Tempo de Advento: o despertar dos sentidos

Tempo de Advento: o despertar dos sentidos. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 3º Domingo do Advento, o Domingo da Alegria. A passagem está em Mateus 11,2-11.

3º Domingo do Advento

“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”Lucas 3,10-18 A passagem trata da pregação de João Batista, que “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (vers. 3). O início do texto (vers. 10 a 14, que constam somente em Lucas) mostra bem sua teologia e contexto: não são os líderes religiosos que estão prontos para arrepender-se, mas o povo comum e até pessoas que estão à margem da sociedade, como cobradores de impostos e soldados. Mais adiante, no Evangelho, são essas as pessoas que responderão positivamente diante da pregação do próprio Jesus. Escrevendo para as comunidades pelos anos 80 a 85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devem estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis”, como o fizeram João e Jesus. A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam a João: “O que devemos fazer?”. Essa interrogação aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lucas 10,25 (na boca de um doutor da Lei) e 18,18 (uma pessoa importante); e também nos Atos dos Apóstolos 2,37 (os judeus, depois da pregação do Pedro), 16,30 (o carcereiro gentio de Filipos), 22,10 (Saulo, o perseguidor). Usando esse artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que constantemente tem de ser feita durante nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta. É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios ou práticas religiosas, como jejum e abstinência. Ele enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne de nosso ser: uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade. As Campanhas da Fraternidade seguem essa linha de João, pois, muitas vezes, é mais fácil abster-se de uma carne ou uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor. Esse trecho traz à tona, mais uma vez, um dos temas principais do Evangelho de Lucas: o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui prega antecipadamente o que, mais tarde, Jesus vai ensinar: a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos, a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida. A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus. João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos dos Apóstolos, capítulo 2 (na história de Pentecostes), como o fogo do Espírito Santo cumpre sua missão nas pessoas. O texto termina com a declaração de que “João anunciava, de muitos outros modos, a Boa Notícia ao povo” (vers. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará e que também merece ser tachado de “Boa Notícia”. A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus, de uma forma gratuita, mas que exige resposta decidida de cada pessoa. É a crise existencial do mundo todo: aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus. Para Lucas, essa decisão tem de ser renovada sempre, por meio da pergunta “O que devemos fazer?”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

3º Domingo do Advento

“Aplainai o caminho do Senhor”Jo 1,6-8.19-28 Novamente a figura central do Evangelho deste domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Desta vez, em um texto tirado do Evangelho do Discípulo Amado, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías (40,3). No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria: a vinda do Messias, Jesus de Nazaré! Nesse texto, já no primeiro capítulo do Evangelho de João, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus: as autoridades dos judeus. Embora, às vezes, no Quarto Evangelho, o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (Jo 3,25; 4,9.22, etc.), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende e, eventualmente, hostiliza a Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época: os sacerdotes, fariseus e escribas. Atrás do texto, também dá para entrever a tensão que existia dentro da comunidade do Discípulo Amado entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Por isso a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus. No mais, o Evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1,1-8), um convite para que todos nós preparemos o caminho do Senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando de nossa vida tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas também há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo o que possa diminuir a vida humana, tudo o que causa sofrimento a nossos irmãos e irmãs. Pois o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social, muito mais do que a soma dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos de Deus. A voz do Precursor, como a de Isaías, quinhentos anos antes dele, nos desafia para que nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno, o mundo que Jesus veio estabelecer. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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