Deus perdoa em nós

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 24º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 18,21-35.
Os “perdidos” em nosso interior

O cap. 15 do evangelho de Lucas é conhecido como o “Evangelho dos perdidos”. A experiência de perda marca a nossa existência de várias formas. Perdemo-nos do Pai e da casa paterna; perdemo-nos na fraternidade; perdemo-nos no tempo e nas decisões da vida… As parábolas dos perdidos colocam nossa vida em questão. Na verdade, dentro de nós não existem só coisas belas, harmoniosas e resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muita matéria por esclarecer, patologias, repressões…; há feridas para serem curadas, dimensões por reconciliar, memórias dolorosas que precisam ser relidas sob outra luz; fracassos que pesam e alimentam culpas… Uma multidão de “perdidos” nos habita, esperando uma ocasião para serem acolhidos e integrados. As parábolas do evangelho deste dia nos colocam diante desta pergunta: “o que está perdido em mim?” É preciso tomar consciência da ovelha, da moeda e do filho perdidos em nosso interior. São símbolos de nossa fragilidade, vulnerabilidade, pobreza…, enfim, expressão de nossa condição humana. Cada um dos perdidos pode revelar recursos, dons… que não foram valorizados. A moeda significa riqueza, mas que está perdida em nossa própria casa; o filho, revela a continuidade da descendência, mas que está afastado. É preciso redescobrir (desvelar), no próprio interior, a presença do pastor, da mulher e do pai. Eles são como que os pontos nutrientes, iluminantes e terapêuticos encontrados em nosso “eu profundo”. Cada um deles revela uma presença diferenciada em relação ao que está perdido. O pastor deixa transparecer o seu cuidado e a iniciativa de sair do próprio redil para ir em busca da ovelha perdida. A mulher revela desvelo no cuidado da própria casa para encontrar a moeda. O pai misericordioso revela paciência e espera o retorno do filho que se perdera, acolhendo-o e integrando-o à família. Por outro lado, habitam também no nosso interior os fariseus e mestres da lei que, tendo a lei na mão, emitem juízos, não acolhem as ovelhas, as moedas e o filho perdido de nossas vidas. Não abrem espaço para a misericórdia. São inquisidores porque perfeccionistas, e não conseguem integrar os limites e fragilidades de nossa vida. Isso requer “humildade” para sair da segurança do redil e ir atrás de tudo aquilo que foi excluído de nossa vida, devido a uma cobrança interior de perfeição. Quando alguém desce em direção à sua “condição humana”, tudo acolhe e tudo integra, vive um processo de humanização plenificante. Nesta perspectiva, o desgarrado e o perdido desvelam a realidade onde Deus atua e revela seu rosto misericordioso. Exatamente onde existe fraqueza, perda, vulnerabilidade, talvez seja o “lugar mais sagrado”, aquele que exige mais acolhida e cuidado, para ser transformado pela misericórdia. A tradição moralista e legalista nos ensinou a alimentar um conflito entre o pastor e a ovelha que se perdera; do mesmo modo, conflito entre a mulher e a moeda; ou, conflito entre o pai e o filho que se afastara. Tal tradição moralista deu peso maior às limitações e fragilidades, alimentando culpa, remorso…, esquecendo-se de despertar nossa atenção para as dimensões mais ricas do nosso interior: o pastor cuidadoso, a mulher zelosa, o pai festeiro. Nesse contexto, queremos dar um destaque às duas pequenas parábolas do evangelho de hoje, pois elas têm um sabor todo especial. Diferentemente das outras, elas falam de uma perda interior, quase íntima: há uma parte do tesouro que se perde dentro da própria casa. Prestemos atenção: a mulher não perdeu tudo, nem a maior parte sequer; de dez moedas, ela perdeu uma; o pastor não perdeu tudo, apenas uma ovelha. Mas quem vive essa perda percebe o que isso representa: um esfriamento, um abrandamento, uma quebra na inteireza de vida, na unidade ampla do sim de amor que nos constitui. Tendo perdido uma ovelha, uma moeda, a vida continua, mas não da mesma maneira. A mulher que perdera uma moeda, no entanto, não se acomodou, pensando que ainda ficaria com nove moedas: decidiu procurar a parte perdida do seu tesouro. Ela não culpou ninguém pela perda, não ficou de mau humor, nem deprimida…, mas também não se deixou ficar de braços cruzados. Não se lamentou pelo acontecido, mas tomou a iniciativa de acender a luz, varrer, limpar, aclarar… “Buscar cuidadosamente”, ensina a mulher da parábola. Nós também temos de ir ao fundo e procurar a raiz daquilo que tira nossa vitalidade espiritual; talvez um medo terrível, uma insegurança fundamental, uma falta de confiança, uma perda de sentido… A mulher e o pastor das parábolas não ficam lamentando a “perda” da moeda ou da ovelha. A perda pode ser ocasião para um novo movimento, para conhecer outras dimensões da casa ou dos prados. O Evangelho deixa claro: é “proibido queixar-se”. A vida não é lamento, é expressão de nossas melhores qualidades, de nossos recursos internos. A queixa bloqueia nossa potencialidade e não deixa emergir o melhor que há em nós. A atitude é rebaixada durante a queixa, o tórax se comprime e o coração se encolhe. Isso é morte, não é vida. A vida, no entanto, é abertura, aventura, encontro, é possibilidade, é vontade de estar bem. A queixa torna a vida pesada e difícil; ela é inútil pois trava os melhores recursos vitais. É preciso passar da queixa à solução, do lamento à busca de uma nova possibilidade. Cada dia, a vida traz sua surpresa; cada dia amanhece um novo sol. A espiritualidade cristã alimenta uma integração entre as duas dimensões: pastor e ovelha, mulher e moeda, pai e filho. São dimensões encontradas em nosso próprio interior. A espiritualidade não significa alimentar um combate que desgasta, mas possibilitar um encontro entre as duas realidades. Nada se perde, tudo se pacifica e tudo desemboca na alegria festiva. Há sempre uma nova aprendizagem que brota do encontro com o que está mais frágil. O pastor também aprende ao acolher a ovelha perdida, pois é no encontro com ela que desperta o seu ser cuidadoso. A mulher aprende ao encontrar a moeda perdida, pois passa a tomar consciência mais profunda da sua própria casa; ao varrê-la, vai conhecendo
24º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga” Marcos 8,27-35 Como Evangelho de hoje, temos a história do caminho de Cesareia de Filipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no Evangelho de Marcos, capítulo 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho. A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Assim, chovem respostas, pois essa pergunta não compromete (é o “diz que…”). Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, compromete-se. Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou. Afirmou que foi por uma revelação do Pai que Pedro fez sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o versículo 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer. Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo e as expectativas do povo de seu tempo, inclusive os discípulos. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, que teria como consequência ser preso, torturado e assassinado, e dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Homem”, que vem de Daniel (7,13ss), Jesus confirmou que era o Messias, mas não do jeito que Pedro esperava. Este, conforme as expectativas correntes em seu tempo, esperava um messias forte e dominador, não um que pudesse ir e levar com ele seus seguidores até a Cruz. Por isso Pedro contesta Jesus, pedindo que nada daquilo acontecesse. E, como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afaste-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (vers. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás, o Tentador por excelência. Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada. Usando nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis. Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (vers. 34). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, uma adesão à sua pessoa e missão, que leva ao seguimento dele na construção de seu projeto, até as últimas consequências. Hoje, 2 mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte; a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o bispo, mas para cada um de nós, pessoalmente. No fundo, a resposta se dá não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus, Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (João 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos doutrina e teoria certas, mas a prática errada. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
24º Domingo do Tempo Comum

“Não lhe digo sete vezes, mas até setenta vezes sete”(Mt 18,21-35) Este texto trata do último dos problemas comunitários no discurso do capítulo 18: o perdão. Mais uma vez, é Pedro que articula em palavras o desafio cristão, “Quantas vezes devo perdoar o meu irmão?”, e responde ele mesmo, sugerindo “sete vezes”, com certeza achando que agir assim seria um exagero. Mas, para Jesus, não basta o discípulo agir segundo os critérios deste mundo, nosso modelo de ação sempre deve ser o Pai. Por isso exige “não somente sete vezes, mas setenta vezes sete”, ou seja, para quem realmente quer se modelar em Deus, o perdão tem de ser sem limites. A frase lapidar é tirada da tradição comum que Mateus partilha com Lucas (17,4), mas Mateus acrescenta a parábola dos servos, para ilustrar a necessidade da misericórdia sem fim. A ideia básica inverte a posição sangrenta e vingativa de Lamec, em Gênesis (4,24): “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete!”. O cristão tem de deixar definitivamente por trás todo sentimento de vingança e assumir os novos valores do Reino de Deus, entre os quais tem lugar de destaque o perdão. A parábola provavelmente foi composta pelo autor mesmo, para ilustrar um dos pedidos do Pai-Nosso, “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Fazendo esse pedido, estamos querendo o perdão de Deus para que, experimentando-o, consigamos perdoar nossos devedores (originalmente se referiu realmente às dívidas financeiras, mas se aplica às ofensas em geral). Não é que o perdão de Deus depende do nosso; é sempre Deus que toma a iniciativa, e nós que respondemos. Mas somos capazes de render nulo o efeito do perdão do Pai se nós não queremos perdoar os outros. Assim, o Pai continua querendo nos perdoar, mas nós cortamos o efeito dessa gratuidade divina. Obviamente, o perdão envolve um processo todo, que abrange não apenas a parte espiritual, mas também psicológica da pessoa. Não se consegue eliminar os efeitos das ofensas de uma só vez. Mas o importante é o “querer” perdoar. O próprio desejo já é o perdão, pois é somente com a graça divina que nós conseguiremos perdoar mesmo. Mas, quando esse desejo é ausente, nem o perdão do Pai penetra a barreira que nós erguemos, e seu perdão fica sem frutos. A proposta do texto de hoje é além de nossas forças humanas, mas não além da possibilidade da graça divina. Por isso temos de sempre pedir o dom do perdão, conforme nos ensina a Oração do Senhor, para que nossas comunidades sejam verdadeiramente sinais do Reino e não meramente aglomerações de pessoas que partilham as mesmas teorias teológicas, mas sem que estas influenciem em sua vivência, em sua prática. De nossa parte, exige-se esforço, e Deus dará a força, para que vivamos conforme o desafio do Sermão da Montanha: “Sejam perfeitos como o Pai do Céu de vocês é perfeito” (Mt 5,48). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD