Peregrinos no deserto da vida

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 1º Domingo da Quaresma, narrado em Lucas 4,1-13.

Quaresma: de que temos fome?

“Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4) O primeiro domingo da Quaresma nos des-loca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “fomes que desumanizam”: “pão do ego”, “poder auto-centrado”, “vaidade estéril”. Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado…”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses… O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”. As tentações foram uma ocasião privilegiada para Jesus ativar as “grandes fomes que humanizam”: fome de vida doada, fome do Reino, fome de comunhão, de pão partilhado, de compromisso solidário… Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; agora, tratava-se de buscar os meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio não são “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época. À luz do discernimento de Jesus, também nós, durante esta Quaresma, seremos conduzidos pelo Espírito ao deserto interior para o despertar das “fomes” que nos tornam mais sensíveis, abertos à realidade, comprometidos na partilha do “pão”, que é dom e deve chegar a todos. A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano nos alerta para o drama da fome, escândalo e incoerência na vivência do seguimento de Jesus. Sabemos que a fome e a sede são mecanismos fundamentais dos seres vivos. Todo ser vivente necessita nutrição e hidratação, mas, nos seres humanos, estas necessidades biológicas têm caráter social. Em muitas culturas humanas, compartilhar o alimento e a bebida revela-se como gesto de socialização e de integração. Na experiência cristã, esta necessidade vital é transladada ao campo da fé: o alimento é dom do Criador para todos. O problema crônico da atualidade não é unicamente a satisfação das necessidades básicas, mas também o despertar de uma consciência que exija a justa distribuição dos recursos naturais, para que a humanidade cultive o melhor de si mesma e viva a solidariedade e a justiça como um projeto social alternativo frente às políticas egoístas e concentradoras de bens. A CF nos revela que a fome tem várias raízes (escassez de recursos, alterações climáticas, subdesenvol-vimento de alguns povos…); no entanto, em sentido mais profundo, ela provém de duas causas principais: a) o egoísmo de grupos e indivíduos, que se apropriam dos recursos de todos e não partilham seus produtos; b) a injustiça de um sistema político e econômico que não se preocupa com o bem comum. Ter alimento faz parte dos direitos fundamentais de toda pessoa, um direito que deve ser garantido pelo Estado. A pedagogia quaresmal, portanto,nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade.  Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à “Terra prometida” onde há fartura de pão. Por isso, é preciso ampliar nosso interior para despertar outras fomes. O lema da CF – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de “alimentos humanizadores”: compaixão, desejos nobres, dons originais, criatividade, espírito de busca… São alimentos que plenificam e dão sabor à nossa vida. É preciso extraí-los e multiplicá-los para que a fome de sentido e de esperança das pessoas seja saciada. Ninguém tem o direito de armazenar nos seus celeiros o “trigo” doado por Aquele que é fonte de todo “alimento salutar”. Afinal, alimento guardado é alimento que apodrece. Vida partilhada é vida abundante. Com frequência, nossa existência humana parece uma corrida em busca daquilo que nos sacia de um modo definitivo. Nesta corrida, aparecem muitos elementos que nos são familiares: necessidades, ansiedade, insegurança, vazio, insatisfação… Todos eles, à primeira vista, nos fazem tomar consciência que somos seres carentes. Seria, pois, essa carência aquela que nos movimenta na busca de algo para preencher nosso vazio? De fato, o ser humano é um ser insaciável, insatisfeito… vive eternamente buscando, muitas vezes sem saber o quê. Em contato com o seu interior, sente a necessidade de preenchê-lo a qualquer preço; na maioria das vezes, preenche-o com “coisas”: busca de poder, posses, prestígio, pão que se perde… e sente-se frustrado, porque nada  lhe satisfaz. Não são as “coisas exteriores” que nos tentam. O que nos tenta é a maneira injusta, perversa com o qual utilizamos as coisas, o espírito com o qual vivemos a nossa vida. Só o Pão da Palavra pode preencher nosso interior; só um alimento nos plenifica: “fazer a Vontade do Pai”. Aqui, também é preciso nos perguntar: – qual é a nossa tentação? O que é que nos seduz? Nossa liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das “tentações de Jesus” des-vela (distingue, põe às claras…) os dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos… que se fazem presentes em nosso interior (um de alargamento ou expansão de nós mesmos em direção aos outros e de Deus; e outro de fechamento, auto-centramento, resistência e medo). A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito. “Dai-lhes vós mesmos de comer”: este apelo nos inquieta, ativa nossa sensibilidade

1º Domingo da Quaresma

“Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”Lucas 4,1-13 O texto expressa a luta interna de Jesus (que, na realidade, deu-se ao longo de sua vida pública) para discernir o caminho a seguir, após assumir sua missão no batismo. Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé. A experiência de Jesus é como a nossa: entre nosso compromisso com o projeto de Deus e sua vivência prática, existem muitas tentações. Jesus estava “repleto do Espírito Santo” e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”. O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora do Filho de Deus durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio nos momentos difíceis da vivência de sua fé. As tentações são as mesmas que enfrentamos em nossa caminhada da fé hoje. Primeiramente, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Aqui é a tentação do “prazer”, logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa de sua missão, Jesus é tentado a escapar. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, em uma sociedade que cria necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, na qual a regra é “se quiser, faça!”, em que o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (vers. 4). Vivemos de pão, mas não só. Jesus não é contra o necessário para viver dignamente, mas salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade e sim a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais; precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena. Jesus desautoriza tanto os que buscam sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, a justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. A tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos e leigas, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também enfrentou essa tentação. Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social, Jesus afirma: “Tu adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz… Quanta aliança entre a cruz e a espada; a América Latina que o diga! Ainda hoje, enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1,25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte” (1 Coríntios 1,27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarear sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI, que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja. Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação: o poder existe somente para servir o bem comum. Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as do mundo moderno: o ter, o poder e o prazer. Todas as coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos-missionários, discípulas-missionárias. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

1º Domingo da Quaresma

“Durante quarenta dias, no deserto, Ele foi tentado por satanás”Mc 1,12-15 Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto. Marcos, de uma forma resumida; Mateus e Lucas, mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra ou de uma maneira fundamentalista. Uma coisa logo chama a atenção: nos três evangelhos, as tentações vêm logo após o batismo de Jesus. O batismo significa o assumir público de sua identidade e missão, como Servo de Javé. Logo após esse compromisso, Ele tem de enfrentar as tentações. Aqui, a experiência de Jesus é como a nossa própria: nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas, entre nosso compromisso e nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações. Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora dele, durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência de sua fé. O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4,1-14) pode nos ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos em nossa caminhada de fé hoje. Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer”. Logo que enfrenta um sacrifício por causa de sua opção, Jesus é tentado a escapar dele. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, criando necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Pois vivemos em uma sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. É só olhar o número de casamentos que fracassam diante da primeira crise ou a quantidade de seminaristas, religiosos, religiosas e padres que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar seus votos ou de serem ordenados, diante de uma sentida falta de “autorrealização imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver dignamente, mas salienta, muito bem, que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais; ambos são necessários para que se tenha a vida plena. Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. De novo, algo muito atual. Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. Como sempre, a tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Isso sem falar das pregações midiáticas que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua bênção. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve de enfrentar essa tentação. Ele, que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos sofredores, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando a justiça social, Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz? Quanta aliança entre a cruz e a espada (a América Latina que o diga)! Ainda hoje, todos nós enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarificar sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentará o Senhor seu Deus” (v. 12). Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as tentações do mundo moderno (o ter, o poder e o prazer). Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos. O relato de Lucas nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (Lc 4,8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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