Advento: preparar-se para a chegada do noivo

Com o Tempo do Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, iniciamos um novo ano litúrgico. Nessa espiral do calendário, vamos celebrando as ações de Deus (chamadas “mistérios”) na vida de seus filhos. A palavra “advento”, originária do latim, referia-se à espera da visita de um imperador. Como ocorreu com outros termos, o conceito foi apropriado pelos cristãos, aqui significando, desde o início, a expectativa pela volta de Jesus, no fim dos tempos (Mt 24,27). O correspondente grego é a palavra parusia (a forma sem acento é a mais usada no Brasil) ou parúsia. Nós, latino-americanos, normalmente somos muito calorosos e acolhedores, por isso nos é fácil entender o espírito desta época. O Advento equivale ao que sentimos quando recebemos a notícia de que uma pessoa muito querida, e a qual não vemos há muito, virá nos fazer uma visita. Quanta alegria! Limpamos a casa, trocamos os lençóis e as toalhas, preparamos deliciosos quitutes. É muito limitado dizer que este período é uma preparação para o Natal. Nestas quatro semanas, de fato, celebramos as três possibilidades do encontro com o Senhor, segundo São Bernardo de Claraval: o primeiro, o intermediário e o último. O primeiro é o da encarnação do Senhor no seio de Maria e nascido como um pobre, num estábulo. Deus, em Jesus, tornou-se um de nós, portanto divinizando nossa condição humana. É o Deus que se fez pobre e rei (este não como pensa o mundo, diga-se!). Não é uma mera lembrança, mas um memorial solenemente celebrado no Tempo do Natal, que começa ao anoitecer do dia 24 de dezembro e vai até a Festa do Batismo de Jesus. São dias em que, pela sagrada liturgia, colocamo-nos diante da manjedoura e testemunhamos a manifestação (epifania) do Messias à humanidade. O encontro intermediário é aquele que ocorre a qualquer hora, a depender de nossa disposição em se deixar abraçar por Deus. O Senhor vem a nosso encontro no Pão da Palavra, nos sacramentos, na oração, nos irmãos e irmãs, em especial nos mais fracos e excluídos. A vinda futura de Jesus é o foco maior do Advento, pelo menos esse foi o intento dos cristãos dos primeiros séculos, ainda antes de uma formulação litúrgica deste período. Nos Evangelhos, o Senhor nos alerta para a necessidade de estarmos acordados para o encontro definitivo com Aquele que, sem qualquer aviso, vem a nós. Diferentemente de certos pensamentos ingênuos e ultrapassados, esse dia terá o tom da alegria, pois a Igreja (a grande comunidade dos batizados), a noiva, será beijada com muito carinho pelo Amado, que virá correndo a seu encontro. Essa linda noiva deve estar bem preparada para esse dia: vestida de justiça, adornada pelas joias da oração e do cuidado com os mais necessitados, trazendo o anel da misericórdia e o ramalhete do amor. Serenidade na liturgia O Tempo do Advento tem algumas particularidades interessantes quanto à liturgia. As leituras envolvem personagens admiráveis, com destaque a três figuras: o profeta Isaías, alimentando-nos com magníficos textos sobre a esperança (nunca precisamos tanto dela como agora!); São João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor; e a Virgem Maria, com seu “sim” ao projeto de Deus, mulher corajosa e modelo para todos nós. Os hinos, costumeiramente muito bonitos quando os ministros do canto seguem o espírito da celebração, levam-nos ao recolhimento e nos chamam à conversão (volta ao caminho seguro). Não se canta o “Glória”, exceto nas solenidades e festas que caem nesse período. O chamado “Hino Angélico” é entoado com toda a alegria a partir da celebração da noite de 24 de dezembro (já no Natal). Ao contrário do que ocorre na Quaresma, a expressão “aleluia” pode ser entoada. Os ornamentos são sóbrios, mas não com a austeridade quaresmal. A cor roxa nos recorda que a casa de nosso coração está sendo preparada para a festa do encontro. No meio do Advento, no terceiro domingo, os paramentos róseos anunciam que a hora da grande alegria está chegando. Esse domingo é chamado Gaudete (alegrai-vos), devido à antífona de entrada: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (cf. Fl 4,4s). O ideal é que os enfeites natalinos sejam expostos do dia 24 até o fim do ciclo do Natal (que, reforço, não se encerra em 6 de janeiro). Desde o primeiro domingo, as igrejas são adornadas com a coroa do Advento. Esse costume pagão foi ressignificado pelos seguidores de Jesus. A ideia é mostrar que, a cada vela acesa conforme avançam os quatro domingos, a luz do Senhor vai vencendo as trevas. É importante que o nascer dessas chamas seja visto por toda a comunidade, mesmo num momento de silêncio. A partir de 17 de dezembro até o entardecer do dia 24, temos o que alguns chamam de “Semana Santa do Natal”. As leituras enfocam mais a primeira vinda do Salvador e insistem nas profecias sobre o cuidado de Deus para com seu povo. É impossível falar desses dias sem mencionar as dulcíssimas “Antífonas do Ó”. São breves versos cristológicos entoados sobretudo nas orações das Vésperas, na Liturgia das Horas, cuja beleza todo o povo é convidado a conhecer. As manifestações populares de fé também têm vez nestes dias, a depender da cultura de cada lugar. A mais famosa em nosso país é a “novena de Natal”, um tesouro que tem produzido abundantes frutos espirituais em nosso povo. Ocasião indispensável para reunir a família, vizinhos e amigos em torno da Palavra e em espírito de fraternidade. É muito louvável que as crianças participem dessa prática. Qualidade do Advento e do Natal Há de se lamentar que um tempo tão frutuoso para nossa caminhada seja ofuscado pela correria às lojas, pela má preparação das liturgias ou mesmo pela ignorância a respeito do que se celebra. Nos dias em que “arrumamos a casa” para uma visita tão preciosa, ganhamos mais um convite de Deus a abandonarmos velhos costumes, caminhos tortuosos e voltarmos à estrada segura de Cristo. Concluo com um trecho do saudoso verbita
Advento: tempo de atenção

Na liturgia dominical de 1º de dezembro, entramos no ciclo natalino, o memorial de uma das bases de nossa fé: o encontro, ou melhor, os encontros com o Senhor que vem até nós. Este período é aberto com o Tempo do Advento, indicando a alegre e amorosa expectativa pela vinda de Cristo. Em muitas comunidades, dá-se um grande destaque à Solenidade do Natal que se aproxima. Este tempo, contudo, é bem mais do que arrumar a casa para “recordar” o nascimento de Jesus. É uma oportunidade forte de repensar a vida, de preparar-nos com vigilância também para o encontro definitivo com o Senhor, que virá gloriosamente. É um chamado a refletir se estamos atentos às diversas vezes em que Jesus vem a nós nos eventos do cotidiano. A Palavra de Deus nos convida a pensar como será a chegada do “noivo” que surge na alta noite, do “patrão” que cobra resultados, do “rei” que prepara um lugar em sua casa, do “pastor” que separa as ovelhas dos cabritos, daquele que chega sem avisar, como um “ladrão”. Alegorias usadas pelo Evangelho para nos dizer que devemos sempre estar prevenidos para um compromisso que não tem hora marcada. Este é um momento precioso para avaliar como vivemos o lava-pés da Eucaristia. Demos de comer e de beber, acolhemos os “peregrinos”, vestimos os nus, visitamos os enfermos e os encarcerados? Ou apenas paramos para ouvi-lo piedosamente nas praças, sem transformar em prática essa escuta? Se nossa vida for pedida de volta pelo Senhor, como a devolveremos a ele? Esses são alguns dos questionamentos que nos interpelam sobre o encontro com o Cristo que veio, vem e virá. O roxo dos paramentos, a delicadeza dos adornos e a doce discrição dos instrumentos musicais são um convite à conversão, à volta ao caminho pavimentado e seguro que é o próprio Cristo. Os alertas de Isaías e de João precisam ecoar em nosso coração para fazê-lo reluzir mais que os ansiosos adornos ostentados na faminta e descartável “liturgia” do comércio. A luz do Senhor que vem sobre a terra deve resplandecer como em Maria, a Mãe sempre à disposição a servir o Reino e a louvar o Deus que eleva os humildes. A expectativa desta época não pode ser experimentada com o mesmo afobamento que a vida urbana nos impõe. Essa espera é alegre, corajosa e não nos permite cochilar. Que nós, a Igreja, possamos testemunhar, em palavras e ações, que estamos “doentes de amor” à espera do Amado, cuja boca é cheia de doçura e de quem tudo é encanto (cf. Ct 5,8.16). Sinal admirável No primeiro domingo do Advento, o Papa Francisco visitou Greccio, Itália, onde, em 1223, São Francisco de Assis apresentou o presépio pela primeira vez. Para demonstrar apoio à prática, seja na família, seja em locais públicos, o Pontífice publicou a Carta Apostólica Admirabile Signum (O Sinal Admirável). O desejo do Papa é que a mensagem ajude nas reflexões em preparação para o Natal. Como não poderia ser diferente quando se refere ao nascimento de Jesus, o texto é marcado pela espiritualidade que convoca ao olhar para Deus e para o ser humano. Como o Pobrezinho de Assis, o Papa se detém diante da tocante pobreza daquele rei que vem se fazer um de nós, sofrer nossas dores e alegrar-se conosco. Um Deus no meio do povo e não “acima de tudo”, como ainda insistem alguns. “Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas se faz presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência”, diz Francisco. O Bispo de Roma também recorda que a vinda do Senhor é primeiro para os pobres, na figura dos pastores. “Os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós”, diz o texto. O Filho de Deus também se encarna para todos os povos, representados pelos Magos, que partem de longe para chegar a Cristo: “À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-lo”. Veja, a seguir, o texto completo da Carta Apostólica Admirabile Signum. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.
À Luz do Evangelho Dominical

Iniciamos o Tempo do Advento, época de uma alegre e sábia expectativa. Quando aguardamos a chegada de alguém que amamos, essa espera é sempre marcada pelo júbilo. O padre Arlindo Dias, missionário do Verbo Divino, ajuda-nos a refletir sobre a mensagem do Evangelho deste domingo, retirada de Mateus (24,37-44). O trecho afirma que o Filho do Homem virá numa hora a qual não sabemos. Jesus fala sobre a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos, ocorrida por volta do ano 70 d.C. Para Cristo, o evento não era necessariamente uma tragédia, mas o fim de um tempo em que se pensava que o Reino de Deus era apenas prerrogativa do povo de Israel e não de toda a humanidade. Deus não é propriedade de um povo, de uma religião. Jesus nos chama a atenção para o risco de nos perdemos em nossos afazeres cotidianos, esquecendo-nos de nos preparar para um novo tempo. Quem sente que o Senhor está às portas, busca a conversão e ajusta a própria vida conforme o desejo de Deus, em ações concretas e não somente em palavras. Este é o espírito deste tempo: viver a justiça, a solidariedade com os mais sofredores, o contato próximo com o Pai e com o irmão e irmã. Como está nossa preparação para o encontro com o Senhor? Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes e veja mais.
Eis o tempo de conversão!

Instituições importantes emitem um grande sinal de alerta. É preciso converter-nos agora para garantir a vida do planeta. Há um mês, o Papa Francisco presidia a última sessão do Sínodo da Amazônia, na qual foi aprovado o documento final dessa grande reunião. No texto, a palavra que mais se destaca é “conversão”, tanto que o termo aparece nos títulos de todos os capítulos, indicando claramente que a humanidade precisa mudar de rumo. O alerta não vem apenas da Igreja, mas é o que também aponta o novo relatório lançado na terça-feira, 26 de novembro, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O clima é de urgência! De acordo com a ONU, se não houver uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa de 7% ao ano entre 2020 e 2030, as temperaturas sofrerão um aumento de 3,2º C, o que acarretará impactos climáticos mais destrutivos. A conclusão do relatório mostra que, ainda que todas as metas do Acordo de Paris sejam implantadas, as temperaturas continuarão a subir. Para permanecer abaixo de 2º C ou 1,5º C (que é a meta do Acordo de Paris), os objetivos precisam ser cinco vezes mais ambiciosos na próxima década. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas diz que, se a temperatura for além de 1,5º C, as ondas de calor e as tempestades serão mais frequentes e intensas. Quando a Igreja afirma que temos uma Casa Comum, significa também sustentar que somos todos corresponsáveis por ela. O futuro desse grande lar, e consequentemente o nosso, depende da ação de cada ser humano. Que nesse Advento, tempo de conversão, possamos repensar nossos estilos de vida e nos comprometer com a vida do planeta. Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade