Bem-aventuranças: coração do Evangelho

Bem-Aventuranças: coração do Evangelho. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 4º Domingo do Tempo Comum. A famosa passagem está em Mateus 5,1-12.
4º Domingo do Tempo Comum

“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”Lucas 4,21-30 Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos nazarenos: da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos. Em primeiro lugar, “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” (vers. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1 Coríntios 1,4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram de sua intimidade com o Pai, de sua espiritualidade profunda, de sua capacidade de compaixão, de coerência entre sua fala e sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós: de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que nossa palavra não seja mais a nossa, mas a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa ser nossa fala, seremos “sinos ruidosos ou símbolos estridentes” (1 Coríntios 13,2): chamam a atenção, mas não deixam frutos. Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre, e de novo, sua orientação nele para seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria, mas a sabedoria de Deus, que, com frequência, parece estupidez aos olhos do mundo”. A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco, muitas vezes, nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, ocorre que, em lugar de incentivar nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitamos por não serem “doutores”, por não saberem “falar bonito”, como o sabem muito bem nossos exploradores. Parece, às vezes, que há gente que sente prazer em destruir as lideranças. Mas as coisas vão mudar somente quando o pobre começar a acreditar no pobre. Outro motivo para tal reação, com certeza, era o fato de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, usando os exemplos da ação de Deus em favor de um estrangeiro (Naamã, o sírio) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta). Pois Jesus era um profeta, e o profeta sempre incomoda, porque nos desafia a sair de nossas fronteiras e a olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado, e por isso preferimos, com frequência, criar uma religião de ritos e rituais, com certezas absolutas que nos confirmam em nossa visão do mundo. Mas a verdadeira religião não é apenas de ritos (embora estes tenham grande importância na celebração de nossa fé). É o seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a vida plenamente” (João 10,10), vivenciando a solidariedade e a fraternidade entre todas as pessoas, sem preconceitos nem exclusões. É triste ver, em tantos lugares hoje, que a maior preocupação de muitas Igrejas parece ser com as minúcias rituais, com um número cada vez maior de normas, decretos e rubricas, enquanto se ignoram as grandes questões da humanidade, como a violência, a exploração, a destruição da natureza, o extermínio de indígenas, e assim por diante. Dificilmente se pode imaginar Jesus de Nazaré agindo assim. Por isso talvez se fale tanto nos programas religiosos dos meios de comunicação apenas do Cristo glorificado e tão pouco de Jesus de Nazaré, profeta perseguido por causa de suas opções concretas em favor dos sofredores, sem levar em conta sua raça, religião ou situação social. Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante de críticas e rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes com o Profeta de Nazaré. Ele “continuou seu caminho” (Lucas 4,20). É isso mesmo! Apesar das críticas, da não aceitação, das gozações, o cristão tem de “continuar seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos nesse sentido, seguindo o exemplo do Mestre! Como recomenda a Carta aos Hebreus (12,3): “Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
4º Domingo do Tempo Comum

“O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”Mc 1,21-28 O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos (e de todos os Evangelhos): o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado, na linguagem e mentalidade daquele tempo, na imagem de um homem doente, “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com essa luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não por meio de milagres, mas da Cruz, até a vitória definitiva na Ressurreição. Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava; mas, como é costume dele, não nos explicita o que ele ensinava. Ilustra, contudo, o conteúdo do ensinamento do Mestre, relatando uma ação dele: a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época, que tratava toda doença como expressão de um espírito mau, mas em que o evangelista quer nos mostrar. Na chegada do Evangelho do Reino, acontece a libertação verdadeira, em que o Mal, o pecado, com todas as suas expressões, está derrotado pelo Bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente; o Bem contra o Mal. No texto, o Mal, falando por meio do homem, reclama contra a chegada do Bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?”. O Mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje: enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “Quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam ‘o senhor é um santo’, mas quando comecei a perguntar por que existiam tantos pobres, me falaram ‘o senhor é um comunista!’”. Sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil. Então o relato nos ensina que, com a chegada de Jesus (portanto, também pela ação das comunidades dos seus discípulos e discípulas), algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”. A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto em seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento, mas em sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas, mas falava com base em sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência dos escribas e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores, seguidoras, achar meios para praticar esse projeto em nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos messias, de uma teologia de retribuição ou de prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade; manifestação do projeto de Deus para seus filhos e filhas. Essa ação começa no “micro” (em nossa família, comunidade, bairro, Igreja), pois a opção entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção e ação nossa. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.