Buscadores de poços

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 3º Domingo da Quaresma. A famosa passagem do encontro de Jesus com a Samaritana, texto riquíssimo em ensinamentos, está em João 4,5-42.
Quaresma: tempo privilegiado para evangelizar nossas raízes interiores

“Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto” (Lc 13,8) “E Deus viu que tudo era muito bom”: este é lema da Campanha da Fraternidade deste ano que nos provoca e amplia nossa visão em direção à grandeza da Criação, Casa Comum de todos. A preocupação pela vivência de uma “Ecologia integral” não é opcional para quem deseja viver o seguimento de Jesus; é missão de todos nós. “Ser protetores da obra de Deus é parte essencial de uma existência virtuosa, não consiste em algo opcional nem em um aspecto secundário da experiência cristã” (Laudato si’, n. 217). O decisivo é que seja uma “ecologia com Espírito”, motivada por Ele, alentada e inspirada por Ele e seu projeto de novos céus e nova terra. Na experiência espiritual da Quaresma, nos é pedido que, junto com Jesus, mergulhemos os pés no “chão da vida”, como as raízes na obscuridade, na vivência do deserto. O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio. Sentir que somos Terra faz-nos ter os pés no chão da vida e viver em comunhão com a comunidade das criaturas. A hora é de somar em prol da vida e no cuidado de todos os seres da Terra. Avançamos no percurso quaresmal. A parábola da figueira, indicada para este terceiro domingo, não visa dar “lição de moral”; ela nos oferece imagens que devem se projetar sobre nossa interioridade, transformando assim todas as imagens negativas que nos impedem viver com mais leveza. Essas imagens negativas muitas vezes se expressam com palavras como estas: “nunca serei nada”; “sou um caso perdido”; “há algo de errado comigo”; “todos esses esforços não vão dar em nada”; “não consigo sair dessa situação e progredir”. Cada um de nós conhece esses sentimentos de decepção e nos perguntamos: Qual o sentido da nossa vida? A quem ela serve? Será que não estamos ocupando o lugar de outra pessoa? Duvidamos do nosso direito de ser. Algumas pessoas então, chegam à amarga conclusão: seria melhor se nem existisse, sou apenas um peso na vida dos outros. O processo de conversão, a qual Jesus se refere, é um caminho existencial, uma viagem ao centro da Fonte que nos nutre e nos lança à vida, onde está toda nossa potencialidade como reflexo do ato criador de Deus em nossas entranhas. Portanto, a “con-versão” é ir descobrindo uma nova consciência até conectar com nossa “versão” mais original, nossa identidade; um caminho que requer paciência, lucidez, confiança, desejar vincular-nos com o dinamismo profundo que nos impulsiona a sermos mais humanos. Não é um caminho de busca da salvação-plenitude como recompensa, mas da encarnação dessa salvação-plenitude que já faz parte da nossa essência e que requer conectar-nos com o tempo de Deus, tempo de paciência e confiança no “melhor” do ser humano. Não temos de esperar nada de fora; Deus já nos deu tudo; temos reservas de recursos nobres escondidos em nosso interior. A tarefa fundamental está em descobrir isso de nós mesmos. É um processo de despertar, de iluminação, de tomada de consciência de quem somos. “Converter-nos” é centrar-nos, retornando à essência de nossa fonte interior; ao mesmo tempo, é “des-centrar-nos”, sairmos de nós mesmos, deslocarmos em direção à realidade que nos cerca, transformando-a. Se não descobrimos que nosso caminho nos leva aos “aforas” da vida, não estaremos motivados para nenhuma mudança em nossa vida. Há, em todos nós, ricas potencialidades, recursos originais, dons inspiradores…, que nem suspeitamos e que ainda não encontraram maneiras de se expressarem. Mas, o Jardineiro divino nos conhece e, na sua paciência, sempre nos oferece novas oportunidades para que a nossa nobreza interior possa se fazer visível, através de uma vida comprometida e solidária. Este é o sentido da verdadeira conversão; esta não se reduz a alguns atos externos bons, jejuns, mortificações vazias, ritos expiatórios estéreis, penitências egoicas nas madrugadas da vida…, para mostrar nossa condição pecadora; tais posturas têm muito mais a ver com uma certa soberba escondida que utiliza a própria fragilidade para revelar um falso “deus” que tem prazer com o sofrimento e as mortificações humanas. E assim vamos nos afundando na lama de uma vida raquítica e distorcida, carregada de culpas e que nos deixa na mesma posição durante anos e anos. Deus não “comercializa” com ritos, práticas religiosas piegas, devocionismos alienantes, que nos distanciam da realidade e do compromisso solidário com os outros. Esta sim que é a esterilidade da figueira, ou seja, toda uma vida plantada no mesmo lugar e inútil para a vinha. Somos “figueiras” chamadas a dar fruto, um fruto em formato de respeito à dignidade, à liberdade e valor de cada ser humano, de uma nova visão sobre cada rincão do planeta Terra que hoje necessita muita solidariedade, generosidade e compromisso. Neste cenário, alimentamos uma presença inspiradora frente às vítimas da atrocidade humana que nos envolve: ódio, intolerância, violência, preconceito, insensibilidade social e ecológica… Identificados com Jesus, somos chamados a viver com mais “radicalidade”; e “radicalidade” significa ser suportado, carregado e alimentado por uma raiz que está plantada fundo no chão da vida. É como uma árvore que se apoia, se sustenta e se alimenta das suas raízes. Radical é aquele que vive perto da raiz, que se alimenta da raiz, que toma as coisas pela raiz, pelo fundamento. Quando dizemos que os homens e as mulheres espirituais costumam ser radicais, queremos mencionar, em primeiro lugar, esta proximidade junto à terra e ao húmus, esse enraizamento profundo que alimenta a vida, que sustenta o tronco e a copa da árvore em todo e qualquer tempo, dando-lhe firmeza e consistência. A dificuldade para entender o que é radicalidade vem da postura fundamental da nossa cultura pós-moderna que é muito pouco radical e profunda. Nós mal fincamos raízes em algo ou em algum lugar. Em geral, vivemos na superfície, no cultivo da aparência, na distração fundamental. “Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto.” A
Jesus, o homem das “grandes viradas”

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 3º Domingo da Quaresma, narrado em João 2,13-25.
A samaritana: de que temos sede?

“E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14) Nestes próximos três domingos da Quaresma, a liturgia nos apresenta três grandes relatos do evangelho de João: a samaritana, o cego de nascimento e a revivificação de Lázaro. A expressão “Eu sou”, característico do quarto evangelho, se encontra nestas três cenas: “eu sou a Água viva”, “eu sou a Luz”, “eu sou a Vida”. São imagens-símbolo que desvelam e nos ajudam a compreender a verdadeira identidade de Jesus; ao mesmo tempo, são imagens que também revelam nossa identidade. É no encontro destas duas identidades que se fundamenta o sentido profundo do seguimento de Jesus. A Quaresma se apresenta como momento oportuno para enraizar nossa vida n’Aquele que “morreu de tanto viver”; afinal, somos seguidores de uma Pessoa e não de uma religião, de uma doutrina… Seguir Jesus implica tornar visível em nossa vida o modo de ser e viver d’Aquele que foi o “biófilo”: amigo da vida. O relato deste domingo – encontro de Jesus com a samaritana – é uma verdadeira catequese, que nos convida ao seguimento d’Aquele que é a Fonte da Vida. Nem no templo, nem em Jerusalém, nem em nenhum outro lugar se pode viver o verdadeiro culto, que se revela como encontro e identificação com Jesus. Muitas vezes, o que entendemos por prestar culto é apenas idolatria: a tentativa de domesticar e manipular Deus segundo os nossos interesses. Uma mulher da Samaria chega a um poço para tirar água, alheia a tudo o que ali a espera e distraída na trivialidade de sua vida cotidiana que não se abre ao imprevisível: vai só buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele cheio. Não há mais expectativas, nem mais planos, nem mais desejos. Mas o imprevisível está lhe esperando na pessoa daquele galileu sentado na beira do poço e que inicia uma conversação com ela sobre coisas banais, talvez para não a assustar: falam de água e de sede, de poços e de velhas rixas entre os povos vizinhos, coisas de todos os dias. Repentinamente, irrompe a linguagem “das coisas do alto”, o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede pacificada para sempre, um Deus em busca do ser humano, fora dos espaços estreitos de templos e santuários. E, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, fica esquecido junto ao poço, agora já inútil, pois não pode conter uma água viva. A sede da samaritana – e a de Jesus – é a mesma sede de todo ser humano: é insatisfação radical que não pode ser saciada por nada humano. A sede representa as necessidades e aspirações fundamentais do ser humano: sede de sentido e de plenitude, sede de comunhão e de encontro, sede de vida… Somos pessoas-sede! A sede é uma água que nos habita e nos dá vida. A sede é fundamental, essencial. O nosso coração é um “interminável reservatório de sede. Sede de amor. Sede de verdade. Sede de reconhecimento. Sede de razões de viver. Sede de um refúgio. Sede de novas palavras e de novas formas. Sede de justiça. Sede de humanidade autêntica. Sede de infinito” (José Tolentino Mendonça, Elogio da Sede). Como um bom pedagogo, Jesus acompanha a samaritana a descobrir o desejo de água fresca, a saudade humana de amor e felicidade. Em termos orantes, o ser humano, todos nós, temos “sede do Deus vivo” (Sl 42,3), que brota de nossa terra ressequida, rachada, sem água: suspiramos como a corça suspira pelas torrentes de água, por Deus. Só o Senhor nos conduz para as fontes tranquilas (Sl 22). Neste precioso e profundo relato do evangelho de João são tantos os temas que o autor vai alinhavando, a partir de diferentes níveis (histórico, simbólico, espiritual), que se torna impossível aprofundá-los em um breve comentário. A imagem da sede remete à nossa aspiração profunda, incapaz de ser saciada por nenhum objeto. A imagem da água, por sua vez, nos remete à nossa identidade original, que está brotando constantemente em nosso interior. Jesus aparece como o mestre que nos liberta de enganos e de falsas identificações, para que possamos entrar em contato com a “água viva” que Ele mesmo já saboreia, a única que torna possível “nunca mais ter sede”. Essa água não é “algo” – algum objeto que possa nos preencher – nem se encontra longe de nós. Constitui nosso núcleo mais profundo. O que normalmente acontece é que – como a samaritana – estamos longe dela. Ao viver “fora” de nós, desconectados da fonte, nos acontece aquilo que S. Agostinho lamentava: “Tarde te amei, beleza sempre antiga e sempre nova, tarde te amei! No entanto, Tu estavas dentro de mim e era eu quem estava fora”. O importante é saber que a “beleza sempre antiga e sempre nova” não é “algo” (ou “alguém”) separado de nós, embora possamos nos dirigir a ela em chave relacional, nomeando-a como um “Tu”. É outro nome da “água” de que falava Jesus, e constitui nossa identidade última, aquela na qual nos reconhecemos quando nossa mente se silencia; aquela que saboreamos quando, simplesmente, nos deixamos ser; aquela que está sempre a salvo e que, para além das aparências mentais, partilhamos com todos os seres. O encontro com Jesus move a samaritana, e nos convida também, a descobrir o manancial de água viva que flui em nossas entranhas em lugar de continuar sendo buscadores de “poços no deserto”. Jesus espera a samaritana, como espera cada um de nós, ali onde está a trama de nossa vida. Ele inicia sempre o encontro pedindo-nos daquilo que já recebemos, do que já temos… Junto a Sicar ou ao lado de nossos próprios poços… Não é preciso percorrer um caminho diferente, não pede a ela, nem a nós, ir a nenhum templo, nem lugar sagrado; nossa própria vida, com as circunstâncias nas quais vivemos, é o
3º Domingo da Quaresma

“Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”Lucas 13,1-9 Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas que também tem exigências para quem quer segui-lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais. O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas, referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações de outras fontes sobre esse acontecimento). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre o homem cego de nascença, no Evangelho de João (9,2): “Os discípulos perguntaram: ‘Mestre, quem foi que pecou para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?’”. É a “teologia da retribuição”, pela qual Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e os excluídos da sociedade são vistos como culpados de seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão antievangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa ou o dízimo são entendidos como “investimento” para receber retornos de Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus e não como, frequentemente, resultado da exploração e, ou, de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (vers. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo. Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, mediante uma vida digna de discípulos. Os versículos 6 a 9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes, as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados: como parábola de compaixão e como parábola de crise. Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim, toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (vers. 7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada para ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado ou correrem o risco de serem cortadas da vinha do Senhor. A Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas, muitas vezes, também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante de nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Por outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (vers. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros discípulos e discípulas de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo da Quaresma

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”João 2,13-25 Nosso texto relata, na tradição do Quarto Evangelho, um dos eventos mais conhecidos na vida de Jesus: a expulsão dos vendedores do Templo. No Quarto Evangelho, esse evento está situado no início da vida pública de Jesus, enquanto, no Evangelho mais antigo, Marcos, está situado no início de nossa “Semana Santa”. Assim, os dois autores relatam o acontecido segundo o esquema de seus escritos, mas ambos trazem uma mensagem bem clara: o que vai finalmente levar Jesus à morte é seu conflito com as autoridades do Templo. Estas se sentiram ameaçadas em seu poder político, religioso e econômico pela pregação e atuação libertadora de Jesus, que revelava o verdadeiro rosto de Deus e seu projeto de vida plena, ofuscados pelo ritualismo de exploração por parte da classe sacerdotal de Jerusalém, aliada ao poder opressor romano. Para João, esse conflito estoura desde o início da vida pública de Jesus. Para Marcos, o evento é a gota d’água que desencadeou o conluio que levaria Jesus à Cruz. Na cena apresentada pelo texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João; nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), a vida pública de Jesus só durou um ano, e eles só mencionam uma Páscoa. No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, Ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos ritos judaicos no sinal das bodas de Caná, aqui Ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu seu sentido. Pois a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante residirá em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem um templo que fosse nacionalista e explorador econômico do povo (Jeremias 7,11-14; Zacarias 14,20-21). João entende que o verdadeiro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias. Ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mateus 26,61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como também vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias. Mais uma vez, Jesus, por uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o Templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, sua religião era vazia, pois escondia o rosto amoroso e misericordioso de Deus. As Igrejas sempre correm esse mesmo risco. Além da descarada exploração financeira de seus fiéis por parte de algumas seitas e pregadores (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça em nossa Igreja!), aos poucos, muitas comunidades cristãs perderam sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu anos atrás o Frei Betto, a religião assim “Brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (O Estado de São Paulo, 3-11-1999). Assim, o texto de hoje nos traz um alerta: Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração. Ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Uma religião que abandona sua função profética é tão traidora quanto a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, as vozes dos papas Francisco e Bento XVI, do arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos de que a religião não se confina à sacristia, mas tem de levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. Aproveitemos o “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo, de ser uma prática bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.