“De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” (Mt 22,20)
Estamos hoje frente a um texto evangélico muito conhecido e citado, ao mesmo tempo sugestivo e profundo, que pode nos interpelar se deixarmos de lado ideias preconcebidas ou interpretações malfeitas.
Ao ler com atenção os primeiros parágrafos deste evangelho, é possível que encontre eco em nós uma palavra, uma realidade, que muitas vezes passa desapercebida. Aqui se fala da “verdade”, do que realmente é verdadeiro, das intenções profundas e do uso que as pessoas e as autoridades religiosas fazem dessas expressões. Nesta cultura das “fake news”, a verdade está cada vez mais violentada, prostituída, escondida.
O evangelho fala dos fariseus e herodianos, que defendiam “verdades” diferentes frente ao tema do “tributo a César”, dissimulando-a, sacrificando-a, submetendo-a a interpretações pouco honestas, buscando somente prejudicar Jesus. Apresentam-lhe como busca da verdade o que não tem nada a ver com ela.
Isso que se passou há vinte séculos continua se fazendo presente em nossos contextos atuais. É cada vez mais clara uma sociedade insensível à verdade. É comum em nossos meios de comunicação e redes sociais relativizar, ignorar, inclusive falsear a verdade para que uma notícia venda, viralize nas redes ou prejudique o adversário. Não é preciso ser muito crítico para citar exemplos desses casos.
No entanto, é preciso dar um passo a mais e nos perguntar: pessoalmente, temos sacrificado a verdade, ou a temos calado para conseguir algo, para prejudicar alguém, ou para outros muitos interesses? Temos sido canais de transmissão de “fake news”, destruindo a reputação de pessoas ou de grupos? Somos daqueles que descobrem e desmascaram a mentira, como Jesus, ou daqueles que compactuam e se calam diante dela? Damos o devido valor à verdade ou é tão somente uma moeda de troca frente a outros valores?
Os fariseus e herodianos, sem acreditar sinceramente em Jesus, sem pretender dar-lhe o devido valor, mas tão somente bajulá-lo, dizem: “Sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade”. Reconhecem n’Ele uma pessoa sincera, fiel à verdade e, por isso, livre. Aqui recordamos o que o evangelho de João põe na boca de Jesus: “A verdade vos fará livres” (8,32); “Eu vim ao mundo para ser testemunha da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (18,37).
A mando dos sacerdotes e anciãos, fariseus e herodianos querem saber de Jesus se Ele é a favor ou contra o pagamento do imposto aos romanos, a César. Pergunta esperta, cheia de malícia! Sob a aparência de fidelidade à lei de Deus, buscam motivos para poder acusá-lo. Se Jesus dissesse: “Deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto ao povo como amigo dos romanos. Se ele dissesse: “Não deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto às autoridades romanas como subversivo. Parecia um beco sem saída.
Jesus, em sua resposta, desmascara a mentira e a hipocrisia daqueles que lhe estendem uma armadilha, ao pedir-lhes uma moeda. Todos carregavam no bolso o denário, a moeda que é o soldo diário com o qual cobriam suas necessidades. Todos estavam usando a moeda, apesar de que sua imagem era do “César”. De fato, aceitavam a moeda de César para poder viver. E aqui nos deslumbra a palavra de Jesus: “Pois, se é assim, se tendes o que é de César, devolvei a César o que é dele” (o verbo que Jesus usa “apodidômi”, não significa “dar”, mas “devolver”). Uma pista interessante para compreender a resposta de Jesus. Eram contra César, mas levavam sua moeda na bolsa.
Se fossem verdadeiros judeus, tinham que renunciar também a utilizar o dinheiro de Roma. Eles têm muitos escrúpulos para pagar o imposto, mas não para utilizar a moeda do império. Jesus os desmascara, pois a pergunta não tem sentido, já que eles tinham aceitado a soberania de Roma.
“Devolvei a César…”. Jesus não usa armas para combater contra o César, tampouco lhe obedece (não usa seu dinheiro), mas sai do espaço de seu domínio, para situar-se no espaço de vida e convivência onde o tributo a César é desnecessário. Aqueles que o tentam estão dispostos a usar a moeda de César. Pois bem, Jesus lhes diz para devolvê-la, de modo que não tenham nada que lhe dever, nada que lhe pagar. Não se trata, portanto, de lutar em guerra contra César (como faziam os zelotes), mas de devolver seu dinheiro a César, pois o Reino não se alcança com moedas.
A pergunta que é feita a Jesus em Jerusalém acontece no momento-chave de sua revelação messiânica, no contexto de máxima tensão com as autoridades religiosas. O sinal de fundo é o denário do tributo, que significativamente Jesus não carrega consigo, não por casualidade (como se tivesse esquecido de pegá-lo), mas por princípio, pois Ele mesmo pediu a seus discípulos que anunciassem o Reino sem dinheiro algum.
Essa proposta deve ser entendida à luz de todo o Evangelho; ela recebe um sentido mais preciso à luz de todo o ensinamento e conduta de Jesus, que não quis comprar com dinheiro os pães e os peixes das multiplicações, mas que pediu aos seus que partilhassem o que tinham.
Da mesma forma, lembremos o que Jesus disse ao jovem rico para que vendesse o que tinha, que repartisse o dinheiro entre os pobres, para iniciar um caminho no qual devem ser partilhados casas-campos-bens. Nesse contexto, o relato deste domingo centra a nossa atenção na relação entre o movimento de Jesus e o Império Romano.
A partir dessa introdução, na qual Jesus desmascara a falsidade e a hipocrisia dos fariseus, verbalizando que conhece suas intenções ocultas, aproveita para acrescentar aquilo que eles não perguntaram: “Devolvei a Deus o que é de Deus”. O ser humano é a verdadeira “imagem” de Deus, que não lhe impõe (imposto) pesados fardos, mas o liberta para que viva com mais intensidade. Ele quer que todos os seus filhos e filhas sintam-se livres de todo tipo de sujeição e domínio.
Jesus sempre foi muito livre perante o Templo, as leis, as tradições, os poderes… Por isso, os maiores conflitos foram com o Templo. Jesus desloca Deus do Templo para as margens e bate de frente com os encarregados do Templo.
São eles que cobram o imposto; e quem cobra imposto impõe: alimenta medo, manipula Deus, ameaça com a lei, controla o acesso a Deus no Templo. Não deixam Deus ser Deus e Pai, impedindo que os outros se sintam filhos e filhas d’Ele. É na liberdade que se tem acesso a Ele e não pagando impostos ao Templo.
Para Jesus, diante do Pai, somos filhos e não estrangeiros; e, como filhos, temos acesso livre a Ele e não através de impostos: leis, normas, ritos…
Mas, para não causar mais conflitos ainda com o Templo, Jesus pede a Pedro para “pescar” e pagar o imposto devido.
É lícito pagar ou não? Jesus superou essa alternativa. Não se trata de pagar ou não pagar, mas de situar-se numa dimensão mais alta de revelação de Deus, ou seja, de humanidade solidária, acima de uma economia e política fundada na posse da moeda. Jesus não aceita o tributo nem o rejeita, senão que supera esse plano monetário (pagar ou não pagar), pedindo que se devolva a Roma o dinheiro de seus impostos, para iniciar dessa maneira um caminho diferente de evangelho.
Não se trata de repartir atribuições, nem sequer com vantagens para Deus. Deus não compete com nenhum poder terreno, simplesmente porque Deus não atua a partir da categoria de poder.
Só Deus é o Senhor de nossas vidas e não compete com ridículos “césares”.
Não encontramos em Jesus a revelação do “Deus do poder” que se impõe, mas do “Deus do amor” que se expõe que se revela e se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não têm voz nem vez neste mundo, nas vítimas dos sistemas econômicos que matam.
Enfim, numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se ajusta ao que está estabelecido e, portanto, não desconcerta ninguém, é uma pessoa alienada, que passa pela vida sem ser provocadora e deixa tudo como está. Só desconcerta quem, na fidelidade ao Evangelho e à causa do Reino, rompe os esquemas fechados e estruturas de poder, transgride o excesso de normas, abre novos caminhos ainda não imaginados.
Texto bíblico: Mt 22,15-21
Na oração: quem é o “senhor” que move o meu coração? O “dinheiro” ou o Deus verdadeiro?
– Quais são os “césares” que habitam meu coração e que exigem pesados impostos, tirando-me o prazer de viver com mais inspiração?
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: Liudmila Chernetska (Istock).
