Tudo começou na Galileia…

Tudo começou na Galileia… Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 3º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 4,12-23.
Identidade cristã: somos “teófilos”, amigos(as) de Deus

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 3º Domingo do Tempo Comum, narrado em Lucas 1,1-4;4,14-21.
3º Domingo do Tempo Comum

“O Espírito do Senhor está sobre mim”Lucas 1,1-4; 4,14-21 O texto relata a primeira experiência da vida pública de Jesus. Deu-se em sua terra de criação: Nazaré. Na linguagem de hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura. Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas leituras: a primeira, tirada da Lei; a segunda, dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do profeta Isaías, encontrou a passagem que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18-19). Não que Ele encontrasse essa passagem por acaso. Pelo contrário, Jesus a procurou até achar, pois Ele identificava sua missão com aquela descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lucas 4,21). Jesus identificou sua missão com a do capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos dele, temos a mesma missão. Olhemos os elementos: a) “Anunciar a Boa Notícia aos pobres”: o evangelho é “Boa Notícia”, não uma série de leis nem uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos esses elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade (para os pobres). Portanto, Ele toma posição; o que é boa notícia para uns é má notícia para outros. O que é boa notícia para o oprimido é má notícia para o opressor. Não existe uma Boa Notícia neutra, igualmente boa para todos. E não devemos diluir o termo “pobre”: aqui não é o pobre de espírito nem de coração, nem de fé… É o pobre mesmo, aquele, aquela que não tem o necessário para uma vida digna (Lucas usa o termo grego ptochois, que significa, mais ou menos, “indigente”). Com certeza, em nossa sociedade, abrange todos os excluídos. b) “Proclamar a libertação aos presos”: não apenas aos na cadeia, mas que estão sem a liberdade dos filhos de Deus, presos hoje pelas consequências do neoliberalismo, do desemprego, do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo e tudo o que oprime. Também aos presos em seu próprio egoísmo, pois o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém essa libertação passa pela mudança radical em sua maneira de viver. c) “Aos cegos, a recuperação da vista”: quanta gente cega hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia dominante, que não deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança por meio da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar que o texto enfatiza a “recuperação” da vista, não a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os que, uma vez, viram a realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante, a ponto de não enxergarem mais a verdade. d) “Libertar os oprimidos”: aqui há o eixo fundamental de toda a Bíblia: o Êxodo como processo permanente. No livro do Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êxodo 3,76-10). Jesus se coloca (e coloca todos os seus seguidores) nesse mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nessa luta para concretizar a libertação dos oprimidos. e) “Proclamar o ano de graça do Senhor”: o Ano da Graça (o ano jubilar!), memória da proposta de Levítico 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras a seus donos originais. Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, essa visão? O que significa hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos e a devolução das terras? Questões evangélicas da fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas, e desafiam a tendência a uma religião intimista, individualista e desencarnada da realidade. Pois júbilo, alegria, não pode ser decretado. Tem de brotar de algum motivo profundo. Aqui o próprio Jesus fala de sua missão, que é também a nossa. Pois fomos todos “consagrados com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18-21). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo do Tempo Comum

“Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”Mc 1,14-20 O texto trata da vocação dos primeiros discípulos, conforme a tradição sinótica, em contraste com o do último domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade do Discípulo Amado. Marcos logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se em sua vida pública: “Depois que João Batista foi preso”. Não é uma indicação meramente cronológica, mas causativa, no sentido de que Jesus começou a pregar porque João foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de João Batista, uma vocação que levaria Jesus, como levou João, ao martírio. O texto encapsula, no versículo 15, todo o conteúdo do Evangelho, na frase lapidar “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia”. O Reino de Deus irrompeu no meio da humanidade de uma maneira definitiva, por meio da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino exige resposta da parte das pessoas: a conversão que nasce da fé na Boa Notícia da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe. Mas Deus quis precisar das pessoas para concretizar seu plano. Por isso o primeiro passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É importante notar a atividade dos primeiros chamados: dois estavam “lançando a rede ao mar”, e dois estavam “consertando as redes”. Significa os dois aspectos da vida cristã: a missão (lançar as redes) e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se rasgam de tanto serem lançadas, assim acontece com nossa vida, com nossas comunidades. Por sermos frágeis, facilmente se rompem nossa comunhão e unidade. Por isso temos também de dar tempo para “consertar” (fortalecer nossa união, nossa vida interior, nossa vivência comunitária). Rede rompida pega nada; e rede consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada, também pega nada. É assim com a vida cristã. Se rompermos nossa unidade e comunhão, não traremos pessoas para o Reino. Mas, se cairmos em uma religião intimista e individualista, não nos lançando na missão, tampouco seremos “pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado. Também é de notar que tanto os dois que estavam lançando as redes como os que as estavam consertando tiveram de deixar algo para seguir Jesus: ou as redes (símbolo da segurança profissional) ou o pai e os empregados (símbolo da segurança afetiva). Não é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião de seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções, às vezes, difíceis, não é a religião de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois gumes” (Hb 4,12). Incomoda e desinstala-nos hoje, da mesma maneira do que os primeiros discípulos. Perguntemo-nos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento concreto de minha caminhada de discípulo ou discípula-missionário, missionária de Jesus e do Reino? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.