Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 18º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 14,13-21.
“A vida é tão rara!”

“A vida não consiste na abundância de bens”Lucas 12,13-21 Na sua itinerância, Jesus se depara com situações inesperadas e que não têm nada a ver com o sentido de sua missão. Mas, como bom pedagogo, Ele aproveita de todas elas para mover as pessoas na direção do verdadeiro sentido da existência. Como sabemos, as heranças sempre suscitam problemas e conflitos. E alguém, que devia se sentir prejudicado, pede a mediação de Jesus para conseguir uma melhor partilha dos bens. Na sua resposta, destaca-se a liberdade de Jesus frente a esse tipo de questões, não só porque corta a petição pela raiz, mas pela parábola que narra a seguir. Nem Ele se considera “árbitro” em questões de herança, nem está preso pela cobiça. O que escutamos dele é o ensinamento de um mestre livre que quer mostrar o caminho da verdadeira “riqueza”. Todos temos experiência da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como verdade – de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Para Jesus Cristo, a primeira e maior tentação do coração humano é a “cobiça de riqueza”.Uma vez presos à cobiça, caminhamos, irremediavelmente, para a solidão, para o autocentramento e desprezo dos outros. Na parábola de hoje, o rico fazendeiro, em seu monólogo, revela o seu ideal de vida: acumular, ter vida longa, vida assegurada… Em seu horizonte de vida, há uma terrível solidão: parece não ter esposa, filhos ou amigos. Não pensa nos camponeses que trabalham em suas terras. Seus verbos preferidos: acumular, armazenar e aumentar seu bem-estar material. Só se preocupa em “amassar riquezas para si”; todo o relato insiste no uso dos pronomes possessivos: minha colheita, meus celeiros, meus bens, minha vida… Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-o de toda dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar. Que há de humano nesse tipo de vida? A vida desse rico é um fracasso e uma insensatez, pois sua falsa segurança na posse dos bens vem abaixo. Quem vive centrado em si mesmo perde a vida; quem vive para o eu não é rico diante de Deus. No percurso da vida humana, surgem oportunidades em que a pessoa abre os olhos e se diz a si mesma, com enorme espanto: “na realidade, não fiz outra coisa que viver para mim mesmo”. Com as riquezas, com os saberes, com os próprios recursos ou o que for, ela se dá conta de que viveu “entesourando para si” e, de repente, essa forma de viver se revela como infecunda e sem sentido. É um momento privilegiado que pode ser muito duro e, ao mesmo tempo, muito fecundo, quando consegue sair dessa “situação viscosa” e centrar sua segurança em deixar-se conduzir pela mão providente de Deus (“ser rico para Deus”). Sentirá a experiência de que foi tirada de sua “pasta egoica” pela mão de Deus e brotará em sua vida uma nova melodia de saída de si em direção à fraternidade, à partilha, ao encontro com o outro… A eterna tentação da cobiça esconde uma necessidade, mais ou menos doentia, de segurança. Dado que o ser humano não pode renunciar à segurança, a questão é saber onde ele coloca sua segurança. Ao longo de nossa existência, é provável que o “lugar” onde a situamos vai se modificando: os pais, os amigos, os grupos, a profissão, a saúde, o dinheiro, as posses, as crenças, o prestígio… O problema não se enraíza no fato de sentir necessidade de segurança, mas na ignorância à hora de querer afirmá-la. Colocar a segurança em qualquer realidade passageira é garantir a decepção, a frustração e o sofrimento. Essa é a primeira ignorância, porque nos faz tomar como “seguro” o que é transitório. No Evangelho deste domingo, Jesus usa a palavra “néscio” para referir-se a quem atua assim. Tal termo vem do verbo latino “nescio”, que significa literalmente “não sei”. “Néscio” é quem confunde o ter com o ser. “Néscio” é aquele que não sabe o que faz, aquele que vive perdido e ofuscado na ignorância e, em último termo, na inconsciência. Isso é viver identificado com o “ego”, na falsa ilusão de que essa é sua verdadeira identidade. Agimos mal, a partir da cobiça, dos apegos a coisas e bens, da segurança em acumular… porque desconhecemos nossa riqueza interior, nossos recursos mais nobres, nossos dons mais originais… Perdemos o caminho do coração e “ajuntamos tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem…”. No fundo, o Evangelho deste domingo nos situa diante do grande dilema do “sentido de nossa existência”: para que vivemos? Sobre que valores queremos construir nossa vida?… O ser humano não é só um “animal racional”,ou um “animal afetivo”,mas é também um “animal de sentido”,o que é uma definição muito mais profunda. Ele precisa de um “sentido” para viver. E precisa disso tanto ou mais que os bens materiais necessários para sua vida. Sem sentido, sua vida se torna simplesmente sofrível, insuportável. Uma pessoa espiritualmente anêmica enche sua existência com coisas e posses, mas isso não faz mais que aumentar sua sensação de vazio existencial. De fato, para viver uma existência verdadeiramente humana, é preciso cumulá-la de sentido,evitando que ela caia no vazio ou no absurdo. O ser humano tem necessidade de uma causa pela qual viver, de canalizar todas as suas forças, seus desejos, energias, impulsos vitais e recursos internos e externos em direção a um horizonte de sentido, no qual acredita intensamente (“ser rico para Deus”), e nele investir tudo o que é e possui, com intensa paixão. Aqueles que são movidos por uma forte paixão, apostam que o ser humano tem potencial criador e foi feito para voar alto, para tentar, mil e uma vezes, alcançar cumes distantes. Todo o percurso dos Evangelhos visa a despertar em nós o “espírito de
18º Domingo do Tempo Comum

“Eu Sou o Pão da Vida”João 6,24-35 Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto capítulo de João. Esse capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O pão da vida”. No Antigo Testamento, muitas vezes, o termo “pão” é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, em Isaías (55,10-11); Amós (8,11-12) fala de fome, mas não fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus; A Sabedoria convida os simples a comerem de seu pão e beberem de seu vinho (Provérbios 9,5); Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclesiástico 15,4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Torá ou Lei (Deuteronômio 8,2-3). Podemos ligar essas ideias com capítulo 6 de João. Divisão do capítulo: 1-15: multiplicação e partilha dos pães; 16-21: Jesus anda sobre as águas; 22-24: situa o discurso; 25-29: introdução ao discurso; 30-40: discurso; 30-34: 1ª parte; 35-40: 2ª parte; 41-51: 2ª parte; 52-58: 3ª parte; 50: aparte; 60-61: reação e opção dos discípulos. O início do relato deixa claro que a multidão reconhece o poder de Jesus, mas é incapaz de entrar mais profundamente no sentido de seus sinais. Lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus (água transformada em vinho, em 2,1-12; a cura do filho do funcionário real, em 4,46-54; a cura de um paralítico na piscina, em 5,1-18; a partilha dos pães, em 6,1-15; o caminhar sobre as águas, em 6,16-21; a cura do cego de nascença, em 9,1-41; e a ressurreição de Lázaro, em 11,1-44), mas “sinais”, embora haja ainda edições da Bíblia que traduzem erradamente o termo. Com certeza, são “milagres”, mas João quer enfatizar o fato de serem sinais, ou seja, que devemos aprofundar o que eles querem nos ensinar sobre a identidade e missão de Jesus. O povo busca as vantagens imediatas que pode receber de Jesus, corre atrás dos milagres, mas não entende o sentido do sinal que cada milagre mostra. Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras dele como sinais que demonstram uma verdade mais profunda, que Ele é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu, e os sinais que Jesus opera garantem sua origem e sua missão. Ele quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece nele. A turba quer saber de um sinal para que possa “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão de João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar somente nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus confirme suas expectativas messiânicas, realizando milagres, e não entende a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas. Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”, e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer nele é participar da verdadeira vida. Nesse trecho, encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou”, o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êxodo 3,14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato de que a verdadeira vida só se acha nele. Hoje esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por ele e por seu projeto, o projeto daquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
18º Domingo do Tempo Comum

“Dai-lhes vós mesmos de comer”Mt 14,13-21 O Evangelho de hoje vem logo após a história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário do tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta o “banquete da morte”, promovido por Herodes, com o “banquete da vida”, protagonizado por Jesus. O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado em todos os quatro evangelhos. Isso aponta para a importância dada nas primeiras comunidades a esse relato, tanto que sua memória persistiu não somente nas comunidades da tradição sinótica (Marcos, Mateus e Lucas), mas também na comunidade do Discípulo Amado. Mesmo fazendo uma leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Mt 14,13-21; Jo 6,1-15), alguns elementos importantes soltam aos olhos: a reação dos discípulos diante do problema da fome da multidão. Nos sinóticos, a solução sugerida por eles foi a de despedir a turba, para que pudesse comprar pão. Assim, ignoraram a situação dos que não tinham possibilidade de comprar. É a solução de muita gente hoje, diante do escândalo da pobreza no mundo: que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução”: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se revela uma solução inadequada. Jesus insiste “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair em um assistencialismo. Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada numa nova proposta de vida, a da partilha. Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”. O motivo é simples. Se a ênfase caísse sobre o “multiplicar” milagroso, teria poucas consequências para os discípulos (nós, hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir”, porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que temos.O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos. Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26,26). Também concentra a atenção nos pães, pois, nesse relato, somente eles são distribuídos. Assim, o texto nos lembra que a participação eucarística exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida e não na acumulação da parte de alguns, junto com a falta do básico para muitos. O cristão não pode compactuar com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes, mas deve lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas de Jesus de Nazaré. O texto de hoje relê Êxodo 16 (sobre o maná), Números 11 (as codornas) e 2Rs 4,1-7.42-44 (em que Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto de Êxodo 16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos outros leva à podridão. É claro que, diante do enorme sofrimento da maioria da população do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram os discípulos no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que não devemos cair na cilada de aceitar as saídas falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica: ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado pela Eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós façamos o que é possível para a construção de um mundo de justiça e fraternidade. Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão dela e agiu. Com certeza, Ele olha hoje a situação de tantos irmãos e irmãs, e pede que seus seguidores façam algo para mudar a situação. É comum os jornais trazerem notícias do aumento assustador da fome no mundo, por causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços de alimentos básicos. Paira sobre nós, cristãos, o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vós mesmo de comer!”. O que significa isso na prática para mim, para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.