Bibliodrama: uma experiência de vida

Durante o ano de 2019, o grupo de coordenadores missionários da Rede de Educação, de missionários leigos de Deus Uno e Trino e das irmãs missionárias servas do Espírito Santo se reuniu no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, para o Curso de Bibliodrama. A formação foi ministrada por irmão Paolo de Lucca, SVD; irmã Maria de Fátima Marques, SSpS; irmã Heloíse Matos, SSpS; e Agostinho Travençolo Júnior, coordenador missionário. O encontro de encerramento foi no fim de semana, entre 29 de novembro e 1º de dezembro. A temática envolveu sonho e missão que perpassam o encontro com a Palavra. Foram dias de crescimento pessoal, vivência em grupo e aprofundamento da fé. A cada encontro, tive a oportunidade de trazer a Bíblia para a centralidade de minha vida, de maneira única, diferente de todas as outras, levada por minhas intuições, emoções, revelando que Deus comunica-se comigo e que o Espírito está em ação, pela escuta, pela transformação. Nem sempre, nos encontros de bibliodrama, foi possível nomear as emoções, mas foi possível vivenciá-las e promover um encontro comigo mesma e com o outro. Tive, em muitos momentos, oportunidade de escutar, ouvir com atenção, ser ouvida, perguntar, responder, compreender a dor do outro que, muitas vezes, era a minha também e não a percebia… Pela dança, um dos elementos do bibliodrama, tive a chance de vivenciar maior interação com o grupo e de deixar pulsar no coração sentimentos vividos na experiência da Palavra. Neste último encontro, fizemos a experiência do bibliodrama completo: estruturação do texto, leituras, esculturas, gestos, “bibliolog”, entrevistas, entre outros. Estes me fizeram crer que é bom olhar para dentro de mim e contar minha história, relembrar meu caminho, percebendo que Jesus me fala também por meio de outras pessoas. Um fim de semana rico de novas experiências que contribuíram para minha própria história e para minha prática como educadora. Um curso que me fez ressignificar o valor das pequenas coisas: sentar-me à mesa com a família, escutar com paciência meus filhos, alunos, amigos, viver intensamente cada momento, descobrir o que há de especial em cada pessoa sem me prender a aparências e rótulos, perdoar para ter a capacidade de amar intensamente e agradecer sempre. _ “Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar Eu tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar tenho que dizer adeus dar as costas, caminhar“ (Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”) Luciana Marzullo Araujo, coordenadora da Pastoral Missionária no Colégio Stella Matutina, pedagoga e cientista das religiões. ________
“Quanto amo a tua Palavra; passo o dia todo a meditá-la…” (Sl 119,97)

Este versículo descreve, com fidelidade, o que de fato tem sido o bibliodrama em nossas vidas. Chegamos à terceira etapa de nosso curso, e posso dizer que, a cada encontro, seguimos as palavras do Mestre: “Duc in altum”, avancem para águas mais profundas (Lc 5,4). Participar do bibliodrama tem sido uma experiência única! Desde o primeiro encontro, passamos por momentos de profunda intimidade com Deus e com nós mesmos. O grupo está em perfeita sintonia, e isso pode ser percebido nos momentos de oração que são preparados a distância e que se conectam perfeitamente com as propostas de trabalho de nossos queridos facilitadores. Nossos encontros começam sempre com a oração que dará o tom de todo o trabalho a ser realizado. Confesso a vocês que, no primeiro momento, fiquei um tanto apreensivo, reticente sobre como seria o curso, mas, depois da primeira dinâmica de apresentação, toda e qualquer possibilidade de “travamento/estranhamento” foi por terra. Ali percebi o agir de Deus… e me deixei conduzir por seu Espírito. No bibliodrama, a porta de entrada para mergulharmos na Palavra é a preparação do ambiente de acordo com o texto bíblico a ser trabalhado. A contemplação da cena, fazer-se presente nela, faz-nos participantes daquele instante em que os protagonistas do texto sagrado fizeram a experiência. Mas o mais importante é que não repetimos a experiência deles, somos convidados, ou melhor, impelidos a sermos os protagonistas. Colocamos ali nosso viver, nossos sentimentos, frustrações, alegrias, esperanças… E isso faz toda a diferença, porque a Palavra ganha um novo sentido para nós. Nós nos tornamos um com a Palavra. Fazer essa experiência traz uma dinamicidade, uma profundidade que torna impossível fazer uma leitura bíblica sem querer aprofundar e atualizar seu sentido em nossas vidas. No encontro passado, conhecemos um novo elemento de bibliodrama, o “bibliolog”. Dos elementos trabalhados, esse foi um dos mais interessantes, pois nos permite “ler o que não está escrito” no texto. E aí está toda a maravilha dessa experiência, “o que não está escrito” passa a ser “escrito” com a nossa vida. A Palavra nos fala, ou melhor, grita para nós. E, ao ser interpelado por ela, não existe a menor possibilidade de ficar calado ou de não se deixar transformar… É o Oleiro moldando/refazendo o barro/vaso. E, como nos diz o profeta: “Assim também acontece com a minha palavra: ela sai da minha boca e para mim não volta sem produzir seu resultado, sem fazer aquilo que planejei, sem cumprir com sucesso a sua missão” (Is 55,11). Alexandre Pinho Britto, Bacharel em Teologia e Licenciado em Filosofia, coordenador da Pastoral do Colégio Imaculado Coração,no Rio de Janeiro. ________
Encontro da Palavra revelada com a história vivida

O Curso Internacional de Formação em Bibliodrama foi realizado de 10 de abril a 18 de maio de 2019, no Centro Ad Gentes, em Nemi, Itália. Coordenado pela irmã Maria Illich, SSpS, e padre Rudi Pöhl, SVD, reuniu pessoas de seis países: Alemanha, Filipinas, África, Polônia, Coreia do Sul e Brasil. Entre os participantes estava o educador Agostinho Travençolo Júnior, coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). Para ele, participar do curso foi uma oportunidade única e muito especial de experimentar um caminho novo de leitura, escuta e vivência da Sagrada Escritura. Ele ressalta a experiência de interagir com a Palavra de Deus “não meramente como coadjuvante e sim como protagonista”. Segundo Agostinho, o objetivo do curso foi buscar fortalecer a espiritualidade e o encontro com a Palavra de Deus, tendo como base quatro pilares (“relacionamento”, “comunhão”, “missão profética” e “ministério bíblico-pastoral”), além de formar facilitadores do método no bibliodrama. O texto inspirador foi a passagem dos “Discípulos de Emaús” (Lc 24,13-35). Buscando uma nova dinâmica e maneira de experimentar e comunicar a Palavra de Deus, o bibliodrama constitui-se de duas partes que se encontram: a Palavra de Deus e a história pessoal de cada participante. Por esse motivo, no método, cada pessoa é considerada única pelo que é e pelo modo como sente e compartilha sua experiência pessoal com a Palavra. O curso também capacita o participante a tornar presentes personagens e outros objetos do texto sagrado bem como aflorar o melhor e mais verdadeiro de seu mundo interior. Nesse sentido, Agostinho confidencia: “O curso veio para ressignificar minha história onde o Texto Sagrado pode expressar sua força e sabedoria”. Também conta que provocou uma mudança de direção, no sentido de olhar, sentir e tocar a vida de um jeito diferente e mais pleno de significados: “Trouxe para o centro o que deve estar no centro: a Palavra e a vida”, resume. Para Agostinho e demais participantes, Nemi se tornou, por seis semanas, um “laboratório internacional” de vivência e de aprendizado do método, possibilitando diferentes leituras da Bíblia, o que proporcionou uma profunda reflexão dos ensinamentos e dos valores do Evangelho. Agostinho retorna ao Brasil trazendo na bagagem o desejo de partilhar a experiência vivida. Ele quer proporcionar às comunidades educativas dos colégios da Rede de Educação a vivência do método e seus elementos, “para que nossas ações se transformem cada vez mais em expressões criativas e espontâneas”. Com entusiasmo, afirma: “É tempo de partir e de adaptar o método à nossa realidade latino-americana, que clama por dignidade e justiça. Afinal, o Deus de Israel bíblico e de Jesus de Nazaré é o Deus dos excluídos”. Agostinho ressalta ainda o clima intercultural de acolhida. “É o sinal mais claro da Palavra viva nesse encontro, que semeou no coração de cada um, de cada uma, sentimentos de gratidão e o desejo de continuar nessa caminhada”. “Quem ganha é a Dimensão Missionária, por se tornar cada vez mais um espaço de encontro da pessoa com a sua história e com a Palavra que fez morada entre nós”, conclui. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS.
A Palavra que encanta e toca o coração

Para os dez participantes da primeira etapa, o Curso de Bibliodrama foi uma surpresa do começo ao fim. Todos chegaram muito curiosos e descobriram que não se tratava de fazer “dramatizações”, mas de mergulhar numa vivência da Palavra de Deus que encanta e toca o coração. O ingrediente principal do Bibliodrama, segundo o verbita Ir. Paolo Delucca, um dos facilitadores, “é como alimentamos a nossa fé e a nossa alma com a Palavra de Deus”. Também para as outras duas facilitadoras, as irmãs Maria de Fátima Marques e Heloíse Matos, a Bíblia e a vida caminham juntas. Cada pessoa é convidada a se deixar tocar e transformar pela Palavra. O curso foi realizado no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, no último fim de semana de março, e foi como um retiro para os participantes, dos quais a maioria era educadores e educadoras da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo e ainda algumas irmãs e missionárias leigas de Deus Uno e Trino (MLDUT). Pelos depoimentos, é possível ter uma ideia do que significou o curso. Para a missionária leiga e educadora Maria Cristina Queiroz Maia, o “mapeamento do texto”, um dos elementos do bibliodrama, “permite identificar as motivações, significados e sentimentos que a Palavra gera na relação comigo, com Deus e com o próximo. Essa vivência é curativa e libertadora”. O facilitador Paolo acrescenta que o mapeamento “convida a entrar na história de Jesus e no mistério de nossas vivências cotidianas”. Segundo ele, o Espírito Santo atua em nossa intuição e aprofunda a fé, e, no diálogo com a Santíssima Trindade, o amor se propaga e faz o coração arder, como aconteceu aos discípulos de Emaús. Já a educadora Simone Fortunato Nunes, o bibliodrama contribui para “um novo olhar acerca das leituras bíblicas, atentando para os sinais presentes nas palavras, versículos e parábolas”. Mas o mais interessante para ela é “fazer a ‘ponte’ entre a Bíblia e a vida, num exercício de interiorização que promove o autoconhecimento e o crescimento pessoal”. Irmã Lusia Sakunab também fala do novo olhar e acrescenta: “Ajudou-nos a usar nossa criatividade na vivência da liturgia e nas celebrações do nosso dia a dia”. As educadoras Rogelia Aparecida de Rezende e Luciana Marzulo enfatizaram que o bibliodrama proporcionou uma vivência de encontro com Deus com base na Palavra, consigo mesmas e com os outros. Para Luciana, foi uma “transformação pessoal” e, para Rogelia, um momento de “abrir novos caminhos e de se deixar guiar”. Também a missionária leiga e educadora Nanci Regis Queiroz Afonso ressaltou que a partilha no grupo foi essencial e ajudou a melhor compreender e viver os desafios do dia a dia. “O Bibliodrama me fez mergulhar em mim mesma e encontrar o tesouro da Palavra de Deus de modo muito significativo. Construí pontes em mim. Portas se abriram no meu coração”, acrescentou ela.