Pais-educadores, educadores-pais e a pedagogia de São José

Vivemos tempos tão difíceis… Como consultora educacional, em muitas cidades no Estado do Rio de Janeiro, acompanho partilhas e desabafos sobre os desafios enfrentados pelos pais: lidar com as próprias emoções; ajudar a família a manter a saúde física e mental; conciliar o home office com a atenção aos filhos estudando em casa; enfrentar a crise econômica, contratos suspensos, desemprego, aumento do custo de vida; lidar com a falta de tempo para família, consumido por compromissos profissionais; estabelecer limites e autoridade paterna; dar exemplo e demonstrar coerência para os filhos; prover as necessidades materiais; mas, sobretudo, cuidar e educar. Os desafios não param por aí… Com grande inspiração e senso de urgência, o Papa Francisco decretou 2021 como o “Ano de São José”, para celebrar os 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica. A Carta Apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”,¹ sobre a pessoa e a missão extraordinária de São José, aponta sinais que iluminam e inspiram nossos caminhos. O Papa diz que “o objetivo é aumentar o amor por esse grande santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes”. “A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. Naquele homem, nunca se nota frustração, mas apenas confiança. O seu silêncio persistente não inclui lamentações, mas sempre gestos concretos de confiança” (Papa Francisco, Patris corde). A importância de preservar o silêncio em um mundo tão barulhento que nos tira a paz, reservar momentos e “olhar para dentro”, com esperança e confiança. Dedicamos tanto tempo “olhando para fora” e nos esquecemos de (re)descobrir o próprio interior. Tony de Mello diz que “o silêncio não é ausência de som, mas ausência de Ego”. “A vontade de Deus, a sua história e o seu projeto passam também através da angústia de José. Assim ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o timão da nossa barca. Por vezes, queremos controlar tudo, mas o olhar d’Ele vê sempre mais longe” (Papa Francisco, Patris corde). Mesmo em meio a tantas dificuldades, muitas vezes mergulhados no estresse, aprendemos com São José a nos deixar surpreender pelo amor poderoso de Deus, que cuida de nós, que nos surpreende. Aos pés de Jesus, somos todos famintos, e o alimento que dá sustento é o que recebemos das mãos dele, que nos dá força para enfrentar os desafios. “O acolhimento de José convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são, reservando uma predileção especial pelos mais frágeis, porque Deus escolhe o que é frágil (1 Coríntios 1,27), é pai dos órfãos e defensor das viúvas (Salmo 68,6) e manda amar o forasteiro. Posso imaginar ter sido do procedimento de José que Jesus tirou inspiração para a parábola do filho pródigo e do pai misericordioso (Lucas 15,11-32)” (Papa Francisco, Patris corde). Muitas vezes, em nossas casas, temos a tendência de tentar colocar os familiares dentro de “formas”, e essa postura autoritária sufoca e castra a identidade e a criatividades de cada familiar, especialmente dos filhos. Por isso, na pessoa de São José, nos gestos de escuta, paciência e acolhimento, buscamos inspiração no modo original de ser presença acolhedora. O Papa apresenta sete características da paternidade de São José: um pai amado, pai da ternura, pai na obediência, pai no acolhimento, coragem criativa (transformar um problema em oportunidade), pai trabalhador, e a sétima característica da paternidade de São José é a sugestiva imagem da sombra (o Papa lembra que não se nasce pai, mas se torna pai). Precisamos não temer como José não temeu (Mateus 1,20). Sigamos em frente, olhando o exemplo do amado São José. Rezemos com o Papa essa oração que ele reza todos os dias, há mais de quarenta anos: “Glorioso Patriarca São José, cujo poder consegue tornar possíveis as coisas impossíveis, vinde em minha ajuda nestes momentos de angústia e dificuldade. Tomai sob a vossa proteção as situações tão graves e difíceis que vos confio, para que obtenham uma solução feliz. Meu amado Pai, toda a minha confiança está colocada em vós. Que não se diga que eu vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder. Amém” (Papa Francisco, Patris corde). Cristina Maia, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo. Referência¹ PAPA FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como Padroeiro Universal da Igreja. Disponível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20201208_patris-corde.html

“Com coração de pai”: um grande louvor a São José

Em 19 de março, celebramos a Solenidade de São José, patrono universal da Igreja, título que o Esposo de Maria recebeu em 8 de dezembro de 1870, pelo Bem-Aventurado Papa Pio IX. Para marcar os 150 anos dessa proclamação, o Papa Francisco convocou um ano especial dedicado ao Patriarca de Nazaré, a ser comorado até 8 de dezembro de 2021, e publicou a Carta Apostólica Patris Corde (“Com coração de pai”, em tradução livre), assinada em 8 de dezembro de 2020. A devoção a São José pode ser considerada mais uma das grandes características do atual pontificado. Por uma feliz providência, o início oficial do ministério do Papa Francisco deu-se exatamente em 19 de março de 2013. Um de seus simpáticos costumes é colocar debaixo de uma imagem de São José dormindo algumas anotações sobre temas difíceis, que pedem melhor discernimento, como explicou o próprio Papa. Desde então, a curiosa figura do santo dormindo é uma das lembranças mais procuradas tanto nos arredores da Praça São Pedro, no Vaticano, quanto em lojas especializadas em artigos religiosos ao redor do mundo. A mensagem de Patris Corde quer mais dirigir um grande louvor a São José, homem discreto, mas exemplar, que ajudou a proteger e a formar a personalidade humana de Jesus. Francisco desejou partilhar algumas reflexões pessoais sobre aquele a quem denomina de uma “figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós”. “Depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo”, explica. Assim, o Papa destaca que o Bem-Aventurado Pio IX declarou São José como “Padroeiro da Igreja Católica” (1870); o Venerável Pio XII o apresentou como “Padroeiro dos Operários” (1955); e São João Paulo II o proclamou como “Guardião do Redentor” (1989). Francisco lembra que o povo também invoca o pai adotivo de Jesus como “Padroeiro da Boa Morte” (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1014). O texto do Pontífice sublinha sete atributos de São José: Pai amado, Pai na ternura, Pai na obediência, Pai no acolhimento, Pai com coragem criativa, Pai trabalhador, Pai na sombra. Sobre cada um, o Papa expõe meditações para reafirmar que, em sua atitude silenciosa, aquele homem deixa importantes exemplos a guiarem os cristãos no seguimento de Jesus. “São José lembra-nos de que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação”, diz Francisco, em tom de reconhecimento e de gratidão. Homem de fé Em Patris Corde, Francisco destaca uma atitude de José que intriga muitos de nós, homens, sobretudo quem vive o matrimônio. O Carpinteiro de Nazaré aceita Maria, mesmo tendo uma imensa angústia ante a gravidez incompreensível da noiva. Que situação complicada! Talvez possamos ter uma ideia do tamanho da decepção a invadir o coração de José! Contudo aquele operário decide não difamar Maria (o que poderia levá-la a punições indizíveis), mas, de modo secreto, deixa a gestante (veja o primeiro capítulo do Evangelho de Mateus). Mais surpreendente ainda é a fé do Patriarca. Ele dá crédito à mensagem de Deus, representado por um anjo, que lhe fala em sonho: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1,20-21). Justificativa difícil! Mas José acredita! Daí podemos inferir que esse trabalhador é um homem de oração, atento à voz de Deus; um gigante na fé. “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado” (Mateus 1,24). Segundo o Papa Francisco, “José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo”. O Pontífice completa: “Com a obediência, [José] superou o seu drama e salvou Maria”. “Hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado, que, mesmo não dispondo de todas as informações, decide-se pela honra, dignidade e vida de Maria. E, em sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus o ajudou a escolher iluminando seu discernimento” (homilia em Villavicencio, Colômbia, 8 de setembro de 2017). Francisco faz outra observação interessante: tal como Maria, na Anunciação (solenidade celebrada uma semana depois, em 25 de março), e Jesus, no Getsêmani (Marcos 14,36), ao longo da vida, “José soube pronunciar o seu ‘fiat’” (“que se faça”). Um “sim” dado nos desafios do cotidiano de uma família pobre, que vivia em uma periferia e tinha de lutar muito para sobreviver, tal como vemos muitas em nosso tempo. “A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos, como todas as outras famílias, como muitos dos nossos irmãos migrantes que ainda hoje arriscam a vida atormentados pelas desventuras e a fome. Nesse sentido, creio que São José seja verdadeiramente um padroeiro especial para quantos têm de deixar sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e da miséria”, diz o Papa.Na Carta Apostólica, o bispo de Roma chama a atenção para um dado dos evangelhos que pode passar despercebido. Ao fim de cada passagem na qual José é protagonista, vê-se “que ele se levanta, toma consigo o Menino e sua mãe, e faz o que Deus lhe ordenou” (cf. Mateus 1,24; 2,14.21). O dom da paternidade Para o Papa Francisco sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outra pessoa, em certo sentido, exercita a paternidade em relação a esta. “Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele”, completa. A Carta Patris Corde encerra-se com uma singela prece, bem ao estilo de Francisco e do Padroeiro da Igreja: “Salve, guardião do Redentore esposo da Virgem Maria!A vós Deus confiou seu Filho;em vós, Maria depositou sua confiança;convosco, Cristo tornou-se homem. Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nóse guiai-nos no caminho da vida.Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,e defendei-nos de todo o mal.

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