardados para sempre como inspiração para suas novas ações. Veja as fotos e assista ao relato de alguns jovens. Roberta Pimentel Aouila, professora de Língua Portuguesa do Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG; e Agostinho Travençolo Junior, coordenador do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Veja os principais momentos da Missão Sem Fronteiras Assista ao testemunho dos jovens

Semana Santa no Córrego do Feijão

O Córrego do Feijão é um bairro rural do Município de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. No censo demográfico de 2010, foram contados ali 415 residentes. Com o rompimento da barragem da Mina do Feijão, essa comunidade foi a primeira a ser atingida pela lama de rejeitos. Desde então a comunidade passou a viver um verdadeiro pesadelo: gritos sufocados pela lama, perdas de pessoas queridas, histórias de vida destruídas, o desespero diante de tanta dor, os incontáveis dramas pessoais e familiares. É impossível permanecer indiferente diante de um crime dessa magnitude. É urgente contribuir, de alguma forma, para se ir aos poucos tecendo, reconstruindo, preparando a vitória da vida sobre a morte, verdadeiro sentido da Ressurreição, reconstrução e renascimento, retirar da lama e trazer novamente para primeiro plano a dignidade das pessoas: “Perdi meu pai, um primo, o direito de ir e vir, a dignidade, a paz”. Foi certamente com esses objetivos que a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB/Belo Horizonte) organizou, para a Semana Santa, uma missão, priorizando os bairros mais atingidos pelo rompimento da barragem da Companhia Vale. Por meio das irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), solicitei e fui integrada ao grupo para o trabalho específico com os florais de Bach, com as terapeutas florais, Ir. Ana Elídia Neves e Francisca Romana da Costa. Os florais são reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma terapia complementar, eficaz, no reequilíbrio do estado emocional, restaurando a harmonia e o bem-estar. Meu trabalho foi o preparo dos florais indicados, adequados ao estado emocional de cada pessoa. É um momento que exige muita concentração e interiorização, para facilitar o contato com o Senhor da Vida, pedindo para aquela pessoa novas forças, esperança, assim como o desejo de uma nova postura diante do crime que se abateu sobre ela. Assim, pela divulgação que naturalmente foi acontecendo, as pessoas foram chegando, trazendo outras, e outras, e outras, o que nos proporcionou realizar um trabalho intenso, atingindo um número de pessoas acima do previsto para o tempo de que dispúnhamos. Também participamos das celebrações da Semana Santa, tradição na pequena comunidade. Significativo foi o Sábado Santo, com o “plantio” de grãos de feijão em um vaso devidamente preparado, representando cada pessoa ali presente, acrescentando quem mais quisessem “plantar”, simbolizando que a comunidade do Córrego do Feijão, atingida pela lama que soterrou pessoas queridas, sonhos, esperanças, histórias, agora, pela força da Ressurreição de Jesus, também ressurgirá, e, unidos, construirão uma nova vida, abertos ao belo que o novo também traz. Agradeço imensamente às SSpS pela oportunidade que me foi dada, de poder acrescentar outras “vidas à minha história, novas lições que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa”, porque “sou feita de retalhos, de pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados… Haverá sempre um retalho novo para ser costurado” (“Sou feita de retalhos”, de Cris Pizziment). Ana Lúcia Florêncio é educadora e missionária leiga A morte e a ressurreição que vêm da lama Três meses depois, o verde começa a cobrir a lama de rejeitos provenientes da barragem e que enterrou pelo menos 270 pessoas. Destas, 233 já foram identificadas e 37 ainda estão sendo procuradas pelos bombeiros. Mas, para os moradores que perderam familiares, vizinhos e tantos amigos, a dor ainda está longe de se atenuar. Várias famílias ainda buscam pelo corpo desaparecido, para darem o adeus final. Para todos eles, a realidade é uma só: a vida nunca mais será a mesma… Uns pensam em sair de lá para não conviver com as lembranças, outros ainda não conseguiram assimilar que seus entes queridos jamais voltarão… Alguns descrevem os gritos dos trabalhadores que não conseguiam escapar da lama… São histórias cheias de terror pelo acontecido e de insegurança pelo que virá depois. Nesse contexto, nossa equipe missionária, coordenada pela CRB de Belo Horizonte, acompanhou as celebrações do Tríduo Pascal na comunidade de Córrego do Feijão. Como o padre estava se desdobrando para atender às 14 comunidades da paróquia, celebramos de maneira simples e informal, para que a comunidade pudesse partilhar a vida e se apoiar na palavra de Deus. Na Quinta-Feira Santa, refletimos sobre o serviço prestado com amor, que pode dar um novo sentido a quem sofre. Na Sexta-Feira da Paixão, caminhamos pelas ruas do bairro, rezando a paixão de Cristo e a paixão deles mesmos… A lama vai aos poucos sendo coberta pelo verde que insiste em crescer, mas a contaminação persiste… E o rio Paraopeba? Quando suas águas poderão voltar à vida? Assim como foi difícil para os discípulos de Jesus acreditar na ressurreição, também o é para os moradores de Córrego do Feijão. Por isso, foi escolhido o símbolo da semente. Ela parece morta, mas a vida está escondida dentro dela, esperando uma chance para se manifestar. Assim, durante a Vigília Pascal, a comunidade plantou grãos de feijão. O compromisso de cuidar para as sementes poderem nascer e crescer é também o de cuidar uns dos outros, na certeza de que, apesar de tudo, a vida continua e é preciso redescobrir a alegria de viver e de amar. Contrastando com esse cenário, o Domingo Pascal foi de muita solenidade e festa. A Vale reformou a Igreja de Nossa Senhora das Dores e a casa paroquial, que haviam sido transformadas em campo de operação de resgate, e lhes deu um novo visual, com gramados e jardim. Uma pequena prova de boa vontade que não apaga a omissão e a irresponsabilidade diante de uma tragédia criminosa que poderia ter sido evitada. Aos moradores do Córrego do Feijão deixamos nossa prece, nosso carinho e a esperança de que a vida é mais forte que a morte. As sementes da ressureição, mais cedo ou mais tarde, desabrocharão. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional, coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) e terapeuta floral. ____

Solidariedade da Igreja a Brumadinho

Duas semanas depois do rompimento da barragem em Brumadinho-MG, a situação do local e das famílias das vítimas é desoladora. A Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio da Paróquia de São Sebastião, em Brumadinho, está mobilizada para visitar as famílias e dar todo o apoio pastoral possível. Os dados oficiais registram, até o momento, 150 mortos e 182 desaparecidos, mas existe a suspeita de que há muito mais. Uma de nossas missionárias, a irmã Francisca Romana da Costa, da Comunidade Madre Maria, em Belo Horizonte-MG, esteve com os agentes de pastoral e outras religiosas visitando as famílias. Ela dá seu depoimento sobre a situação que encontrou. O que podemos fazer para que isso não aconteça mais? “Ao me aproximar da cidade, já sentia algo que não dá para explicar. Um clima de desolação, de luto… Até a natureza demostrava algo estranho, como se, dentro da gente, a destruição tomasse conta. Não dá para explicar… Ao chegar à Paróquia São Sebastião, de onde todos partem para as visitas, percebi que, apesar do clima de muita dor e desolação, a paróquia está bem organizada, e os agentes de pastorais e os jovens estão incansavelmente presentes a cada dia. Eles percorrem a cidade e visitam os afetados pela barragem. O espírito de solidariedade e de compaixão é forte em todos os lados. Na Igreja, colocaram o Santíssimo exposto, oferecendo um momento forte de oração no qual os afetados encontram a força necessária para prosseguir. Nos velórios, os agentes de pastoral dão toda a assistência, com as orações das exéquias, consolando e dando forças às famílias neste momento cruel. Visitei algumas famílias. Estas continuamente indagavam o porquê de tudo isso. Falaram que sempre comentavam sobre o perigo da barragem. Dessas famílias que visitei, algumas já sepultaram seus entes queridos, outras não. As que não encontraram os corpos estão mais desesperadas e sofridas pela tragédia. Elas querem e esperam pelo corpo. O tempo está passando e vai ficando cada vez mais difícil. As estatísticas que divulgam não correspondem ao que é, pois são muito mais desaparecidos. É realmente uma tragédia enorme, que destruiu a vida humana de muitos e toda a natureza. Sabemos que o rio Paraopeba já não tem vida, e vai levando adiante mais e mais destruição. É devastador! Muito se fala, mas o que se faz é pouco. É impossível conter as consequências desses rejeitos, que já estão chegando ao Rio São Francisco. Os nossos trabalhos de missão e como fazemos as visitas são sempre enriquecedores em nossa vida. Mas uma tragédia como esta mexe com tudo em nós. Ver a cidade toda num clima de tanta tristeza choca… Comove o coração e dá uma sensação de impotência diante de tudo isso. Sabemos que a tragédia poderia ser evitada. Sabemos que as medidas de segurança e de fiscalização não foram tomadas… Pela ganância de alguns, muitas vidas se vão! O que podemos fazer para que isso não aconteça mais? Brumadinho agora está sendo em parte assistida, mas o pior ainda está por vir. As consequências de saúde e os traumas psíquicos desta tragédia vão aparecer mais adiante. O efeito devastador destes rejeitos de minério vão prosseguir por quilômetros, destruindo a vida por longo tempo.” Irmã Francisca Romana da Costa, SSpS – Enfermeira, estudou Teologia Pastoral, pós-graduanda em Direção Espiritual, atua como agente de pastoral e animadora vocacional.

 Choramos com a Mãe Terra lágrimas de lama e sangue.  Não à impunidade! 

Publicamos este artigo de Iglesias y Minería (Igrejas e Mineração), pois reflete o pensamento das missionárias SSpS sobre a tragédia de Brumadinho-MG e traz informações que ajudam a entender por que esse desastre poderia ter sido evitadoe não foi. A rede Igrejas e Mineração chora junto às vítimas do crime ambiental de Brumadinho, Minas Gerais (Brasil).  Estamos escrevendo hoje desde esta comunidade violada, que bem conhecemos e voltamos a visitar, após termos celebrado com ela várias vezes, na caminhada, a vida e a resistência frente à expansão da mineração.  Escrevemos também desde as muitas comunidades latino-americanas atingidas pela violência arrogante do extrativismo, hoje abraçadas silenciosamente à pequena Brumadinho, em lágrimas.  Estamos solidários às famílias das vítimas e às comunidades de fé, que terão o árduo desafio de reconstruir a esperança. Unimo-nos também à Arquidiocese de Belo Horizonte, que, com as palavras do Evangelho, definiu a tragédia como “abominação da desolação”, referindo-se aos “absurdos nascidos das ganâncias e descasos com o outro, com a verdade e com o bem de todos”.  Seguimos acompanhando e assessorando as igrejas empenhadas nos territórios feridos pela mineração e em todos os conflitos abertos entre empresas extrativas e comunidades (só no Brasil há mais de 70 Dioceses onde foram mapeados conflitos).  A impunidade consolida o crime  A empresa Vale S.A., junto à BHP Billiton, é responsável por 19 mortes e pela contaminação da bacia do Rio Doce, em 05 de novembro de 2015. A repetição do mesmo dano, três anos depois, com um rastro de mortes e destruição bem mais grave, é a confirmação de sua incapacidade de gestão e prevenção dos danos, de descaso e de conduta criminal.  Esta responsabilidade envolve também o Estado, que licencia os projetos extrativos e deveria monitorá-los para garantir a segurança e a vida digna das comunidades e do meio ambiente.  A responsabilidade do Estado é dupla, porque a impunidade e a falta de reparações completas e suficientes para as vítimas do crime de Mariana foi uma das condições principais que permitiram o novo crime de Brumadinho.  Portas giratórias  De braços dados, o capital das mineradoras e o poder político facilitam a instalação ou ampliação de grandes projetos extrativos, minimizando as condicionantes e as regras de licenciamento dos mesmos. A própria mina Córrego do Feijão, cuja barragem de rejeitos estourou, obteve em dezembro de 2018 licença ambiental para expansão de 88% de suas atividades. No Conselho de Políticas Ambientais do Estado de Minas, só o Fórum Nacional da Sociedade Civil na Gestão de Bacias Hidrográficas (Fonasc) votou contra esta expansão, denunciando mecanismos “insanos” para reduzir as exigências no licenciamento de empreendimentos de mineração de grande porte.  Não se podem denominar “acidentes ambientais” os desastres provocados por condutas irresponsáveis das empresas aliadas ao poder público. iglesiasymineria.org  Sociedade civil organizada mas não escutada  Desde 2011 a população de Brumadinho e da região manifesta-se de forma organizada contra a mina, seus impactos e ameaças. O FONASC, em dezembro de 2018, escreveu comunicação oficial ao Secretário Estadual de Meio Ambiente, pedindo a suspensão do licenciamento da mina Córrego do Feijão. A Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale denunciou na Assembleia Geral dos Acionistas da Vale, em abril de 2018, “o perigo do reiterado processo de redução de custos e despesas em suas operações”, fazendo explicita menção a diversas barragens de rejeitos.  Os responsáveis por estes crimes não podem alegar ou justificar desconhecimento dos riscos e ameaças. Ao contrário, em nome da ilusão do “progresso” e do lucro para muito poucos, há desqualificação sistemática das vozes dissonantes, dos que pedem cautela e cuidado, dos que identificam os riscos e exigem processos de licenciamento detalhados e escuta da população ameaçada, afetada ou atingida pelos projetos.  Teimosamente, fazemos ressoar as palavras de Papa Francisco na encíclica Laudato Si’: “no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).  Flexibilizar até quebrar  O Presidente recém eleito no Brasil, atendendo às pressões de quem financiou sua campanha, manifestou o plano de flexibilizar ao máximo o controle e licenciamento ambiental. Criticou a suposta “indústria da multa ambiental”; seu Governo esvaziou de atribuições a pasta do Meio Ambiente, suspendeu contratos com ONGs empenhadas em defesa do meio ambiente, extinguiu secretarias que trabalhavam para políticas públicas contra o aquecimento global.  Também os Governos anteriores facilitaram a expansão desregrada da mineração no País, promovendo o Plano Nacional de Mineração e reformulando, por decreto, o Marco Legal da Mineração.  Os acontecimentos recentes demonstram, violentamente, que estas políticas são um suicídio coletivo e uma ameaça à vida das futuras gerações.  Este modelo de crescimento é insustentável e letal; não se pode chantagear quem precisa de emprego para sobreviver em regiões controladas pela mineração, sem garantir ao mesmo tempo segurança, saúde e bem-estar social. Os problemas não se resolvem “apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos”. “Não é possível conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meio-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso” (LS 190, 194).  Falsos diálogos  Frequentemente, as empresas e os governos apelam à mediação dos conflitos com as comunidades através do “diálogo”. Buscam, inclusive, a intermediação das igrejas, para oferecer a estes processos maior credibilidade. iglesiasymineria.org  Também institucionalmente tem-se investido em mediações extra-judiciais e termos de ajustamentos de conduta para tornar mais efetiva e rápida a reparação de danos e violações ambientais.  A falta de execução das mitigações e reparações, a leniência em prevenir novos desastres e a repetição de práticas irresponsáveis e criminosas confirmam: este tipo de de proposta não é um diálogo verdadeiro. É uma estratégia das empresas para seduzir a opinião pública, garantindo uma espécie de licença social para poluir, reduzir a resistência popular e iludir que o grande capital pode se converter aos valores da sustentabilidade e

Nota de Solidariedade e Indignação

Nós, missionárias servas do Espírito Santo (Província Brasil Norte), manifestamos nossa solidariedade às famílias das vítimas e aos moradores de Brumadinho-MG que sofrem em consequência da tragédia ocorrida no dia 25 de janeiro, com o rompimento da barragem da mineradora Vale, na Mina Córrego do Feijão. A todo tempo, acompanhamos pelos noticiários a busca por sobreviventes. Também pedimos a Deus que ajude no resgate dos que ainda se encontram com vida e que dê força e coragem a todos os que perderam seus entes queridos e suas casas. Lamentamos, com profunda indignação, que outra tragédia de tão grande proporção tenha ocorrido apenas três anos depois do que aconteceu em Mariana. Como se trata de uma reincidência, é ainda maior a responsabilidade da mineradora e das autoridades, que não tomaram as providências necessárias para evitar que isso acontecesse. Sabemos que, no Brasil, há um considerável número de grandes barragens de rejeitos minerários, sendo que, apenas em Minas Gerais, são 450. Isso significa um grande risco para a população e o meio ambiente, e, se medidas de fiscalização e conservação dessas barragens não forem feitas, teremos, no futuro, muitas outras tragédias. Isso é inadmissível! Assim, repudiamos o descaso dos responsáveis e do governo para a questão das barragens e das vidas humanas que estão em risco em caso de acidentes criminosos, como os de Brumadinho e Mariana, e apelamos a todas as pessoas de boa vontade para: • estarmos atentos às providências que deverão ser tomadas em relação às barragens e às famílias atingidas; • exercer nosso direito, como cidadãos, para exigir o cuidado necessário pelo meio ambiente e medidas de segurança em áreas de mineração; • lutar para que os interesses de exploração econômica não sejam colocados acima da vida humana e da integridade da Criação. Comprometidas com a proposta de Jesus Cristo para que “todos tenham vida em abundância”, queremos colaborar para que as novas gerações tenham um futuro melhor. Irmã Maria Percila Vieira, SSpS – Coordenadora Provincial BRN e diretora-presidente do Instituto Trinitas.

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