Tecendo relações em meio ao isolamento social

Alguns meses atrás, quem poderia imaginar as escolas funcionando de portas fechadas, com os alunos em suas casas e os professores também? Mesmo que as escolas da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo estejam bem equipadas com tecnologia de ponta, há muitas situações impostas pelo isolamento social com as quais é difícil de lidar. A pandemia do coronavírus trouxe uma mudança radical no cotidiano dos alunos e de suas famílias, como também no de educadores, sejam professores ou ligados à área administrativa. Para analisar a situação e buscar soluções para manter um ensino de qualidade e dialogar com as famílias, a equipe gestora dos colégios da Rede de Educação se reúne on-line diariamente. Nesse contexto, a equipe percebeu a necessidade do cuidado com as pessoas que passam por momentos de muito sofrimento. Daí surgiu o Projeto Tecendo Relações. Abraçado pela Dimensão Missionária, a iniciativa quer cuidar do emocional das pessoas durante a pandemia e pretende atingir quatro frentes: os alunos; os educadores, tanto administrativos como os professores; os familiares; e as obras sociais. Para isso são organizados encontros específicos para cada grupo. Irmã Maria de Fátima Marques, diretora-presidente da Rede de Educação, diz que, ao participar do projeto, pode perceber melhor o que significa para as pessoas viverem em isolamento social. Ela explica que, “mesmo estando no núcleo familiar, estamos cercados de mistério, de sentimentos de incerteza, de dúvidas, de insegurança” e, nos encontros on-line, os diálogos permitem uma vivência em que “as emoções afloram”. Ela identifica aspectos que aparecem com frequência: “O resgate da dimensão da família, a fé e a esperança, e a importância da equipe”. E acrescenta que o projeto ajuda a sustentar as pessoas neste momento de crise e a fortalecer o sentido de pertença como equipe da Rede de Educação. Agostinho Travençolo Júnior, coordenador da Dimensão Missionária das Escolas, assumiu o papel de mediador dos encontros on-line com os diferentes grupos. Ele considera o Tecer Relações como “um trabalho artesanal, pois se trata do fio que tece a vida, que tece as dores, que tece as nossas fragilidades e também os nossos sonhos”. “É um projeto de cuidado com a vida, em sua amplitude”, completa. “Criar esse canal, utilizando as ferramentas tecnológicas para que as pessoas possam falar um pouquinho de suas vidas, é muito importante e ajuda a fortalecer e abastecer as energias neste tempo de grandes desafios”, afirma. “Temos falado de questões muito essenciais da vida, que dizem respeito à nossa existência humana. As pessoas têm necessidade de falar sobre suas angústias, seus medos, seus afetos, suas preocupações e sua espiritualidade, o que, na verdade, torna todo mundo igual”, explica Agostinho. Os encontros são sempre uma surpresa. Os temas são variados, e cada grupo tem reações bem diferentes. Na avaliação do coordenador da Dimensão Missionária, as pessoas têm se surpreendido, no sentido de que o projeto convida a sair um pouco do trabalho, da rotina, para perceber que há gente se preocupando com elas, com seus familiares, com seus sentimentos. Agostinho confessa que conduzir os encontros tem sido gratificante. “Tem momentos que saio muito emotivo do contato que tenho com cada grupo”, conta. “Acho que temos deixado na vida das pessoas uma marca, possibilitando essa janela em que a gente pode ouvir a alma das pessoas, na qual pode ser essa presença motivadora na vida de cada uma delas.” Inspirado na experiência vivida nos encontros do Tecendo Relações, Agostinho criou este poema: Crochetar Teço tramasAcendo flamasTransformo fiosEntre dramas e desafiosCrio a vida ponto a pontoMesclando cores e encontrosSem pressa em meus devaneiosDançam mãos silenciosasFrágil força em novelos enleioE assim se compõe a vidaMesclando sonhos e desconstruções antigasUm faz e desfaz entrelaçadoOnde se perdem os pensamentosEm fios desembaraçadosMão que criaMão que teceMão que aqueceMão que fiaQue convive com o tempoQue textura utopiaArtesã de relaçõesE histórias de família Conheça um pouco da programação do Tecendo Relações: • Os encontros ocorrem às terças, quartas e quintas-feiras, às 18h.• A cada semana, temos grupos diferentes.• Quinzenalmente, às quintas-feiras, temos o “Tecendo com a Juventude Missionária Conectada”.• A primeira live com as famílias será no dia 28 de maio, às 18h. Live com música No dia 14 de maio, houve uma live com os alunos. O tema foi a Missão Sem Fronteiras de 2017 e 2019. Participou o músico João Pedro, ex-aluno do Colégio Stella Matutina, de Juiz de Fora-MG. A live, transmitida pelo Instagram, proporcionou uma conversa descontraída com os jovens e muita música.
Como quebrar o ciclo da violência sexual?

Este percurso de aproximadamente cinco anos como psicóloga na rede socioassistencial me levou a imensas reflexões sobre relações sociais e Política Pública, assim como nossos direitos e deveres como cidadãos. Muitos amigos próximos e familiares que sabem da temática com que trabalho me questionam, “Por que trabalhar com esse tema tão pesado?” ou “Eu não suportaria trabalhar com essa temática”.Gostaria de mencionar os atendimentos psicossociais com crianças, adolescentes, responsáveis e agressores com os quais realizo acompanhamento. Citarei alguns tipos de acompanhamento, assim como experiências e percepções. O trabalho com crianças, adolescentes e famílias inicia-se com os responsáveis, em um grupo. Isso porque julgamos extremamente necessária a implicação destes. A maioria, contudo, tem certa resistência em dar continuidade ao processo, já que o grupo tem o intuito de desvelar gradualmente alguns tipos de violência. Já com crianças e adolescentes, o trabalho é individual e em grupo, planejados em equipe para cada indivíduo, sempre olhando sua história e o tipo de agressão sofrida. A violência na vida de alguém acontece sem pedir licença, sem hora marcada. Cuidar disso significa priorizar, deixando de lado outros compromissos. Assim, é preciso mudar a rotina, o que não é fácil, pois as famílias vivem em vulnerabilidade social extrema, e algumas horas fora do ambiente de trabalho podem fazer “faltar o pão na mesa”, como já ouvi diversas vezes. Procuramos sempre nos adaptar aos horários e dias da semana de cada família. O fenômeno da violência é visto como algo a ser negado, pois, em nossa sociedade, o que é valorizado é a perfeição. Por isso, na maioria das vezes, olhamos a violência como uma atitude do outro ou com olhar de julgamento. A violência quase sempre é justificada, por meio de manipulação, como um “ato de amor”. A violência intrafamiliar e a transgeracionalidade está na sociedade e dentro de nós, em formatos diferentes. Nós também reproduzimos essa violência, e nossos filhos a aprendem de nós e as reproduzem. A criança não tem capacidade de avaliar como aquilo é danoso, ela simplesmente reproduz o que apreende. A violência também está embutida naquilo que achamos ser melhor, como a educação. Existe uma tendência geral a achar que a violência sexual é pior do que as outras formas. No meu ponto de vista, ela é diferente, devido à forma como a sociedade a encara, sendo menos tolerada por estar ligada a tabus referentes à sexualidade e ao corpo. As famílias apresentam certas resistências em compreender que a criança não necessariamente vai sentir a violência sexual como algo ruim, porque ela pode estar envolvida na situação de forma muito sedutora, pode ter uma relação de afeto entre a criança e o agressor, e nem sempre ser realizada de forma violenta. A criança não tem maturidade para entender o que significa escolher ter atos sexuais com um adulto e, dessa maneira, ela não pode ser considerada responsável pelo abuso, ainda que, de alguma maneira, ela tenha aceitado, pois é o adulto quem deveria ter a maturidade suficiente para limitar a relação entre ele e a criança. Com essa forma de violência, a criança sente-se muito confusa em relação à sua própria sexualidade e pode acabar reproduzindo os atos sexuais com outras crianças. Existe sexualidade na criança e está em construção. Ela não se restringe ao ato sexual em si, mas está relacionada à busca do prazer e afetividade, e ainda das possibilidades de interações sociais e da formação da autoimagem, ou seja, como ela se vê, sua autoestima, sua segurança em si própria. Na criança, isso vem como uma maneira de ela procurar ter prazer não com o toque erotizado, mas com o afeto e, ao sofrer violência sexual, a distorção que pode ocorrer é ela achar que uma maneira de carinho se dá pelo toque erotizado, algo que, na verdade, somente ocorre a partir da adolescência, quando o corpo e a mente estão se preparando para a possibilidade de um contato erótico. Ressalto que, se o responsável não buscar cuidado para a violência, dá a autorização para as crianças reproduzirem-na, pois elas a aprendem do adulto. Julgo extremamente necessário criar espaços e ferramentas para dar atendimento ao agressor e quebrar esse ciclo de violência. Isso pode ser por reflexões e orientações tanto com os pacientes como com a sociedade. Atualmente realizo atendimentos psicológicos com homens agressores e também mulheres. Nestes anos de trabalho e estudos, foi possível observar que a maioria dessas pessoas viveu algum tipo de violência na infância ou adolescência. Repetem, na vida adulta, o que sofreram. A pergunta que sempre trago para o grupo de responsáveis das crianças e adolescentes, no intuito de se fazer refletir e ampliar o olhar, é: a penalização do agressor é suficiente para cuidar da violência? A maioria, com sentimentos aflorados, tende a responder com ódio que sim e, nesse momento, acaba por ser um espaço de canalização e reflexão desses sentimentos. Penso que a responsabilização é apenas uma parte, uma vez que, em nossa sociedade, a violência sexual é um crime, e a punição para isso é a privação da liberdade. Acredito ser importante, em certa medida, pois diz para a pessoa que ela não pode fazer aquilo. Mas é preciso também entender os motivos que levaram o agressor a não enxergar que existia uma hierarquia entre ele e a criança. Geralmente são pessoas que têm uma sexualidade infantil e que se enxergam de igual para igual em relação à criança, e isso precisa ser cuidado em um espaço especializado. A mídia trata esse problema como um horror, dizendo que pedofilia é crime. O crime é todo e qualquer ato de cunho sexual realizado contra criança ou adolescente. Pedofilia é uma doença que consiste no desejo sexual do adulto pela criança e que, se concretizar no ato, aí sim, passa a ser crime. O “Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”, 18 de maio, instituído pela Lei Federal 9.970/00, é uma conquista que demarca a luta pelos direitos humanos de crianças e adolescentes
Semana Laudato Si’ 2020

O ano de 2020 marca o quinto aniversário da Laudato Si’. A encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a Casa Comum foi assinada em 24 de maio de 2015. Mais que um documento eclesial, a encíclica é uma proposta de um projeto de vida para a humanidade e para o nosso planeta. A Laudato si’ foi acolhida como um documento profundo e cheio de beleza, e impulsionou pessoas ao redor do mundo a refletirem mais profundamente sobre o Criador e a criação. Sua visão da ecologia integral, que vê as conexões entre como tratamos Deus, a natureza e uns aos outros, oferece-nos verdades simples, porém profundas, sobre os laços que nos unem. Certamente esse documento é uma inspiração durante momentos de dificuldade, como a crise que atravessamos atualmente. Ele nos encoraja a refletir sobre os valores que compartilhamos e a criar um futuro mais justo e sustentável. Em uma grande campanha, o Papa convida todas as pessoas a participar da Semana Laudato Si’, de 16 a 24 de maio, que tem como tema “Tudo está interligado”. Assista, a seguir, ao vídeo do Papa Francisco. Para mais informações e materiais, acesse o site: Semana Laudato Si’ 2020 Vídeo do Papa Francisco:
A fé que cura

Sempre ouvi dizer em minha caminhada de Igreja que “as palavras convencem, mas são os testemunhos que arrastam”, por isso compartilho essa experiência de vida e fé com os irmãos. Em julho de 2019, eu e meu esposo, Belchior, fizemos uma viagem a Portugal para visitar alguns parentes. Durante todo tempo em que estivemos lá, diariamente, entramos em contato com os filhos pra saber como estavam aqui no Brasil. Temos três filhos, dois homens e uma mulher. Graças a Deus as notícias sempre foram positivas. Isso nos tranquilizava. Faltando um dia para retornarmos ao Brasil, o filho mais novo, Michel, de 31 anos, nos ligou informando que o filho mais velho, Antônio, de 35, tinha sido internado. Sem informações suficientes, iniciamos, eu e meu esposo, nossas orações pelo restabelecimento de nosso filho, uma vez que, por causa da distância, não era possível fazer nada. No outro dia, já de volta ao Brasil, nossas orações continuavam ininterruptas, porém deixando que Deus conduzisse o barco. Estávamos tranquilos. Sabíamos em quem confiar. Ao chegarmos, fomos nos inteirar da situação. Antônio sentia dores de cabeça ininterruptas já havia alguns dias. O quadro foi piorando, e a noiva, Renata, percebeu, ao acordá-lo no dia anterior, que Antônio não conseguia articular bem as palavras e estava sem coordenação motora. Após se comunicar com Michel, levaram-no até o hospital e lá ficou internado. Já no hospital, informaram-nos que ele estava tomando antibióticos e remédios para dor. Ao vê-lo, nós nos chocamos com a realidade. Estava com os olhos murchos e parecia fora do mundo. Não era a mesma pessoa. Ele nos reconheceu, falou conosco. Assim que saímos, contudo, Renata disse que ele falava frases desconexas, como se estivesse alucinado. Às vezes, chorava com as fortes dores de cabeça. Estava esperando por uma tomografia, porque as radiografias apontavam um tumor. Era preciso confirmar. Os médicos do local não davam esperanças. Mas, como o diagnóstico principal é o do “Médico dos médicos”, permanecíamos confiantes. Renata conhecia uma das enfermeiras do local e, por meio dela, conseguiu ficar numa cadeira ao lado dele durante quatro dias, sem sair, apenas rezando, rezando e rezando. Não queria deixá-lo sozinho. Eu chegava bem cedo ao estacionamento e ficava lá praticamente o dia todo, esperando que Renata me trouxesse notícias, que não eram muito alentadoras. A enfermeira chegou a dizer que tirasse ele de lá, porque o hospital não tinha recursos para tratar adequadamente aquele caso. O que nos sustentava é que toda nossa família, os amigos, as congregações, irmãs, padres e bispos conhecidos de todo o Brasil estavam numa corrente de oração e nós sentíamos essa força. Meu esposo rezava e buscava alternativas para retirá-lo daquele lugar. Deus sempre enviando seus anjos. Belchior foi levado a uma senhora simples e humilde que movimentou céus e terra, e conseguiu levá-lo para outro hospital para fazer tomografia. Com o laudo apontando uma lesão no cérebro, conseguiu uma internação no Hospital das Clínicas. Após uma série de exames, a equipe médica disse que, no mundo, havia somente vinte casos como o de Antônio: um abscesso cerebral provocado por um dente de siso. Foi preciso operar para sugar o líquido do abscesso que pressionava o cérebro e extrair o siso causador de todo aquele problema. Nossas orações continuavam. Pedíamos a intercessão da Virgem Maria, que Ela o cobrisse com seu manto de amor, pois havia o risco de ele ficar com sequelas graves. Graças a Deus, deu tudo certo. A dor de cabeça começou a ceder. Os exames continuavam, enfim monitoravam tudo. Mas, um dia, a dor de cabeça voltou e deixou todos muito apreensivos. Uma nova tomografia acusou ainda um resto de líquido. Aumentaram a dose do antibiótico. Enfim, seu estado melhorou. Ele se alimentava bem, não sentia dores, conversava e recebia a visita da família toda, inclusive do diretor da empresa onde trabalha e de sua filha, Júlia, de 11 anos, deixando-o muito feliz. Ao fim de dois meses, ele finalmente pôde sair do hospital; com a graça de Deus, sem sequelas. Voltou a trabalhar e a realizar suas atividades normalmente. Em tudo demos graças a Deus. Durante todo o tempo oferecendo o terço a Nossa Senhora e pedindo sua intercessão, Antônio nos revelou que, por duas vezes, havia passado pelo quarto uma senhora muito simpática, que o cumprimentava pelo nome, perguntava se ele estava bem e, sorrindo, desejava melhoras e ia embora. Conversando com as atendentes do quarto, procurou pela senhora e pela descrição. Ninguém sabia quem era e não a conheciam. Guardamos tudo isso no coração, agradecendo a Virgem que também foi mãe, a Mãe de nosso Salvador, por tanto carinho. Não temos dúvidas sobre a valorosa intercessão de Maria. Confiamos cada vez mais na força da oração. A oração nos fortalece, aproxima-nos dos irmãos e nos anima a caminhar e a aceitar os desígnios do Pai. Tudo que Deus permite é bom. Hoje vejo toda minha família, esposo, filhos, noras e netos unidos em oração na missa dominical e me emociono, agradecida por tantas bênçãos recebidas. Suely Pereira da Silva BelchiorCasada há 38 anos com Antônio Manuel Belchior. Formada em Comunicação Social e Turismo e licenciada em História. Junto com a família, é missionária leiga, membro do Instituto Missionário Catolicanet.
Rezar unidos cura a humanidade

Nesta quinta-feira, 14 de maio, um grande milagre está acontecendo, independentemente dos efeitos sobre a pandemia… Pessoas de diferentes religiões estão se unindo em prece, pedindo a cura da doença causada pelo covid-19 e o fim da pandemia. Imagine milhões de pessoas rezando unidas pela mesma causa! Isso é capaz de transformar o mundo! O próprio Jesus disse: “Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18,20). Se a oração de dois ou três tem a força de tocar o coração de Deus, imagine a oportunidade de superarmos nossas diferenças e nos unir num único pedido! E isso todos nós podemos fazer! Muitas vezes, pedimos a Deus para atender a nossas necessidades e esperamos respostas mágicas. A cura de Deus não é assim. Ela passa por nossa participação. Jesus sempre repetia: “A tua fé te curou”. Talvez o primeiro passo que realizamos na oração é nos abrir para que Deus possa agir em nossa vida, uma vez que ele respeita nosso livre-arbítrio. Ele conhece tudo o que sentimos e o que sofremos. Ele quer nos curar, mas somente agirá se nós o permitirmos. Não adianta pedir e não abrir o coração para as mudanças que a cura de Deus realiza em nós… Por isso é muito importante pedirmos juntos a mesma graça, pois nos fortalecemos mutuamente para receber a transformação que Deus promove em nós. Ao pedirmos juntos, superamos nossos preconceitos, nossos pensamentos estreitos e mesquinhos e nos abrimos para aquilo que realmente somos: uma única família humana, filhos de um mesmo Deus que é adorado com diferentes nomes. Se nos descobrimos como irmãos de fé e culturas diferentes, graves doenças da humanidade já começam a ser curadas: a desunião, a desconfiança, a intolerância, a xenofobia e tantas outras que nos distanciam de nossa irmandade existencial. E isso abre as portas para um futuro melhor, em que a paz se torna uma possibilidade real. Há ainda outras doenças que precisam também de tratamento, como a ganância, o acúmulo, o egocentrismo, a exploração desenfreada da natureza e tantas outras. Mas tudo tem a mesma raiz… Então, com muita fé, com muito amor, com muita confiança que Deus quer nos curar e nos libertar desta pandemia, vamos nos unir espiritualmente a toda a humanidade, convidar nossos familiares, nossos amigos, nossos vizinhos, nossas listas de contatos para rezarmos, todos, nesta única intenção: pelo fim da pandemia. Como é importante conhecer como surgiu essa iniciativa, trazemos aqui alguns links com informações importantes para rezarmos conscientemente e reforçarmos a busca por mais fraternidade. Vídeo do Papa Francisco e informações sobre o dia de jejum e oração. 14 de maio, a oração que faz de nós uma só família. Entrevista com o cardeal Ayuso. O que é o Alto Comitê para a Fraternidade Humana e quem participa. Artigo da Revista IHU Unisinos sobre o dia 14 de maio. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
O racismo nosso de cada dia

“Serviço de preto” para se referir ao trabalho malfeito, “cabelo ruim” para aludir-se ao cabelo encaracolado dos negros, “denegrir a imagem” para falar sobre alguma atitude imoral, “negro de alma branca” para afirmar que a pessoa em questão tem atitudes moralmente aceitas, “ter o pé na cozinha” para identificar que a pessoa tem mãe negra. Essas e tantas outras expressões fizeram e ainda fazem parte do cotidiano nacional, especialmente nos lugares onde a população negra foi, ou é, majoritária. O que essas frases dizem a nosso respeito como sociedade? Além dessas expressões, as estatísticas evidenciam realidades históricas sobre nosso país. A população negra, entregue à própria sorte desde a Abolição, em 1888, é quem figura no topo do ranking, quando se trata de dados negativos. Eis alguns deles. Em 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que, da parcela pobre da população brasileira, 75% eram negros (soma da população que se intitula preta ou parda). Nesse mesmo levantamento, viu-se que apenas 11,9% dos cargos gerenciais eram ocupados por pessoas pretas ou pardas. Com relação aos salários, novamente a população negra apareceu como sendo a que menos recebia proporcionalmente. Enquanto o rendimento médio domiciliar per capita da população branca atingia R$ 1.846,00, o da população negra chegava a R$ 934,00. Em 2019, novamente o IBGE trouxe dados sobre a realidade da população negra. Dessa vez, foi com relação às chances de serem vítimas de homicídio. Segundo os índices, essa parcela da população tinha 2,7 chances a mais de ser vítima desse tipo de crime do que a branca. Observando os números do sistema carcerário do Brasil, chegou-se novamente à constatação de que negros eram os que figuravam no topo das prisões. Dos cerca de 700 mil presos no Brasil, 61,7% eram pretos ou pardos. O que esses dados dizem a respeito de nós como sociedade? Esses números são apenas alguns que nos permitem compreender um retrato produzido ao longo de cinco séculos. O Brasil conviveu com a instituição da escravidão (inicialmente indígena e depois negra) por mais de três séculos e meio. Ao longo desse período, foram arrancados do continente africano e trazidos ao Brasil cerca de 5 milhões de pessoas que se tornariam escravizadas. Vilipendiados em sua liberdade, essa população africana escravizada foi os braços e as pernas da economia nacional. Quando, no século XIX, as pressões externas e internas da política e da economia se iniciaram, a instituição da escravidão foi colocada em xeque. Fruto de um processo histórico, a abolição da escravatura, por meio da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, foi a quarta de um conjunto que se iniciou em 1850, sendo a Lei Eusébio de Queirós a responsável, inicialmente, por extinguir o tráfico negreiro. Posteriormente, em 1871, foi assinada a Lei do Ventre Livre, que concedia liberdade aos filhos de escravos nascidos a partir daquela data; por fim, em 1885, foi aprovada a Lei dos Sexagenários, que concedia liberdade aos escravizados acima de 60 anos. O fato é que, com a extinção da escravidão, a população negra continuou a viver à margem da sociedade brasileira. Livres no sentido jurídico, porém excluídos socialmente pelo racismo, pela submoradia dos cortiços, pelo analfabetismo, pela falta de políticas públicas, a população negra continua entregue à própria sorte. O que se viu ao longo de mais de 13 décadas foi a potencialização dessas condições e, como vimos, os dados e as estatísticas são plurais para não nos deixarem dúvidas. Como sociedade e nação, as expressões elencadas no início do texto bem como os dados apontados anteriormente são espelhos que refletem uma realidade contra a qual lutamos para não ver. A escravidão produziu danos sociais difíceis de serem extirpados. A abolição da escravatura ocorreu com a assinatura de uma lei, porém o preconceito e o racismo não são extintos da mesma forma. Oxalá as futuras gerações possam viver em um país onde a cor da pele não seja obstáculo para o pleno desenvolvimento humano. Carlos Aurélio SobrinhoDoutor, mestre e bacharel em Ciências Sociais, licenciado em Filosofia e História, professor de História, Filosofia e Sociologia no ensino médio.
É preciso estar atento e forte!

No dia 13 de maio, comemora-se a abolição da escravidão no Brasil. Infelizmente, esse longo e triste período de nossa história deixou muitas permanências, entre elas o racismo estrutural que constitui o tecido social brasileiro. Há que se comemorar o fim dessa prática vergonhosa, mas também há que se cuidar para que qualquer tipo degradante de trabalho seja eliminado de nosso cotidiano. Hoje encontramos inúmeras formas de trabalho análogo à escravidão no Brasil e no mundo. Em nosso Código Penal, no artigo 149, esse tipo de trabalho é definido como aquele que apresenta condições degradantes (incompatíveis com a dignidade humana, caracterizadas pela violação de direitos fundamentais que colocam em risco a saúde e a vida do trabalhador), jornada exaustiva (em que o trabalhador é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga de trabalho que acarreta a danos à sua saúde ou risco de vida), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço mediante fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida. Atualmente a forma de cerceamento da liberdade pode ocorrer de modos diversos, que incluem desde “constrangimentos econômicos até castigos físicos”, materializando-se na violação de direitos básicos, “inclusive do direito ao trabalho digno”, fator que já é suficiente para se caracterizar a escravidão moderna 1. Em países nos quais há alto nível de desigualdade social, somado a taxas consideráveis de analfabetismo e baixa escolaridade, o trabalho análogo à escravidão tende a surgir e se espalhar com maior frequência. Em nosso país, de acordo com os dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), 50 mil pessoas foram resgatadas em situações de trabalho escravo entre 2002 e 2018 2. Sem contarmos os inúmeros casos em que as autoridades não são notificadas (subnotificação), nos quais os trabalhadores permanecem sendo explorados e em condições sub-humanas de trabalho. A maior parte dos casos se concentra no campo, mas o número tem aumentado nas cidades, principalmente no setor de confecção de roupas. Os imigrantes têm sido as maiores vítimas no meio urbano: para fugir de situações de vulnerabilidade em seus países de origem, buscam novas oportunidades de vida e de trabalho pelo mundo. No Brasil, vários imigrantes têm sido resgatados em situações degradantes de trabalho. Dados do início de 2020 revelam que houve 607 denúncias de trabalho semelhante à escravidão na Região Metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista, nos últimos cinco anos 3. Os números demostram que, em comparação ao ano anterior, houve um amento de 50% no número de notificações, o que nos leva a concluir que esse tipo de trabalho está em constante crescimento na região. Reforço o quanto é preciso que o Estado esteja atento, por meio de fiscalização realizada pelos órgãos competentes. Cabe a nós, contudo, como parte desta sociedade, posicionarmo-nos e exigirmos de cada instituição, grupo, empresa, órgão estatal ou privado, ligado ao mundo do trabalho, que haja uma fiscalização rígida sobre o trabalho escravo. A História serve para muitos propósitos importantes, entre eles está o de que “devemos sempre lembrar o que todos querem esquecer ou apagar da memória”, o que significa relembrar o quanto a escravidão foi nociva para nós e o quanto devemos combater qualquer tipo de situação que venha a se aproximar de tal condição no mundo moderno. __________________________[1] Por meio de portaria, Ministério do Trabalho muda definição de trabalho escravo.Fonte: Consultor Jurídico – Acesso em: 4 maio 2020.[2] OIT (Organização Internacional do Trabalho).Fonte: site do Observatório Digital do Trabalho Escravo – Acesso em: 4 maio 2020. [3] Brasil teve mais de mil pessoas resgatadas do trabalho escravo em 2019.Fonte: Agência Brasil – Acesso em: 4 maio 2020. Virna Lígia Fernandes BragaDoutora em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professora universitária e pesquisadora. Também leciona História para o ensino fundamental, e Sociologia e História da Arte para o ensino médio no Colégio Stela Matutina, em Juiz de Fora-MG.
Eu vejo arco-íris

Quase sempre é assim… Aquela cena que nos pega desavisados, e damos de cara com um arco multicolorido rasgando o céu. Momento ímpar e consolador. Aquela fração de segundos que nos deixa no colo do Criador, mesmo os mais descrentes. Cercado de tantas lendas e mitos, e carregado de tanta mensagem subliminar, o arco-íris é assim… Renova esperança, remonta à passagem, nos leva a um pote de ouro, nos faz levitar de encantamento e nos devolve mais leves para seguirmos a vida. Eu vejo arco-íris… Mas é melhor parar por aqui com essa licença poética. Flanando na internet, descobri que o arco-íris não existe, é uma ilusão de óptica. Quando raios da luz do sol penetram nas gotas de água, eles são refratados e ocorre a dispersão. É pura dispersão de luz que é captada, dependendo da posição do observador. Que chata seria a vida só com a ciência! Eu vejo arco-íris e, no arco-íris que vejo, eu enxergo muitas coisas: a aliança entre o céu e a terra; a magia de uma paleta de cores que virou símbolo de diversidade; os melhores projetos de vida guardados no pote; uma súbita alegria transformadora; uma paz celestial que desejamos experimentar na terra; jovens no seu primeiro emprego; a presença consoladora dos que já se foram; crianças brincando de amarelinha; a memória afetiva de juras de amor; o pertencimento universal; dias melhores para todos; aquele frio na barriga pelas escolhas vividas; a força das raízes que faz brotar cores no céu; a esperança renovada… E você, já viu arco-íris hoje? Maria José Brant (Deka)Assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. ______ Referência consultadaSANTOS, Marco Aurélio da Silva. “Formação de um arco-íris”. Brasil Escola.
Mudanças e escolhas necessárias para enfrentar o covid-19

A mudança é um fenômeno inerente à vida humana. Por isso é importante aprendermos a lidar com ela, da melhor maneira possível, para nos adaptar e desenvolver como pessoas, tornando-nos mais fortes aos possíveis sofrimentos decorrentes dela. A necessidade de mudança pode vir para nós de maneiras completamente diferentes. Pode ser lenta e continuada, de forma que nos dê a chance de ter um maior tempo para processá-la, ou pode vir repentina e imposta, não nos dando chance de nos preparar, obrigando-nos a achar novos caminhos de vida em curto tempo. A nova pandemia que assola a sociedade mundial, provocada pelo covid-19, certamente se enquadra no segundo tipo de mudança citada. Ela não nos deu tempo de nos preparar e muito menos de pensar antecipadamente sobre como lidar com suas exigências e consequências. O covid-19 vem se espalhando muito rapidamente, e o que está em jogo nesse momento é algo que afeta a todos de modo muito forte: a proteção da nossa própria vida e a vida de outros, sejam pessoas amadas, conhecidas ou desconhecidas. Essa necessidade de alteração vivencial, totalmente imposta, gera um impacto grande e generalizado. As pessoas, no começo da disseminação, achavam que, em pouco tempo, tudo passaria, sem maiores complicações. Entretanto o coronavírus ainda está no nosso dia a dia, e a incerteza sobre quando a pandemia acabará tem gerado insegurança e sofrimento em muitos corações. Estamos sendo impelidos a fazer revisões de comportamentos antigos e a criar novos. Mas é importante lembrar que talvez isso não seja novidade para alguns, pois, no período pré-pandemia, muitas organizações já se preocupavam em desenvolver sua competência de inovação e disrupção criativa. Muitas metodologias foram criadas para esse fim. Por que não trazer esses aprendizados para dentro de nossas vidas? Que inovações podemos e devemos fazer em nós e em nossas famílias? Queremos trazer aqui, nestas linhas, mais algumas provocações e reflexões sobre escolhas e mudanças, principalmente para quem não está nem vive com pessoas que estão com risco de saúde ou que vêm tendo sua situação financeira fortemente impactada. Estar em confinamento nos dá uma condição segura, mas, ao mesmo tempo, obriga-nos a, diariamente, ficar de frente com nossas próprias escolhas de vida, sejam elas boas ou ruins. É exatamente em momentos como estes que somos obrigados a viver as consequências das escolhas que fazemos e ficamos mais expostos à forma com que estamos relacionando com nossos familiares e, sobretudo, com os que dividem conosco o mesmo espaço. Começam então a surgir diversos tipos de questionamentos: como estamos funcionando como grupo? Cuidamos tanto dos espaços individuais de cada um como dos espaços coletivos? Estamos delimitando regras de convivência que sejam positivas para o bem-estar de todos? O que tem funcionado? O que não tem funcionado? Que novas ações ou atitudes já deveríamos ter tomado? Por que não as tomamos? De que estamos querendo nos poupar? Estamos construindo com nossos parceiros de espaço (irmãos, colegas, cônjuges, filhos, pais e muitos outras formas de vínculos) relações de reciprocidade e apoio mútuo? Momentos como o que vivemos agora nos obrigam a pensar ou repensar sobre qual é o propósito desse grupo, dessa equipe que compartilha o mesmo espaço. Como essas pessoas podem se apoiar e se ajudar de forma que, apesar das renúncias, o coletivo possa ganhar mais do que um só indivíduo? Viver em harmonia não é e nunca foi fácil, mas exige escolhas, renúncias, disciplina e persistência de todos. Um bom exemplo para pensarmos nessas perguntas está relacionado à maneira como lidamos com as rotinas operacionais da casa e a forma com que educamos nossos filhos para isso. Todos ajudam nas tarefas e obrigações de forma a não sobrecarregar ninguém? Independentemente da idade, todos podem colaborar, dentro de suas capacidades. Até mesmo os menores podem ajudar, guardando brinquedos e ajeitando seus quartos. Dependendo da idade, podem até lavar as vasilhas de plástico, com baixo risco de acidentes. Ensine seus filhos a trabalhar, contribuir e a realizar as responsabilidades tanto as de escola quanto as de casa. Esse é um grande legado que você pode deixar: ajudar seus filhos a se desenvolver de forma autônoma e independente, mas com responsabilidade e foco. Essas serão competências exigidas a eles quando entrarem no mercado de trabalho ou quando tiverem de enfrentar outras mudanças impostas por situações como a que estamos vivendo. Aline Souki Amaral de PaulaMestra em Organizações e Recursos Humanos, pós-graduada em Gestão Estratégica de Recursos Humanos e graduada em Psicologia, professora, coach profissional, master practitioner em PNL e consultora de gestão de pessoas com foco em desenvolvimento e gestão da mudança. _________ Gabriela Federman HofferGraduanda em Administração Pública na Escola de Governo Paulo Neves de Carvalho (Fundação João Pinheiro), com previsão de formatura para 2021, estagiária de Aline Souki em trabalhos de desenvolvimento de lideranças e de gestão estratégica de pessoas.
Um Primeiro de Maio diferente

O Primeiro de Maio de 2020 foi celebrado de forma completamente diferente dos anos anteriores: sem poderem reunir-se, os trabalhadores fizeram uma programação nas redes sociais que se iniciou às 11h30min, com um culto ecumênico, e depois com a fala das principais lideranças nacionais e apresentação de muitos artistas que apoiam a causa da justiça e os direitos dos trabalhadores. Mais uma vez, nosso querido Papa Francisco exerceu sua corajosa profecia e, numa mensagem aos movimentos sociais do mundo todo, no dia 10 de abril, manifestou sua solidariedade aos trabalhadores, especialmente aos informais, neste período de pandemia. Francisco os definiu como “um exército invisível que combate nas trincheiras mais perigosas”. Graças a Deus, nosso Papa, diferente de alguns governantes cruelmente indiferentes ao sofrimento e às mortes, sabe que as vítimas principais desta crise são os pobres, os trabalhadores que, muitas vezes, vivem entre o desespero da fome e a ameaça desta doença mortal. “Sarar, cuidar e compartilhar” é o desafio que Francisco propõe a todos nós que nos reconhecemos seguidores de Jesus. A grande pandemia vem pôr em questão toda a organização da economia mundial, toda forma de exploração dos recursos naturais, nossa relação com a Mãe Terra e a própria relação entre nós. O grande dogma do neoliberalismo, do poder material, cai por terra, e as fortalezas dos impérios do dinheiro mostram sua fragilidade. A emergência sanitária demonstra, ao mesmo tempo, a importância da pessoa e do trabalho humano. Quando hordas de inescrupulosos fazem as carreatas exigindo a abertura de seus comércios a qualquer preço, confessam que, sem o trabalho, seu capital não serve para nada e que pouco se importam se mais gente é infectada ou morta, porque é preciso que o trabalho faça girar sua máquina de lucro. O Primeiro de Maio vem nos lembrar, assim, a primazia do humano, a nobreza do trabalho que completa a obra da Criação. Por isso, nessa data, temos de exigir que, diante de uma crise tão grave, os governantes devem tomar as medidas para defender a vida de seu povo, seja com medidas sanitárias, seja com providências econômicas que socorram as famílias dos trabalhadores desempregados, daqueles momentaneamente afastados de seus postos de trabalho devido à pandemia, dos marginalizados, a população que vive nas ruas… É ainda o Papa quem defende a instituição de um “salário universal que reconheça e dê dignidade às nobres tarefas que desempenham… que nenhum trabalhador fique desprovido de direitos”. Oxalá a Igreja no Brasil e todos nós sigamos as orientações de Francisco, encarnação viva de Jesus, e façamos da luta pela Justiça e da solidariedade concreta nossa prática cristã cotidiana. Para isso é preciso que cada comunidade, cada cristão se proponha, neste Primeiro de Maio, a engajar-se numa ação de solidariedade, seja ela com o recolhimento de alimentos, artigos de higiene pessoal para distribuição a nossos irmãos trabalhadores vítimas da injustiça e da indiferença, seja com a partilha do pão da Palavra, da orientação, da informação a respeito de seus direitos essenciais. Gilberto CarvalhoGraduado em Filosofia e Teologia com especialização em Gerenciamento Público. Ligado à Pastoral Operária (da Igreja Católica), desempenhou diversas funções no Partido dos Trabalhadores (PT) e é Ex-Secretário Geral da Presidência da República. O trabalho em foco A adoção da tese do realismo periférico pelos governos neoliberais desde 2016 no Brasil impulsionou a busca de vantagens competitivas assentadas na redução dos custos de produção, especialmente do trabalho. Para tanto, o estabelecimento de uma nova disciplina na organização do trabalho cada vez mais desregulado. Nesse sentido, o abandono, após mais de uma década, da perspectiva de projeto nacional e do protagonismo mundial evidenciado pelos governos petistas tem revertido o padrão de relação salarial da força de trabalho assentado à estrutura verticalizada da produção industrial, cada vez mais terceirizada. Em decorrência, o esvaziamento das estruturas de representação de interesses dos operários e da burguesia industrial até então referências de compromissos políticos passados em torno do desenvolvimento brasileiro. Retorno ao receituário neoliberal Com o retorno ao receituário neoliberal, a desregulamentação defensiva ganhou centralidade, pois voltada a alternativas para o trabalho assalariado frente à fuga da indústria e à pretensa expansão dos serviços cada vez mais industrializados. Para tanto, a difusão ideológica da meritocracia do empreendedorismo visando a converter o trabalhador em empresário de si próprio nas atividades de prestação de serviços. A dominância da concorrência exposta em escala individual extremada iria se descolar da necessidade do Estado, cabendo a cada um negociar no mercado a venda de serviços multifuncionais. Assim, as exigências de competitividade individual reforçariam as providências de dispor ativos próprios, como o certificado de formação (diploma educacional) e comprovantes de seguros na saúde, assistência e previdência social, não mais incorporado ao contrato de trabalho salarial entre empregado e empregador. Da privatização do Estado para a privatização dos direitos sociais Diferentemente do programa neoliberal da “Era dos Fernandos” (Collor, 1990-1992; e Cardoso, 1995-2002), quando o foco recaiu na privatização do Estado, os governos após golpe de Estado de 2016 concentram-se na privatização dos direitos sociais e trabalhistas. Nesse sentido, o fim dos serviços públicos, incialmente por sua asfixia orçamentária, propulsora do rápido rebaixamento da oferta e sua qualidade, e na sequência, sua privatização, abriria nova modalidade de expansão capitalista fundamentada no empreendedorismo dos serviços. Enquanto avança a desregulamentação defensiva, o Brasil assiste ao acelerado descompasso entre a internacionalização do padrão de consumo cada vez mais excludente das massas empobrecidas e a especialização da estrutura produtiva dependente do extrativismo mineral e vegetal, acompanhado do maior barateamento possível do custo da mão de obra. Sinal disso pode ser traduzido nas informações a respeito da expansão recente da subutilização da força de trabalho no Brasil. Atualmente, a subutilização do trabalho, que atinge um a cada quatro brasileiros, era apenas um pouco mais de 1/7 da força de trabalho no ano de 2014. Com isso, o Brasil que representava 5,3% do total de trabalhadores subutilizados no mundo, em 2014, passou a responder por 9% em 2019, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). “A subutilização do trabalho tende