Dimensões da sexualidade, diversidade e respeito

A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une Durante o ano de 2021, todas as escolas de nossa Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo terão como tema transversal “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Esse será o pano de fundo de todas as nossas ações pedagógicas e marca também como reflexão para que toda a nossa comunidade educativa, alunos, educadores e familiares, possa repensar nossas atitudes diante desse mundo tão plural que vivemos e, assim, trabalhemos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Além disso, aproveitamos também o mês de maio para conversarmos sobre esse tema. No dia 21, celebramos mundialmente o Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e Desenvolvimento. Falar sobre a diversidade é uma tarefa complexa, já que, aos olhos da Antropologia Teológica, todo ser humano é único e irrepetível diante Deus. Cada um, cada uma é parte de um todo que foi pensado e amado por Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança, e, por isso, chamados a viver no e por amor. Nessa lógica, podemos intuir que a diversidade existe desde que a primeira espécie humana (Homo erectus) surgiu neste planeta, há 2 milhões de anos. De acordo com as mais recentes descobertas, o Homo sapiens conviveu com alguns dos seus antepassados, dando mais ênfase a esse convívio diverso. A diversidade está presente em nosso cotidiano, 24 horas por dia. Está em nossas casas, em nossas escolas, em nossos trabalhos e em nossas igrejas. É de suma importância compreender que nossas diferenças nos ajudam a sermos melhores, nos enriquecem e nos tornam mais capazes de construir um mundo mais solidário. Devemos olhar nossas crianças, e digo as menores mesmo, pois, para elas, não existe preconceito, diferenças… Elas convivem de maneira harmônica em nossas salas de aula. Quem trabalha com a educação infantil pode nos ajudar nessa reflexão, mas, conforme o crescimento e as informações que vão recebendo, ou não, essas diferenças vão se tornando obstáculos quando não são bem elaboradas internamente. Jesus, em sua missão, encontrou diversas pessoas, de variadas etnias, opiniões, jeitos de ser, e sua postura foi única: O AMOR, trazendo com ele a misericórdia e a compaixão que derrubam barreiras e preconceitos. Basta olhar o grupo dos doze apóstolos, composto por uma diversidade de pessoas. Em nenhum momento, incitou a violência, de espécie nenhuma, mas acolheu todos aqueles que dele se aproximavam. Isso posto, vamos pontuar alguns aspectos mais específicos da diversidade que desejamos ressaltar. Ao olharmos nosso entorno ou até mesmo quando vemos dados de pesquisas oficiais, fica claro que nossa sociedade é diversa. Geralmente, tende-se a pensar que o modo como lidamos com a diversidade é um assunto já superado e compreendido pela maior parte da sociedade. Mas, ao nos depararmos com as questões que envolvem a diversidade sexual e as dimensões da sexualidade, ainda há caminhos que geram dúvidas e preconceitos. De início, é preciso entender que a sexualidade vai além do conceito biológico do sexo e atrelado ao processo reprodutivo. Ela é algo particular, estando relacionada ao gênero, à identificação das pessoas dentro das possíveis identidades de gênero, ao envolvimento emocional com outras pessoas e consigo próprias. É também uma questão cultural, já que, por ela, são estabelecidos vínculos afetivos e é pautada em padrões criados por grupos de pessoas e valores construídos em cada sociedade. Por conta de toda essa rede de relações (biológica, sociocultural, afetiva e ética), ela deve ser vista e estudada segundo suas várias dimensões e deve ser respeitada e levada a sério. Para que essa compreensão e respeito sejam colocados em prática, é preciso que alguns termos vinculados a essa temática sejam entendidos. Sempre que nos referimos ao sexo biológico, estamos falando da distinção entre macho e fêmea. Porém não devemos confundir o sexo biológico com a identidade de gênero, que se refere ao gênero com o qual o indivíduo se identifica. Desse modo, ser do sexo masculino é ter cromossomos XY; por outro lado, ser do gênero masculino é identificar-se com esse gênero. Embora sexo e gênero tenham uma forte correlação, nem sempre eles são coincidentes. Dentro desse contexto, uma pessoa cisgênero é aquela cuja identidade de gênero coincide com seu sexo biológico, enquanto uma pessoa transgênero é aquela que sua identidade de gênero não coincide com o sexo biológico. Há ainda as pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros ou com os dois. Existe ainda o que chamamos de orientação sexual, que é como se caracteriza o desejo sexual predominante de uma pessoa: se é por pessoa de gênero diferente (heterossexual), igual (homossexual) ou de mais de um gênero (bissexuais ou pansexuais). Muitos outros termos existem dentro desse guarda-chuva, mas esses são os mais populares. A discussão sobre sexualidade se torna cada vez mais importante, uma vez que jovens passam por situações de transtorno psicológico por não se entenderem/aceitarem ou não serem aceitos por outros, além de várias situações de preconceito que ainda são vistas e vividas em um país como o nosso, onde, teoricamente, temos a liberdade para viver a sexualidade do modo que nos convier. Compreender as dimensões da sexualidade é fazer com que ela não faça qualquer pessoa perder seus valores, sua atividade e sua vida. Em janeiro de 2015, o Papa Francisco recebeu Diego Neria Lejárraga, espanhol de 48 anos. Diego, que nasceu mulher, mas sempre se sentiu homem, tinha escrito ao Papa para pedir-lhe apoio diante da rejeição e da incompreensão que sofre por parte de seus conhecidos e até mesmo de religiosos quando vai à igreja, por conta de sua mudança de sexo. Durante seu encontro, perguntou ao Santo Padre se havia lugar para ele na casa de Deus. Como resposta, recebeu um abraço. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz. É, portanto, imprescindível que seja parte de nossas atitudes diárias promover o acolhimento a todos a nosso redor, independentemente de suas características físicas, étnicas, culturais, religiosas ou sexuais, e que tenhamos em mente que, dentro da sociedade inclusiva

“Remexendo sempre na mesma sopa”

Estava lendo um livro e encontrei a seguinte expressão: “mexendo sempre na mesma sopa”. O autor fazia uma análise ampla da busca da integração psicoespiritual. Não vou reproduzir o que ele dizia, mas sim o que entendi ser um dos significados para esse “mexer sempre na mesma sopa”. Todos nós, humanos, temos duas características básicas: um “coração grande e um pequeno”, expressões usadas pelo autor. Vou me ater aqui ao “coração grande” como aquela tendência natural em nós que nos projeta para o alto, para o altruísmo, para o desejo de servir os outros, para ideais que desejamos alcançar, para projetos duradouros para nossa vida. O outro, “coração pequeno”, aquela dimensão que nos mantém muito voltados para nossas necessidades imediatas, busca de prazer, satisfações subjetivas, centradas em nosso egocentrismo. Essas duas tendências existem em nós por natureza, isto é, nascemos com elas. A questão é como buscar o equilíbrio entre elas. Se privilegiamos uma só em detrimento da outra ou caímos num espiritualismo histérico, ou num egocentrismo subjetivista que nos distancia dos outros e nos faz rodopiar em torno do próprio umbigo. Em ambos os casos, ficamos “remexendo sempre na mesma sopa”, ou seja, não progredimos como seres humanos, não atingimos as metas maiores que temos para a vida. Quer queiramos ou não, a vida está ligada a esses dois polos. O do coração pequeno é aquele que nos põe em contato com a realidade cotidiana, cheia de nuances desafiadoras, ao mesmo tempo em que temos de dar conta de nossos compromissos e estar em contato com as pessoas de nossas relações. Vivenciamos conflitos, desacordos, insatisfações, ou porque ficamos cansados de repetir sempre as mesmas coisas em nossa rotina de trabalho, ou porque não nos sentimos compreendidos ou valorizados como desejaríamos nas relações com os outros e acabamos insatisfeitos com nossas “insatisfações”. É nosso coração pequeno que fica girando em torno de si sem sair do lugar. Vira monotonia desgastante que, com o tempo, nos esvazia e nos faz perder o gosto por aquilo que antes considerávamos tão importante. Isso se dá nos vários aspectos de nossa vida. Por exemplo, na vida conjugal. Ao casarem-se, os dois fazem juras de amor eterno. Depois de alguns anos, começa um cansaço nas relações, e muitos não suportam mais e abandonam o juramento feito. Aquilo que antes era tão satisfatório vira “enjoativo” ou insuportável. Isso está relacionado ao “coração pequeno” que não se integrou, de forma equilibrada, ao “coração grande”, não descobriu ou cultivou sentidos maiores para a união, restringiu-se à satisfação do imediato e, ou, não aceitou as limitações do outro antes idealizado. Por outro lado, o “coração grande” é aquele que alimenta nossos sonhos de realização com as coisas maiores, valores perenes que nos colocam numa dimensão altruísta, alimentando nossos ideais e nossas crenças. Esse coração grande mal administrado pode causar desiquilíbrio em nossa busca, porque se desliga da realidade concreta e se torna quase que “fantasia”. Isso ocorre muitas vezes no aspecto religioso que, por si, poderia nos elevar, mas que se presta, muitas vezes, para fugir da realidade, virando espiritualismo estéril, desligado da vida concreta (coração pequeno). Também nesse caso, não houve integração entre o coração grande e o coração pequeno. Aí se verifica o “remexer na mesma sopa”. Isto é, não se integra uma espiritualidade genuína à realidade concreta e cheia de desafios. É mais fácil transferir para Deus resolver aquilo que é de nossa responsabilidade do que pagar o preço por nossas limitações e incoerências. “Remexer na mesma sopa” é o que acontece quando deixamos de nos questionar sobre nosso modo de viver. É certo que nunca conseguiremos uma homeostase (equilíbrio perfeito), contudo isso não nos impossibilita dilatar o coração pequeno para sair de seu ninho subjetivista e de o coração grande ser mais realista em seus sonhos. Somos imanentes e transcendentes ao mesmo tempo. Isso não depende de nossa vontade, porque isso é de natureza, o que fazemos com esses dois movimentos de subir e descer depende de cada um. Certamente que não é uma tarefa fácil, pois está ligada às nossas bases antropológicas que nos empurram para o alto e, ao mesmo tempo, obriga-nos a ficar com os pés no chão. “Remexer na mesma sopa”, no caso, é não se dar conta dessa realidade e ficar girando na mesmice de sempre, desanimando diante das exigências vitais que dão razão à nossa existência e nos refugiando em depressões que consomem as energias, ou virar “anjos” inocentes fora do contexto da existência, despersonalizados e insípidos. Haja caldo para continuar a “remexer nessa sopa”! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Pentecostes: o Espírito nos leva a servir

Neste domingo, 23 de maio, a Igreja celebra a grande solenidade de Pentecostes. É quando os cristãos comemoram a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Festejamos o “sopro”, a “respiração”, a “brisa”, o “vento” criador de Deus a vivificar a Igreja. A liturgia nessa data é riquíssima, com uma celebração própria para a vigília (sábado) e outra para o domingo. As comunidades cristãs orientais, sobretudo, são muito esmeradas quando se trata do Espírito Santo. Quanto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o tesouro místico, litúrgico e teológico dessas tradições é incalculável. Nós, cristãos ocidentais, temos muito a aprender com esses nossos irmãos e irmãs, mas isso não quer dizer que, deste lado do mundo, também não existam riquezas. Estive meditando um pouco sobre o nome que Santo Arnaldo Janssen deu ao primeiro ramo feminino de sua obra evangelizadora: a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Dias atrás, numa formação para os futuros diáconos permanentes da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG, tratei sobre o tema “espiritualidade”. Em um resumo bem agudo, destaquei que esse dom é, de fato, vivido na prática; caso contrário, vira espiritualismo. Uma “pessoa espiritualizada” preocupa-se (e procura agir) diante de uma floresta que arde, água e ar poluídos, com o fato de haver pessoas sem um teto, sem uma terra, sem emprego, sem acesso à saúde, à educação, à segurança. Afinal, “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mateus 25,40b). Nessa linha, o servir à Criação, algo essencial para os seguidores de Jesus, é impressionante o horizonte que o Fundador da Família Arnaldina propõe para suas filhas espirituais: irmãs evangelizadoras e servas do Espírito Criador, do Espírito Consolador, do Espírito da Vida. Para Santo Arnaldo, a maior e constante adoração ao Senhor passaria pelo anúncio de Jesus, a Boa Notícia, e pelo serviço principalmente aos mais fragilizados, pois cada ser traz a essência do sagrado, o Espírito que Deus nos soprou nas narinas (cf. Gênesis 2,7). Em síntese: ser serva, servo do Espírito Santo é estar à disposição do próximo, e esse propósito vale para todos os batizados e batizadas, de qualquer tempo e lugar. Viver na espiritualidade de Deus é servir, e bem. Ser discípulas-missionárias, discípulos-missionários, servindo ao Espírito Santo, é, para mim, uma indicação muitíssimo inspirada de ter o coração na Trindade e os pés bem no chão. Não é muito fácil falar sobre essa Brisa Santa. Creio que Deus nos faz mesmo é um convite à experiência de nos deixar levar por esse subversivo “vento que sopra aonde quer” (João 3,8a). Assim, ouso aqui partilhar uma breve oração, vinda do que sinto (e não penso) sobre o Espírito Criador. Permita-se inspirar por aquele que renova a face da Terra e componha a sua prece também. Se temos o dia, Senhor, por vosso Espírito, temos o calor e o Sol.Se temos a noite, por vosso Espírito, Senhor, temos a luz a nos guiar na escuridão.Se temos a chuva, por vosso Espírito, a terra é ventre fecundo.Se temos a semente, por vosso Espírito, temos a árvore e os abundantes frutos.Se temos os livros, por vosso Espírito, temos o mais profundo instrutor.Se temos inteligência, por vosso Espírito, Senhor, recebemos o dom da preciosa sabedoria.Se temos forças, por vosso Espírito, nosso ânimo é inspirado para o bem.Se temos o cansaço, por vosso Espírito, temos o conforto do repouso e da serenidade.Se temos o presente da água, por vosso Espírito, temos o mergulho em Cristo.Se temos a vida, por vosso Espírito, nós a temos em abundância.Se temos fé, por vosso Espírito temos a chama da verdadeira piedade.Se temos as liturgias, por vosso Espírito, celebramos o Mistério e o divino abraço.Se temos a morte e as cruzes, por vosso Espírito, temos a ressurreição e a vida.Se temos o Espírito, temos a fé, a esperança, o amor.Vinde, ó divina Brisa!Vinde, ó Vento de santa rebeldia!Vinde, ó Sopro de vida!Vinde, ó Espírito Santo! Amém. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns: uma grande missionária para todos os tempos

Quem é a Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns? Ela é cofundadora da Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo. Ela nos deixou um grande exemplo de amor, de acolhimento e de entrega ao Espírito Santo. Vamos conhecer sua vida e missão, seguindo algumas passagens de sua trajetória guiada pelo Espírito Santo. Desde cedo, Hendrina, nome de batismo, recebeu a iniciação na vida espiritual. Sua mãe plantou em seu coração as sementes de bondade e fidelidade. A partir de 6 anos, Hendrina ia à missa todas as manhãs, antes da escola. Após a primeira comunhão, recebia os sacramentos a cada semana. Aos poucos, desenvolveu seu estilo próprio de felicidade e alegria. Simplesmente por sua presença e bondade, ela tinha o dom de alegrar os outros e consolá-los na dor e nas dificuldades. Também tinha os olhos e o coração voltados para os necessitados da vila onde morava. Tinha uma palavra de carinho para cada um. Todos os dias, visitava doentes, idosos e pessoas abandonadas. Ela cuidava deles e os consolava. Conseguia ler o sofrimento interior e a dor dos outros. Em sua comunidade paroquial, cultivava a oração e as visitas a Jesus. Praticava atos voluntários de penitência. Levava a sério a lei do jejum. Participava da peregrinação anual a Kevelaer, lugar de encontro com Nossa Senhora, Consoladora dos Aflitos. O sopro do Espírito é movimento e vida. Hendrina se transformou numa jovem madura em busca do futuro. Apesar do trabalho e da assistência aos necessitados, ela queria algo mais. Rezava o terço e breves orações durante suas atividades. Em seu coração, sentia crescer o desejo de comprometer-se totalmente, seguindo mais de perto o Senhor. Aos 19 anos, entrou na Ordem Terceira de São Francisco. Foi franciscana da Ordem até entrar em Steyl. Viveu intensamente esse período e cumpriu as exigências da Ordem Terceira: desejo sincero de perfeição; prática da renúncia e da humildade; virtudes da fé, esperança e caridade; fortaleza, paciência e perseverança no sofrimento e adversidade. Em seu coração, crescia o desejo de seguir o Senhor. Indo pela primeira vez a Steyl, reconheceu o sopro do Espírito pelo clima de oração e missão que não a deixou em paz. A semente plantada em seu coração na infância e juventude e o sopro do Espírito Santo se tornaram mais visíveis. Assim, depois de muitos anos de espera e amadurecimento, tomou uma decisão definitiva: urgia dar o passo decisivo. Pediu que Santo Arnaldo Janssen, Fundador da Casa Missionária de Steyl, a recebesse como empregada. Na carta ao Fundador, escreveu: “Pedi a luz do Espírito Santo, para que eu seja guiada conforme a vontade de Deus, para aquilo que ele planejou desde a eternidade”. O desejo de entrar na Casa Missionária nunca a deixou. Estava certa de ser destinada a participar do trabalho da propagação da fé. Essa é Hendrina partindo para Steyl. Deixou família, profissão e paróquia para arriscar um passo novo em seu seguimento do Senhor. “Vem, Espírito Santo!” era sua constante oração. Era fiel no compromisso de aprofundar a contemplação da presença de Deus em seu coração e nas pessoas. Cultivava o silêncio e a contemplação. Sua sintonia com Deus fez dela uma religiosa de profunda sensibilidade e simplicidade, de espontaneidade e proximidade com as irmãs e com as pessoas com quem se relacionava. Dizia às irmãs: “Rezem muito para que o Espírito Santo, que nos uniu pelo amor, também nos conserve no amor. Ele é o Pai de amor e de bondade”. Sendo uma mulher de grande bom senso, de compaixão, amor e generosidade, sua presença irradiava paz, alegria e calor humano. Sua espontaneidade, sua maneira amiga e benevolente criou uma atmosfera favorável à escuta e ao diálogo, e todas as suas palavras expressavam amor, bondade e sinceridade. Nos tempos difíceis da comunidade e nas dificuldades pessoais, sempre dizia: “Seja feita a santa vontade de Deus”. Demonstrava sensibilidade atenta à vontade do Senhor. Era uma testemunha viva dos ensinamentos que passava aos outros. Ao se aproximar de alguém, era acolhedora e atraente, capaz de conquistar logo a confiança das pessoas. Sabia como construir pontes aos outros e criar um sentido de comunidade. O amor profundo à Eucaristia era, para Madre Josefa, uma fonte de vida, que, por sua vez, encontrou expressão concreta em seu amor aos pobres, doentes e necessitados, enquanto ainda estava em casa, antes de sua ida para Steyl. Vemos, em sua vida, uma entrega incondicional à vontade de Deus, vivida na alegria e gratidão, com convicção e liberdade interior. E, apesar de suas muitas atividades, ela não caiu no ativismo, achando sempre tempo para a contemplação e oração. Desenvolveu o espírito missionário e assim escreveu ao Fundador: “Desejo nada mais que, com a graça de Deus, ser a última e sacrificar-me pela obra da evangelização”. Se houver uma frase que possa resumir adequadamente a vida de Madre Josefa, acreditamos ser esta: se cumprirmos fielmente todas as nossas tarefas, estaremos prontas a comparecer diante de Deus quando Ele chamar. Rezemos diariamente: pronto está meu coração, ó Deus, pronto está meu coração! Fala de um desejo, disposição, entusiasmo, abertura, amor, liberdade interior. Ela rezou e viveu por um objetivo: abrir cada coração ao amor. Para isso, ofereceu sua vida com uma prontidão total, sem limites e condições. “Ó Coração tão bondoso, quero amar, agir e sofrer em ti. Purifica-me de tudo o que ainda é meu e transforma-me em ti.” Essa transformação final e essa purificação total ocorreu, acima de tudo, durante a longa e dolorosa doença terminal. Foi naqueles meses que Madre Josefa repassou às irmãs uma herança preciosa que constitui, ao mesmo tempo, seu testamento que lhe dera luz, força e orientação em todas as situações: “Vem, Espírito Santo! Vem, Espírito Criador!”. Essa oração era sua vida, sua própria respiração, e ela queria que fosse a respiração de suas filhas espirituais. Entre ansiedade e esperança, entre vida e morte Madre Josefa sofreu muito durante sua longa doença terminal. Sempre de novo sofria de fortes crises de asma e, no fim, começou a sofrer de edema. Alternava

Violência sexual contra crianças e adolescentes e a carência de valores humanos

Embora o homem moderno tenha à sua disposição grandes recursos tecnológicos, a sociedade parece estar carente de valores profundos. Daí, nunca como hoje, existir tanta infelicidade, angústia, depressão individual e coletiva que geram chagas como a violência sexual contra crianças e adolescentes. É doloroso olhar para esse problema, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de uma grande responsabilidade, a de reconstruir o ser humano profundo em cada um de nós. A violência sexual contra crianças e adolescentes é hoje uma das grandes preocupações em nível mundial, afetando a sociedade como um todo, grupos, famílias e indivíduos. É uma das violências que atingem todas as faixas etárias, classes sociais e ambos os sexos. Contudo fatores como a miséria facilitam situações de promiscuidade, favorecendo as vitimizações. Hoje é um problema endêmico e complexo de saúde pública, e um desafio para a sociedade. Estudos da Organização das Nações Unidas revelam a existência de 1,8 milhão de crianças envolvidas em redes de prostituição, 1,2 milhão submetidas ao tráfico de seres humanos, 230 milhões de vítimas de abuso sexual. A violência sexual pode ser definida como envolvimento de crianças e adolescentes, dependentes e imaturos quanto a seu desenvolvimento, em atividades sexuais que eles não têm condições de compreender plenamente e para as quais não têm condições de dar seu consentimento. Oitenta por cento da violência sexual contra crianças e adolescentes acontecem no espaço familiar ou em círculos de relações próximas e confiáveis. No ambiente doméstico, por um processo de domínio e poder estabelecido pelas regras sociais, agressores com laços consanguíneos e de parentescos praticam esse tipo de violência. Predominantemente, essa violência ocorre dentro de relações de poder, nas quais os homens praticamente possuem o domínio no território físico e simbólico da estrutura familiar. Os pais são responsáveis pelo maior número de vitimizações sexuais, seguidos de padrastos, tios e irmãos. O ambiente doméstico, isolado do olhar público, favorece que a violência praticada fique encoberta pelo silêncio cúmplice e sem testemunhas. O autoritarismo e o machismo se articulam nas condições de vida das famílias. Apesar de os meninos serem também vítimas de violência sexual, as vítimas preferenciais dos agressores são crianças e adolescentes do sexo feminino. Isso evidencia a questão de gênero, em que as diferenças de sexo são convertidas em desigualdades, possibilitando o processo de dominação e exploração. Além das possíveis lesões em seu corpo, crianças e adolescentes vítimas de violência sexual tornam-se adultos mais vulneráveis a outros tipos de agressões e distúrbios, podendo levar ao uso de drogas, prostituição, depressão e suicídio. A criança que sofre violência sexual pode carregar esse trauma que afeta seus padrões de relacionamento posteriores. A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma forma de abuso difícil de ser notificada devido a vários fatores. Entre eles, o silêncio e a negação dos fatos pelas crianças e as famílias, pelo medo e pelas perdas de laços familiares que envolvem. A criança vítima sofre ao revelar o abuso e ver-se privada do direito à convivência, pois o familiar pode ser afastado do lar ou posto na cadeia. É uma violência também difícil de ser denunciada devido à falta de credibilidade e provas físicas no sistema legal. A partir da Constituição Federal de 1988, no Brasil, a criança passou a ser sujeito de direitos, merecedora da proteção integral por encontrar-se em fase especial de desenvolvimento físico, psíquico, cognitivo e social. A aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente realizou um importante avanço no campo dos direitos humanos, aprovando um instrumento que colabora decisivamente na identificação dos mecanismos de violência e implementação dos direitos constitucionais da população infantojuvenil. Dessa forma, a sociedade e o Estado brasileiro promovem o enfrentamento dos diversos tipos de violência, assegurando às crianças e adolescentes o pleno exercício de seus direitos constitucionais e estatutários. O Conselho Tutelar, órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, tem como atribuição o atendimento direto de denúncias, o diagnóstico da realidade de violação de direitos, o monitoramento do Sistema de Garantia de Direitos e o atendimento direto de serviços, suprindo a falta de políticas públicas. Quando a família como elemento de proteção falha em relação à criança e ao adolescente, entram os profissionais da Educação, da Saúde, do Serviço Social e do Direito, oferecendo um redirecionamento curativo e reconstrutivo. A complexidade e perplexidade desses comportamentos fazem com que o atendimento pelos profissionais de saúde também seja difícil e falte agilidade e eficiência. Concluímos trazendo presente o apelo que essa questão traz para cada um de nós. Hoje sabemos que a vida não acontece de forma isolada, mas que participamos de um destino comum. Culpar e punir só leva a mais violência. Elevar nosso ser, cultivando os valores que dão dignidade à vida de cada ser humano trará uma corrente positiva. Para nós, cristãos, significa acolher-nos à ação do Espírito Santo, que renova todas as coisas, nos salva e reconcilia em Cristo. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

Liberdade não tem cor

“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós…”. Lembra-se do enredo de samba da Imperatriz Leopoldinense, campeã do carnaval do Rio de Janeiro anos atrás? A liberdade foi cantada em prosas e versos. Mas, infelizmente, neste dia 13 de maio, não há o que comemorar em relação à Abolição da Escravatura no Brasil. No mundo, há várias questões sobre a existência humana a serem pensadas e combatidas com seriedade; por exemplo, o racismo. Com a pandemia, vivenciamos o horror da desigualdade social. Somos os únicos animais que discriminam os próprios semelhantes, causando violência física, psicológica e ideológica. Embora sejamos classificados como o ser que tem “livre-arbítrio”, ou seja, liberdade, presenciamos o quanto esse conceito é extremamente difuso. Como pensar em Abolição da Escravatura se ainda existe trabalho escravo no Brasil? Como ser livre se há mentes aprisionadas em ideias retrógradas, em aparências, se há preconceitos contra mulheres, homens e crianças negras? O movimento “Vidas negras importam”, que surgiu nos Estados Unidos, em 2013, fundado pelas ativistas negras Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opaal Tometi, reivindica o direito à vida, à saúde, ao trabalho, enfim, à dignidade humana para todos, principalmente para os negros e descendentes. No Brasil, às vésperas do Dia da Consciência Negra, em novembro do ano passado, João Alberto Silveira Freitas, negro, foi assassinado por seguranças que o espancaram numa loja do Carrefour, na cidade de Porto Alegre. Triste e trágica simbologia da realidade da população em nosso País, que também, a cada dia, tem sofrido com o racismo estrutural. Liberdade não tem cor. Por isso devemos educar para o respeito às diferenças, à tolerância, à solidariedade, conforme estabelece as Leis nos 10.639/2003 e 11.645/2008, com o apoio do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o Estatuto da Igualdade Racial, as cotas nas universidades públicas e no serviço público federal, implantando no currículo escolar o ensino da História e Cultura da Afro-Brasileira e Indígena. O caso ocorrido com o cidadão George Floyd, nos Estados Unidos, em 25 de maio de 2020, e os vários assassinatos de negros que têm acontecido no Brasil e no mundo clamam por justiça. Todo ser humano quer respirar a paz, independentemente da cor, do sexo, da religião, da etnia, da opinião política. Nossa Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 5º, inciso XLII: “A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. É uma forma de se garantir o respeito pelo outro. No entanto, o racismo e a onda de violência contra a pessoa negra ainda persistem em todo mundo. Defender a liberdade para todos é defender a emancipação do indivíduo, responsabilizando-o para assumir seus atos e fracassos, bem como as vitórias. Nesse sentido, a educação é fundamental para o exercício pleno da cidadania em nossa sociedade. O mito da democracia racial no Brasil é um conceito que tenta negar a existência do racismo em nosso País, camuflando a discriminação e o preconceito racial. Ao examinarmos as diferenças sociais entre negros e brancos, bem como do desenvolvimento histórico brasileiro, verifica-se a verdadeira natureza social, cultura e política ameaçadora para os negros. Nascer com a “mancha mongólica” na região lombar é a marca genética de que somos sim, afrodescendentes ou ameríndios. A ideologia de que “brancos e negros são iguais” neste país é um engodo. Há muito o que fazer, esclarecer, refletir para que sejamos uma Nação de igualdade e diferenças. Muito axé (força) para todos! Que sejamos justos, fraternos e solidários! Maria Terezinha CorrêaMestre em Antropologia, Especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e membro da diretoria da Aproffib.

Atividade didática destaca o valor da mulher

A questão do feminino nos provoca a pensar um mundo mais afetivo e humano. Partilhamos um texto e um poema elaborados pelos alunos Nycolas Daibert Vieira e Kimberly Lopes Galvão César. A atividade foi motivada pelas professoras de Redação, Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), e Erika Vullu, do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, inspirou o trabalho. Veja as composições a seguir. Para todas as mulheres do mundo O dia 8 de março é uma data internacionalmente especial: é a homenagem às mulheres, que marcam a nossa vida e melhoram os lugares pelos quais passam. Mas, no cotidiano, a situação é diferente. Infelizmente, elas vivenciam vários desafios no trabalho, nas redes ou nas ruas. Todos os dias, milhares de mulheres são assassinadas pelos maridos ou namorados, são expostas, assediadas e estupradas. Neste mundo machista e opressor em que vivemos, normalmente as pessoas dizem que é “mimimi”, falam que é por causa da roupa, do gênero, da sexualidade ou do estilo de ser. Mesmo passando por diversas situações, as mulheres conseguiram seu lugar de fala e de poder na sociedade atual, mostrando que são inteligentes, fortes e mais capacitadas que vários homens por aí. Sabemos que o mundo não é um lugar fácil de se viver, mas, com respeito e solidariedade, podemos construir um lugar mais justo e igualitário, onde mulheres e homens sejam reconhecidos por seus feitos e não julgados por seu gênero. A vocês, mulheres, obrigado por serem tão importantes e estarem presentes nas nossas vidas. O mundo certamente seria um lugar muito pior sem vocês. Nycolas Daibert Vieira (2ª série do ensino médio, Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG) A mulher Mulher,você é incrível!Você gera e traz uma vida ao mundo,mas não lhe damos o devido valor. Mulher é um ser sensível:emociona-se,apaixona-se,ama, sente, chora…Há acontecimentos que a machucam,não porque são frágeis, mas porque sentem.Você não é obrigada a nada! Mães, profissionais, esposas, adolescentes, meninas, amigas… Eu sou mulher.Sei que devemos lutar pela nossa felicidadee que, se nossa luta incomoda,estamos no caminho certo. Mulher,você é extraordinária,só precisa conquistar o seu lugar e mostrar o seu valor.Nossa voz é mudança!Merecemos o nosso destaquee está na hora de descobriremque somos iguais. Kimberly Lopes Galvão César (1ª série do ensino médio, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP)

A dança no bibliodrama

“És, Senhor, o Deus da vida,És a festa, és a dança.No banquete de tua casa,somos povo da Aliança.” (“Mesa pronta, toalha limpa”, José Edson R. de Freitas e Maria Luiza P. Ricciardi, Campanha da Fraternidade, 1992.) Assim cantamos em nossas comunidades de fé.O bibliodrama, como método de aprofundamento e experiência viva com o texto sagrado, apresenta-se por diversas formas de expressão: verbal, emocional, gráfico-artístico, com a fotolinguagem ou por representações expressivas com o corpo e seus sentidos. Cada participante representa e expressa o que percebe como “autêntico” interiormente, estimulado pela passagem bíblica meditada. Tudo isso faz com que o grupo e o texto sagrado, no bibliodrama, se aprofundem, se expressem e se interpretem reciprocamente. O método do bibliodrama se apresenta de forma muito flexível e individualizado. Pode facilmente se integrar com outros métodos e com várias artes expressivas, como a dança, a música, a produção de vídeo, e assim por diante; enfim, aonde a criatividade chegar. A dança é uma das formas de linguagem e expressão artística mais expressivas e antigas que conhecemos. Dançar é exteriorizar, por meio de movimentos, o que trazemos dentro. Se é verdade que o corpo fala, é no corpo que podemos experimentar e expressar os sentimentos que pulsam em nós. E um dos elementos mais bonitos da técnica do bibliodrama é a dança. Traduzir em expressão corpórea o que se aprofundou em determinado texto bíblico é concretizar, pelos gestos, o que ele provocou em nós. Se buscarmos nos próprios textos sagrados a importância da dança, percebemos que ela fazia parte da vida corrente, entre os judeus, e até dos jogos infantis, como lemos em Mateus (11,17) e Lucas (7,32). Nos textos bíblicos, encontramos a dança como expressão de alegria, de festa, de convívio e de adoração a Deus. Não distante de nossa infância, quando, de forma natural e orgânica, ela também brotava em nossas brincadeiras infantis e nos aproximava e nos conectava com outras crianças. Por 28 vezes, no mínimo, a Bíblia fala sobre dança em suas páginas. Cada referência que encontramos está relacionada a celebrações de acontecimentos especiais, festivais e encontros familiares e, curiosamente, praticadas principalmente por mulheres e crianças. Nos Salmos 149 e 150, o salmista também convida os fiéis a louvarem a Deus com dança e com a música: “Alegre-se Israel no seu Criador,exulte o povo de Sião no seu Rei!Louvem eles o seu nome com danças;ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” (Salmo 149,2-3) “Louvem-no com tamborins e danças,louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas,louvem-no com címbalos sonoros,louvem-no com címbalos ressonantes.Tudo o que tem vida louve o Senhor! Aleluia!” (Salmo 150,4-6) Na Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15,25), a dança também assume um caráter bastante significativo e expressivo. Não somente por ser uma alusão referida por Jesus, o Verbo que atualizou a Palavra de Deus e a personificou (Hebreus 1,1), mas também porque essa parábola ilustra a relação do homem com Deus e a alegria que existe no céu quando alguém se arrepende e deseja mudança. Essa alegria é traduzida de várias formas, sendo uma delas a dança. Na data em que comemoramos o Dia da Dança (29 de abril), queremos nos unir ao balé dos corpos e das constelações celestes para que, juntos, possamos bailar agradecidos em contemplação à obra da Criação. Nas experiências bibliodramáticas realizadas com distintos grupos na Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo, temos percebido a profunda conexão que a dança tem proporcionado aos que se entregam e fazem do corpo o canal de conexão com a sua espiritualidade. Por esse motivo, o convite é: dancemos! E que estendamos o convite a todos, para que se juntem a nós, para que, assim, a Palavra se torne vida em nós. Irmã Fátima Marques, SSpS, e Agostinho Travençolo Junior Referência:Semente Viva Brasil

Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.

Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

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