Pedro e Paulo: duas “rochas vivas”, um só Fundamento

Neste domingo, celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo. É também o Dia do Papa. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia desta que é uma das festas mais antigas da Igreja. A passagem está em Mateus 16-13-19.
Solenidade de São Pedro e São Paulo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

Neste domingo, a Igreja celebra a solenidade de dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo: este, grande evangelizador dos pagãos ou gentios; aquele, de seu próprio povo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesareia de Filipe (Mt 16,13-19). O relato mais antigo está no Evangelho de Marcos (8,27-38), o qual se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente, mas o relato tem a mesma finalidade, ou seja, ajudar os ouvintes e leitores a clarificarem quem é Jesus e o que significa ser discípulo ou discípula dele. A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. Assim, vem muita resposta, pois responder a essa pergunta não compromete, pois é o “dizem que”. Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, compromete-se. Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente Pedro acertou, e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou. Afirmou que foi por meio de uma revelação do Pai que Pedro fez sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura, pelo menos, até o versículo 25. Pois o assunto é mais complicado do que possa parecer. Após afirmar, pois, que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que significa ser o Messias (ou, em grego, o Cristo). Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário: era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que ele era o Messias, mas não da maneira que Pedro esperava e queria. Ele, conforme as expectativas do povo de seu tempo, queria um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar seus seguidores também, até a Cruz! Por isso Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. Como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afaste-se de mim, Satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de Satanás (o Tentador por excelência) e “pedra de tropeço” para Jesus. Pedro usava o título certo, mas tinha a compreensão errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis. Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento dele, na construção de seu projeto, até as últimas consequências. Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta de Jesus ressoa forte (a segunda pergunta). Para nós, quem é Jesus? Não para o Catecismo, não para o Papa ou o bispo, mas para cada de nós, pessoalmente. No fundo, a resposta se dá não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus; Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (Jo 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de usar termos corretos, mas com a compreensão errada. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
São Pedro e São Paulo – Vidas transformadas pelo Evangelho

De um lado, um homem impulsivo e, do outro, um perseguidor dos cristãos, ambos cheios de falhas e com personalidade difícil de lidar. Esses dois homens deixaram-se transformar por Cristo e se tornaram anunciadores da Boa-Nova de Jesus. Hoje são santos muito amados na tradição popular e exemplos a serem seguidos. Saulo de Tarso: de perseguidor a perseguido Saulo era um judeu, da cidade de Tarso, e pertencia ao grupo dos fariseus, como seu pai. Estudou em Jerusalém com Gamaliel, um dos “mestres da lei” mais importantes entre os judeus. Por seu grande entusiasmo e fidelidade ao judaísmo, Saulo, com o apoio do sumo sacerdote, perseguia os cristãos e os colocava no cárcere. Um dia, enquanto ia a Damasco para prender mais cristãos, uma luz brilhou, e Saulo ficou cego. Uma voz lhe perguntou por que o estava perseguindo. Era a voz de Jesus. Desse momento em diante, Saulo se converteu, trocou seu nome por Paulo e começou a anunciar o Evangelho. A partir daí, Paulo tornou-se um apóstolo incansável dos que não pertenciam ao judaísmo. Fez três grandes viagens pela Ásia e Europa e, nos lugares por onde passava, fundou comunidades cristãs. Em alguns lugares, permaneceu vários anos, ensinando e preparando novos discípulos. Sofreu inúmeras perseguições e enfrentou muitos perigos durante suas viagens. Mesmo preso, em Roma, continuou a anunciar o Evangelho às pessoas que o procuravam e animava as comunidades com as cartas que escrevia, até que ele foi decapitado. É atribuída a São Paulo 13 cartas do Novo Testamento, e suas viagens missionárias são narradas nos Atos dos Apóstolos. Seus ensinamentos falam sobre a salvação e a vida cristã. Deixou um grande exemplo de amor, coragem e compromisso com a missão. Simão Pedro: o amigo esquentadinho de Jesus Pedro, também chamado Simão, era pescador e tinha um pequeno negócio em parceria com seu irmão André e dois amigos, Tiago e João. Ele se destacou entre os discípulos por ser ousado e falar o que todos estavam pensando. Era impulsivo, fazia tudo com entusiasmo e amava Jesus de todo o coração. Pedro tinha a personalidade de um líder, mas ainda precisava amadurecer na fé. Como amigo de Jesus, presenciou momentos especiais que nem todos os apóstolos viram. Pedro vai ao encontro de Jesus que caminha sobre as águas. Em diversas situações, Pedro fez o contrário do que se esperava de um apóstolo: falou mais do que devia, agiu com violência, negou Jesus. Certa vez, Jesus disse que ele precisava até se converter: “Quando você se converter, fortaleça os seus irmãos” (Lucas 22,32). Apesar disso tudo, Pedro amava Jesus mais que tudo e se dedicou arduamente à pregação do Evangelho, por isso Jesus o tornou líder da Igreja. Pedro animou as comunidades cristãs e entregou toda a sua vida no seguimento de Jesus. Como Cristo, também foi crucificado. Como não se sentia digno de morrer da mesma forma que seu mestre, pediu que lhe pregassem à cruz de cabeça para baixo. O que Paulo e Pedro têm em comum? Apesar de suas falhas, esses dois homens da Bíblia mostraram coragem e humildade, reconhecendo e corrigindo seus erros. Isso aconteceu a partir do encontro pessoal que tiveram com Jesus. Nós também podemos receber a graça da transformação de nossas vidas se abrirmos nossos corações à ação misericordiosa de Deus e vivermos segundo os ensinamentos do Evangelho.