Nada pode destruir nosso ser essencial

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 12º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 10,26-36.
Medo ou confiança: quem determina nossa vida?

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31) Uma das grandes insistências de Jesus no Evangelho é, sem dúvida, esta: “não tenhais medo!”. Jesus sempre se revelou um profundo conhecedor da condição humana; percebeu claramente que muitas pessoas eram marcadas por tremendos medos, impedindo-as de viver com sentido e plenitude. Ele tinha plena consciência de que os maiores medos eram alimentados pela religião, centrada nas leis, nos ritos, nas doutrinas… gerando sentimentos de culpa e angústia diante do futuro. Pior ainda, eram os controladores da religião que manipulavam os medos, tendo o controle sobre as pessoas e impondo a imagem de um Deus que ameaça e castiga. É o chamado “poder de consciência” exercido pelas autoridades religiosas que tem feito e continua fazendo tantos “estragos” nas consciências dos indivíduos. Diante dessa dura realidade, Jesus sempre procurou despertar a esperança nas pessoas, alimentando um clima de confiança no Pai e da busca de vida plena: “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Medo e confiança são duas emoções fortes presentes no desenvolvimento do ser humano; dependendo de como alimentamos uma ou outra, assim será nossa vida: carregada de medo (atrofia, paralisia existencial…) ou de confiança (criatividade, mobilização dos melhores recursos internos, busca, inspiração…). O medo é o oposto da confiança. Os neurocientíficos confirmam que ambas as emoções usam as mesmas redes neuronais. Isso quer dizer que, alimentar o medo, consciente ou inconscientemente, significa solapar a possibilidade de confiar. O medo nos incapacita para a confiança, que é a atitude humana sobre a qual se assenta o dom da fé; o medo seca as fontes da esperança, impedindo-nos viver com prazer e alegria. Sabemos que o medo é uma emoção importante que nos permite detectar as ameaças e proteger-nos diante delas. Faz parte, portanto, de nosso equipamento biológico. Seu objetivo primeiro é defender-nos, seja fugindo, seja ativando energias para enfrentar a ameaça. O problema surge quando a ameaça não é real, mas fabricada e alimentada por nossa mente, como consequência de medos “herdados” através de gerações, de experiências infantis mais ou menos traumáticas ou da ignorância de quem realmente somos. O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. A intensidade do medo pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo. O medo nos acovarda e nos constrange, nos isola e nos obriga a viver na defensiva, em permanente estado de alerta. O medo é paralisante; o medo nos impede ser nós mesmos; o medo nos acovarda diante daqueles que não pensam como nós; o medo impede afirmar nossa identidade de seguidores(as) de Jesus. O medo nos mimetiza como alguns insetos que, diante do perigo, mudam de cor para não serem vistos e reconhecidos. O medo pode minar nossas esperanças, esvaziar a capacidade de amar, atrofiar a força de nossas ideias… Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor, nos bloqueia e nos enterra na acomodação mesquinha. O medo não só é explorado por empresas que se dedicam a todo tipo de seguros, mas também pelas religiões, que exploram seus seguidores, vendendo-lhes o “paraíso”, depois de ter-lhes infundido um medo irracional ao sagrado. Somos bombardeados constantemente por uma “pastoral do medo”, que continua tendo uma influência nefasta. Geralmente, os controladores das religiões tentam manipular a “divindade” para colocá-la a serviço de seus interesses egoístas. O medo induzido é o instrumento mais eficaz para dominar os outros. Historicamente, as autoridades religiosas utilizaram sempre desse expediente para conseguir a docilidade de seus súditos. Evangelicamente falando, o medo é sinal de que ainda não entramos na dinâmica do Reino, no caminho de Jesus; o medo nos faz refugiar numa fé alienante, que não arrisca nada, que não se compromete com nada, que não vai mais além de nossa autorrealização narcisista, fechados numa prática devocional estéril. Os medos não costumam apresentar-se de rosto descoberto; mascaram-se, porque são sintomas de debilidade; tornam-se vergonhosos para nós. Eles se disfarçam para se tornarem mais aceitáveis. Existem muitos medos escondidos por trás das atitudes tirânicas de rigidez, de legalismo, de intransigência ou de intolerância. Recorremos a eles para ocultar-nos e defender-nos contra o novo e o diferente. O Papa Francisco afirma que por detrás das atitudes intolerantes está o frio hálito do medo. O medo empurra na direção dos individualismos, dos fanatismos e das soluções que contemplam simplesmente os próprios interesses. O medo enche de sombras o horizonte, tornando impossível uma decisão clarividente e ordenada. O medo cega, agita a imaginação e precipita juízos e decisões, criando impedimentos sérios para a vivência da fraternidade e para a coragem de compreender a vida como doação de si para o bem dos outros. Quem é capaz de sentir compaixão, bondade, mansidão… não se deixa afetar pelo medo e nunca será fanático nem intolerante, nem intransigente… Frente a tais medos-fantasmas, criados e alimentados por uma mente temerosa e ignorante, a mensagem das pessoas sábias aparece marcada pela confiança. É o que percebemos em Jesus de Nazaré, quem, de maneira constante, insiste: “Não tenhais medo”! Confiai! A confiança brota da compreensão, da certeza de que aquilo que somos se encontra sempre a salvo. Nas palavras do próprio Jesus: “podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas da experiência profunda de quem é Deus para nós. Aceitar e acolher nossas limitações e descobrir nossas verdadeiras possibilidades é o único caminho para chegar à total confiança. Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um ser que está fora de nós
12º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga”Lucas 9,18-24 Aqui temos a versão lucana da profissão de fé de Pedro, que Marcos põe no caminho de Cesareia de Filipe (Marcos 8,27-35) e coloca como pivô de todo o seu Evangelho. Esse trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: “Quem é Jesus?”, “O que é ser discípulo dele?”. São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determina a maneira de meu seguimento dele. O Evangelho de Lucas situa o texto em um contexto diferente dos outros dois evangelhos sinóticos: diz que Jesus “estava rezando em um lugar retirado, e os discípulos estavam com ele”; enquanto, em Marcos e Mateus, o evento se dá na estrada de Cesareia de Filipe. Uma atitude típica de Jesus em Lucas. Muitas vezes, no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes em sua vida, Jesus se acha em oração. Pois Ele faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai. O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem as multidões que eu sou?”. É inócua, pois não compromete. O “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”. Mas Jesus não quer parar aqui (a pergunta foi só uma introdução). Depois vem a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer, não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal. Essa opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus” (os termos “Messias”, em hebraico, e “Cristo”, em grego, têm o mesmo sentido: o Ungido de Deus). Mas a reação de Jesus é, no mínimo, estranha: “Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele! Como ele espera angariar discípulos desse jeito? O assunto merece mais atenção. Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender esse termo conforme sua cabeça, seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante de seu tempo: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia” (versículo 22). Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum. Em geral, o pessoal esperava um messias triunfante, glorioso e guerreiro. O relato em Marcos (mas não a versão em Lucas) mostra-nos que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus e de ganhar do Mestre uma correção dura: “Fique atrás de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Marcos 8,33). Não basta ter os termos e títulos certos, mas o conteúdo certo. Normalmente todos nós temos os títulos certos para descrever Jesus e sua missão. Nós os aprendemos, desde a infância, desde a catequese para a primeiro comunhão. Mas o que significam esses títulos para nós, em nossa vivência diária? Professamos que Jesus é o Cristo, o Salvador, o Redentor, o Filho de Deus, mas em que minha vida é diferente porque tenho essa crença? Ele realmente é meu Senhor, meu Salvador, da maneira que procuro reproduzir e atualizar suas soluções e atitudes em minha vida, não somente no que crio, mas nas minhas atitudes na vida pública, profissional, familiar e social? A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas, na verdade, nós criamos Deus em nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. Nossa tendência é seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz não é aguentar qualquer sofrimento. Assim, a religião seria masoquismo. Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que ele faria se estivesse aqui hoje. Como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus light, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos. O texto faz ressoar, para cada um de nós, as duas perguntas de Jesus. É fácil responder ao que os homens dizem dele, o que dizem o Papa, o bispo, o catequista, os teólogos, a tevê. Mas essa pergunta não é tão importante. É a segunda que cada um tem de responder: “Quem é Jesus para mim?”. E a resposta vai se dar não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que
12º Domingo do Tempo Comum

“Quem é este homem?”Marcos 4,35-41 Esse texto está situado na primeira parte do Evangelho, na qual Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e seus discípulos não o compreendiam, apesar de verem suas obras e milagres (Marcos 1,19-8,21). Toda essa primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do Evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”. A história do evento no mar de Galileia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o Evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e, mesmo assim, não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta do Senhor. O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas Jesus acalmou o mar e ainda questionou a pouca fé dos Doze: “Por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (versículo 3). Assim Marcos quis mostrar aos leitores de seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando. Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição de sua influência, para muitos, a Igreja está se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam em uma religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Até diante da pessoa e da mensagem do Papa Francisco, muitos simpatizam com ele como pessoa, mas permanecem surdos a seus apelos em favor de um seguimento autêntico do Salvador. Marcos vem corrigir essa ideologia triunfalista de suas comunidades e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem”, e a segui-lo no dia a dia. Pois Jesus não está alheio às nossas dificuldades. Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé nele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar nossa cruz e segui-lo, na certeza de que Ele não nos abandonará. Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.