Educação Social aponta caminhos para uma sociedade melhor

É fato que muita gente não entende bem o papel da Educação Social na vida de uma criança, de um jovem ou adulto. O que seria a Educação Social? Para que serve? Vai ajudar em qual área do conhecimento? E educador social então, muitos se questionam qual seria seu papel; será que é um professor? Ora, então apenas um cuidador? Meu nome é Arlete, tenho 26 anos e atuo na Educação Social, há cerca de um ano e meio, no CIM (Centro de Integração do Migrante), localizado na Rua Vinte e Um de Abril, n.º 1000, na região do Brás, em São Paulo-SP. Eu me formei em Pedagogia e fiz a segunda licenciatura em Língua Portuguesa. Hoje venho aqui refletir um pouco com vocês o papel da Educação Social e do educador social na vida de um indivíduo. Comecei a descobrir também a Educação Social na prática do dia a dia, no trabalho com as crianças do CIM. A Educação Social vai muito além de uma formação acadêmica ou um curso. Já que ela não permeia grau de qualificação de aprendizagem, ela prepara o indivíduo para abranger de um modo mais pontuado em nossa sociedade. O educador social visa à emancipação, de forma ativa, do indivíduo na sociedade. Ela vem fazer a criança, o jovem ou o adulto que esteja participando da Educação Social a refletir sobre assuntos que são bases de nossa sociedade. Temas críticos que fazem, sim, a construção da aprendizagem, levando-os a se educarem ou, muitas vezes, a se reeducarem sobre assuntos que eles vivem em seu dia a dia e não apenas aprendam, mas sejam construtores de uma sociedade mais justa, melhor, colocando ativamente nela sua construção de aprendizagem. Mas quais temas são trabalhados? Vários. São assuntos que permeiam nossa sociedade que não acabam mais, como água, higiene, aquecimento global, poluição, reciclagem, bullying, racismo, datas comemorativas, temas importantes em nosso cotidiano e tantos outros que o educador social trabalha, sempre com uma metodologia muito ativa, para que a pessoa que participe da Educação Social seja seu próprio construtor de conhecimento e o educador social seja apenas o mediador para que ela aconteça. A Educação Social tem muita arte, muita dinâmica, música, dança, muitas vezes, também traz consigo atividades de Língua Portuguesa e Matemática que ajudam na formação culta do membro que participa do curso de Educação Social, até para que ele compreenda melhor os temas trabalhados. Ela não é um reforço, mas uma ferramenta pedagógica para a inserção da pessoa na vida social. Em nossa vida social, a gente precisa saber, muitas vezes, ler uma placa na rua, escrever uma carta, uma redação, fazer um cálculo no mercado. A Educação Social traz também recursos que ajudam a fortalecer essa aprendizagem, para que a criança, o jovem ou o adulto usem o conhecimento aprendido como algo essencial em seu cotidiano, para conquistarem sua autonomia. A Educação Social trabalha muito o grupo, a relação das pessoas com outras, por meio da convivência, com dinâmicas, jogos, brincadeiras de um jeito bem lúdico, pois as idades das pessoas dos grupos de Educação Social variam muito, e isso é o mais legal, pois um aprende com o outro. A Educação social ajuda na reintegração do homem na escola, na família e na comunidade. Ser um educador social é saber que você tem uma responsabilidade gigante, que está colaborando com o crescimento do homem de amanhã. Daqueles que, daqui a algum tempo, estarão à frente de nossa sociedade, em vários meios. Muitos educadores sociais são professores, outros não, mas são pessoas que se dedicam com total garra na construção de uma sociedade melhor. O papel do educador social é sempre acolher e orientar as pessoas em seu processo de ressocialização. É muito gratificante ser um educador social. É uma das profissões mais bonitas que existem, apesar de também pouco conhecida e reconhecida, mas essencial para que nosso mundo seja melhor, mais agradável, justo, solidário, empático, bom, generoso, esperançoso, criativo e tantas outras coisas maravilhosas que sonhamos para nossa sociedade. Ser um educador social é viver muito o que o nosso querido Paulo Freire diz: “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”. Ensinar não é apenas fornecer conhecimento, mas também ajudar as pessoas a usarem esse conhecimento para se tornarem melhores, mais conscientes e mais responsáveis. E é esse o papel do educador social e da Educação na vida das pessoas. Arlete de Souza Ramos Educadora social do Centro de Integração do Migrante (CIM), São Paulo-SP.
Setembro Amarelo: “Onde está o teu irmão?”

Em Êxodo, capítulo 4, versículo 9, Deus pergunta a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?”. Caim responde: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?”. Este é o mês conhecido como “Setembro Amarelo”, tempo de campanha de prevenção e discussão sobre o suicídio e as tentativas de suicídio. Neste artigo, vamos refletir sobre o cuidado com o outro, tendo como referência a orientação bíblica, visto que este também é o mês dedicado à Bíblia. Nossa cultura moderna tem nos acostumado a não interferir na vida do outro, em seus problemas. Algumas frases repetidas no cotidiano traduzem essa ideia: “não se meter onde não é chamado”, “o problema é dele”, “cada um cuide de sua vida”, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, “cada um com seus problemas”, etc. No entanto, contraditoriamente, quando acontece um suicídio, muitas vezes, ouve-se: “por que ele/ela não pediu ajuda?”, “ah! Se eu tivesse prestado atenção aos sinais”, “como eu não percebi!?”… Aí é tarde demais. No fim de semana de 10 de setembro, dia especial da prevenção ao suicídio, coincidentemente, as leituras bíblicas da celebração da Palavra e da missa na Igreja Católica tinham como tema o cuidado com o irmão. Um trecho da primeira leitura, tirada do livro de Ezequiel (33,8), afirmava: “Se eu disse ao ímpio que vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito da sua conduta, o ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas de sua morte”. Semelhante a isso, no Evangelho do dia, em Mateus (18,15-20), Jesus falava da correção fraterna. Para ganhar o irmão (não ganhar do irmão), há três passos: chamá-lo em particular; depois pedir a ajuda de outras pessoas; depois ainda, da comunidade, com o objetivo de alertá-lo a respeito da maneira como está conduzindo a vida. Antes de excluí-lo ou condená-lo, tentar, de forma criativa, recuperá-lo. Esgotadas todas as tentativas, respeita-se o princípio do livre-arbítrio. Apesar de a mensagem do profeta Ezequiel não dever ser levada ao pé da letra, pois o contexto da leitura é o cuidado com a nação, com o comportamento do povo de Israel, dos exilados e dos que ficaram em Jerusalém; embora não se possa reduzi-la e direcioná-la a uma pessoa específica, ainda assim, ela nos ajuda a refletir sobre o cuidado com o próximo. Nossa postura diante dos problemas do irmão, de acordo com as reflexões bíblicas, não tem o caráter de invasão de privacidade ou de intromissão, como pode parecer à primeira vista. Isso porque a iniciativa, nesse caso, tem como objetivo ganhar o irmão para o convívio harmonioso com a comunidade, com a família e com a sociedade, ajudá-lo a superar o sofrimento. O problema é que se confunde essa ajuda com outros interesses maléficos. Há pessoas que se aproximam dos outros com “a melhor das intenções”. No entanto, revelam-se com interesses egoístas, narcisistas, dominadores. Muitas vezes, o conteúdo do outro vira objeto de fofoca, intrigas e exposição do próximo. Pessoas se apresentam como modelos a serem seguidos. Muitas vezes, há ainda cobranças, comparações, pressões, humilhações. Daí surge a barreira em pedir ou aceitar ajuda. Embora os grupos de terapia como alcoólicos anônimos, de dependentes químicos e a psicoterapia exigem que a iniciativa de pedir ajuda tenha de partir de cada pessoa, devemos encontrar uma forma de estarmos atentos ao cuidado com o próximo. Afirma o grande Mestre: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mateus 18,19). Ainda: “Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser no amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Romanos 13,8). Aparecido Luiz de Souza, SVD
Grito dos Excluídos: “A construção do país tem que ser de baixo para cima”

A expressão é da economista e educadora popular Sandra Quintela, uma das organizadoras do Ato. “A construção do Brasil tem que acontecer de baixo para cima. Nós acreditamos que o nosso planalto é a planície, onde está realmente o povo brasileiro, na luta pela sobrevivência e pelo bem-estar.” Em sua 29ª edição, o Grito dos Excluídos realizou atos em 26 Estados do Brasil, no último dia 7 de setembro. À luz do tema “Você tem fome e sede de quê?”, as manifestações tiveram como centro do debate a questão do acesso à comida e à água. A violência policial, o assassinato da Ialorixá Bernadete, a privatização da água no Estado de São Paulo, as catástrofes naturais que, nos últimos meses, têm desabrigado milhares no Brasil, a educação pública, a falta e saneamento básico, entre outras questões sociais que afetam a dignidade do povo, foram denunciados durante os atos. Relatório de março deste ano, baseado nos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2021, revela que 35 milhões de pessoas não têm água potável, e mais de 100 milhões não contam com rede de esgoto. Ainda, segundo declaração da Organização das Nações Unidas (ONU), publicada em junho deste ano, o Brasil tem 21 milhões de pessoas que não têm o que comer todos os dias, e 70,3 milhões em insegurança alimentar. A população brasileira também tem fome de educação inclusiva, por ser direito fundamental e, ao mesmo tempo, um dos pilares para o desenvolvimento das pessoas, do ponto de vista social, cultural, político e econômico. Dados do IBGE, referentes a 2021, revelam que, no caso das juventudes de 15 a 17 anos, cerca de 407 mil jovens não concluíram o ensino médio e houve uma redução de 2,1% no índice de matriculados no ensino médio regular. A razão desse fato é o aumento do número de jovens de 15 a 17 anos frequentes nas etapas anteriores (ensino fundamental regular, EJA do fundamental, ou alfabetização de jovens e adultos). Em 2021, o número de jovens nessa situação subiu de 1,6 milhão em 2020 para 1,9 milhão. Para a Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação da CRB (Conferência dos Religiosos e Religiosas do Brasil) de São Paulo, “A educação pública no Brasil está sucateada. Não adianta políticas públicas que forcem as crianças e os jovens a irem para Escola, se não encontrarão lá as condições básicas e dignas para uma educação decente”. Para Dom Valdeci Santos Mendes, bispo de Brejo-MA e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Grito dos Excluídos é uma oportunidade para alimentar a esperança de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa e mais fraterna. O Grito dos Excluídos O Grito dos Excluídos tem sua origem nas pastorais sociais da Igreja. É uma iniciativa que remonta ao ano de 1995 e surge na 2ª Semana Social Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O objetivo é abrir caminhos para pessoas excluídas e marginalizadas na sociedade brasileira. O evento é, portanto, uma ação eclesial. A escolha da data 7 de setembro é uma alusão e contraponto ao Grito da Independência por Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo-SP, e se propõe a questionar os mecanismos de exclusão social que ferem os direitos humanos da maior parte da população. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.
O difícil caminho do “eu” ao “nós”

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18,20) O evangelho deste domingo faz parte do chamado “discurso comunitário”,onde Mateus recolhe os ensinamentos de Jesus a respeito das “relações oblativas”que devem reinar em sua comunidade. De fato, em seu ministério público, Jesus não só se revela como o“fundamento” da comunidade dos seus discípulos, mas ativa aqueles “atributos”que são essenciais para alimentar os vínculos entre aqueles(as) que o seguem:“tornar-se como criança”, “não ser pedra de tropeço para os pequenos”, “cuidadocom a ovelha que se perde”, “a vivência do perdão”, “a correção fraterna”, “aoração em comum”… Profundo conhecedor da condição humana, Jesus tinha plena consciênciaque o ser humano é frágil, limitado, e que nenhuma comunidade subsiste sem umacontínua atitude de abertura e de acolhida do “outro”. Sabemos por experiência que a presença do outro (“alter” em latim) semprenos “altera”. O ser humano é incapaz de amadurecer em solidão. Desde nosso nascimento,viemos ao mundo em um estado de fragilidade que faria morrer muitos animais;por isso, precisamos uns dos outros. Fomos concebidos dentro de uma matriz derelações e vivemos sempre em um mundo densamente povoado de surpreendentespresenças humanas, que são imprescindíveis para chegarmos a ser “pessoas”. As relações interpessoais são fundamentais em nossa vida. Portanto, somoschamados a acolher os outros, reconhecer sua dignidade, sentir-nos responsáveispor eles, assumir a alteridade como princípio e lugar de crescimento e de formaçãopessoal… O Evangelho de hoje aponta para esta realidade: nós nos constituímos como“humanos” pelas nossas relações; em outras palavras, só nas relações com osoutros podemos crescer em humanidade. Estamos sempre em contato com o “outro”. E o outro é pessoa. O outrorevela certa magia, ao mesmo tempo sedutor e enigmático. O outro é plural,apresenta múltiplos rostos; é diferente, inédito… Só seremos nós mesmos quando alguém nos descobre, nos acolhe, nosaceita… respeita nossa verdadeira identidade. O outro é a realidade que nospermite tomar consciência de nós mesmos. Essa identidade se revela por meio das relações: ninguém cresce sozinho,precisamos dos outros; precisamos viver relações sadias e maduras com os outros(família, amigos, trabalho, grupos, comunidades…). Nesse sentido, uma pessoa encontra somente sua realização na interaçãocom o ambiente que a cerca. O ser humano está comprometido com os outros; por sua própria natureza,ele se torna pessoa humana somente em interação com os outros; ele possuiimpulsos naturais que o levam em direção ao convívio, à cooperação, àcomunhão…; ele é reserva de humanidade e compromete-se com a dignidadehumana. O ser humano é um ser constitutivamente aberto, essencialmente emreferência a outras pessoas: estabelece com os outros uma interação, entrelaça-secom eles, e forma um nós: a comunidade. Mas, o “discurso comunitário” em Mateus nos adverte que não podemospartir de uma comunidade de “perfeitos”, mas de uma “comunidade de irmãos”que reconhecem suas limitações, fragilidades… e necessitam do apoio mútuo parasuperar as dificuldades e reforçar os laços internos. “Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu…”Esta expressão fora dita, anteriormente a Pedro (cf. Mt 16,19), como presença deunidade e comunhão da comunidade. Agora Mateus expõe que a graça (e o dever)de perdoar é concedido a toda a comunidade, a cada membro. Ninguém fica excluído da busca de diálogo ou de soluções diante de um conflito. É de todos aresponsabilidade da marcha comunitária e do bem comum. A todos lhes é exigidouma maturidade que vai sendo alcançada, pouco a pouco. Para isso, a correçãofraterna e o acompanhamento mútuo se fazem indispensáveis. A comunidade é a última instância de nossas relações com Deus e com osdemais. O Evangelho de hoje insiste que é preciso esgotar todos os recursos paraajudar o outro a sair de seu erro. Qualquer pessoa que, sem saber, vai pelocaminho equivocado, agradeceria se alguém lhe indicasse, com amor, seu erro elhe mostrasse o verdadeiro caminho. Se ao fazer hoje a correção fraterna, damospor suposto que o outro tem má vontade, será impossível que ele aceite aretificação. A partir dessa perspectiva estamos dando por suposto que nós somosbons e o outro é mau. A correção fraterna é um sinal de grandeza e delicado amor; começa com acorreção a sós; caso não tenha resultado, chamar outros dois ou três e, se forpreciso, recorrer à comunidade. Numa comunidade cristã todos devemos ser acolhidos com nossas limitaçõese capacidades, com nossos erros e acertos; a comunidade cristã, se é comunidade ese é cristã, não é espaço de acusação e julgamento quando nos equivocamos; nelasomos absolvidos quando somos culpados, somos buscados quando nos perdemos,somos perdoados quando erramos. A correção fraterna não é condenar, ou castigar, ou expulsar, mas desvelaras limitações, sem ódio, sem espírito de crítica, de vingança, sem rancor. O objetoda correção fraterna não é dizer que eu tenho razão e que o outro está equivocadoe, por isso, é mal. O objeto da correção não é sancionar para servir de lição. Oobjeto da correção fraterna é “ganhar” o irmão. É no horizonte do amor que a correção fraterna acontece e não no horizonteda lei. O amor e a caridade são muito superiores a uma justiça entendida a partirde uma mera aplicação da lei corretiva. É muito difícil cumprir hoje esse encargo da correção fraterna porque elaestá pensada para uma comunidade, e o que hoje mais falta é precisamente osentido de “comunidade”. O sentido da relação, sadia e amorosa, com os outros é um dom de Deus,que nos foi dado a todos. Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para acomunhão… Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão dePessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Como criaturas, fomos atingidos pela marcatrinitária de Deus. Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entrenós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros,Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo 4,12).Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam emdireção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade…Deus é o ponto focal para enxergarmos o outro. Se há “eu” e se há “tu”,então a presença de Deus se revela. A fraternidade, a vida em
Amazônia, rios de histórias

Em 5 de setembro, celebra-se o Dia do Estado do Amazonas e o Dia Internacional da Mulher Indígena. Não há como falar do Amazonas sem incluir toda a Região Amazônica. Em cada igarapé, cada rio, há muitas histórias vivenciadas e construídas tanto por povos indígenas quanto por famílias ribeirinhas. Veja o artigo de Maria Terezinha Correa!
Boletim Congregacional – Agosto de 2023 – Nº 200

Dos Diálogos Amazônicos à “Declaração de Belém”

Belém do Pará foi palco dos Diálogos Amazônicos, da Cúpula dos Povos Indígenas e da Cúpula da Amazônia. Entre outros resultados, foram produzidos documentos como a “Declaração de Belém”.Os diálogos amazônicos ocorreram entre 4 e 6 de agosto e antecederam a Cúpula da Amazônia. Reportagem de Cícero Pedrosa apurou que os debates sinalizaram a contribuição dos povos indígenas e das comunidades tradicionais para a proteção do território e a conservação da floresta. Valorizaram também os conhecimentos ancestrais para a manutenção da biodiversidade. Os produtos e serviços da sociobiodiversidade e a forma de produção das comunidades tradicionais foram considerados como importantes para o fomento de economias locais sem comprometer os ecossistemas. O repórter criticou, no entanto, a prevalência da visão da Amazônia como repositório de recursos e a ausência do reconhecimento mais enfático da participação dos povos originários assim como das comunidades tradicionais.O mesmo repórter relatou que, no segundo dia dos Diálogos Amazônicos, ocorreu um evento separado com 600 participantes: a Cúpula dos Povos Indígenas. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) contribuiu com a estruturação do encontro, e seu representante destacou o simbolismo em excluir os principais conhecedores das florestas dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia. Cícero apontou que os resultados da Cúpula dos Povos Indígenas vislumbram a Amazônia em um futuro com terras demarcadas, livre do garimpo, das hidrelétricas, da agricultura industrial, das ferrovias e de outros projetos dessa natureza. Foram criticadas intenções como a exploração de petróleo, o crédito de carbono e a bioeconomia, e foi reafirmada a luta pela demarcação dos territórios. Algumas questões criticadas pela Cúpula dos Povos Indígenas estiveram em pauta na Cúpula da Amazônia, que ocorreu entre os dias 8 e 9 de agosto, contando com representações de oito países vinculados ao bioma amazônico e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Os países representados foram Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O encontro visou a debater assuntos relevantes para a manutenção da Floresta Amazônica espalhada pelos territórios desses países. Da Cúpula resultou a agenda conjunta aos países denominada “Declaração de Belém”. O documento destacou como pontos principais: As decisões envolveram 18 temas desdobrados em 113 itens. Autores consultados não isentam nem o evento, nem o documento de críticas. Os temas mais polêmicos são a ausência de menções ou sanções à exploração de petróleo; a origem de recursos e de medidas concretas em longo prazo. Por outro lado, a Cúpula e a Declaração foram consideradas importantes estratégias de preparação para a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-30), prevista para ser realizada em Belém do Pará, em 2025. Os eventos do Pará e a votação do marco temporal (em curso) estão profundamente conectados quando consideramos os biomas, os territórios e a natureza para além de repositório de recursos transformáveis em artefatos artificiais alienantes da experiência humana em meio natural. As consequências da aprovação do marco temporal foram abordadas com muita clareza por Cícero Pedrosa, Carlos Marés, Felipe Milanez: restringindo o reconhecimento de terras indígenas ao ano da promulgação da atual Constituição (1988), famílias estarão em situação de vulnerabilidade, e nosso planeta também. Carlos menciona estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, estimando que a aprovação do marco pode resultar no desmatamento de até 550 mil quilômetros quadrados de áreas nativas, ampliando a emissão de carbono e afetando um sistema, hoje considerado de captura de carbono, mas já afetado pelas mudanças climáticas, de acordo com a ONU. Refletir acerca dessas importantes questões atende aos princípios da equipe de comunicação da Rede SSpS Brasil, que considera acompanhar, debater e atuar sobre o que acontece à nossa volta como parte da missão. Também está em conformidade com a plataforma Ação Laudato si’ e com o apelo do Papa Francisco para o cuidado da nossa casa comum. Referências Nota: foram realizadas várias leituras, incluindo textos disponibilizados por: Instituto Humanitas Unisinos (https://www.ihu.unisinos.br/) Declaração de Belém – disponível no Portal do Ministério das Relações Exteriores (https://www.gov.br/planalto/pt-br/assuntos/cupula-da-amazonia/documentos-da-cupula) Justino Sarmento Resende – antropólogo, padre e indígena em entrevista para o IHU (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/584953-cosmovisao-indigena-criacao-encarnacao-e-saida-desse-mundo) Cícero Pedrosa – Repórter para o Portal Amazônia Real (https://amazoniareal.com.br/cupula-dos-povos-indigenas/) Tainá Aragão – Jornalista do Instituto Socioambiental – ISA (https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/dialogos-amazonicos-colocaram-sociobiodiversidade-no-centro-do-debate-para) Felipe Milanez – Jornalista para Carta Capital (https://www.ihu.unisinos.br/570680-marco-temporal-um-argumento-racista-para-legitimar-massacres) Carlos Marés – Professor de Direito Socioambiental para Revista Pub (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/610997-marco-temporal-marca-do-atraso) Carta Encíclica Laudato si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum (https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html) Plataforma de Ação Laudato si’ (https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/) Nações Unidas Brasil (https://brasil.un.org/pt-br/137094-decl%C3%ADnio-na-captura-de-carbono-na-amaz%C3%B4nia-%C3%A9-abordado-por-ag%C3%AAncia-da-onu-em-estudo) Marli Teresinha Everling Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (https://ssps.org.br/posts); colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram @designuniville
Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva. Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra a religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos. Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável. De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança. Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado. Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade. A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história. Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação. A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente. A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso… Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui. O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu. Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus. Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento. Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas. A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior… Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa. Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus. No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo”é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem. “Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida. Não somos
Boletim Congregacional – Julho de 2023 – Nº 199

Aprofundando a complexidade divina

Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais influentes teólogos e filósofos cristãos da história. Sua contribuição para a compreensão da doutrina da Trindade é inestimável, trazendo uma perspectiva rica e profunda sobre a natureza de Deus. A doutrina da Trindade é central para a teologia cristã e busca compreender a natureza de Deus como um Deus “triuno”: um único Deus que existe em três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Agostinho abordou essa complexidade divina com uma mente analítica e um coração cheio de devoção, com base nos textos sagrados e refletindo sobre sua experiência de fé. Em sua obra De Trinitate (Sobre a Trindade), Agostinho empreendeu a tarefa desafiadora de desvendar o mistério da Trindade, reconhecendo a limitação da mente humana diante da grandeza de Deus. Ele destacou a importância da revelação divina e da fé na busca por compreender a Trindade, ressaltando nossa compreensão intelectual limitada e incompleta, e ressaltando a capacidade humana de conhecer a Deus pela experiência do amor. Agostinho enfatizou que a Trindade é um mistério a ser vivido, mais do que apenas compreendido intelectualmente, destacando a importância da relação entre as Pessoas divinas e descrevendo o Pai como fonte eterna, o Filho como a Palavra encarnada e o Espírito Santo como amor mútuo entre o Pai e o Filho. Três Pessoas divinas distintas, inseparáveis e coeternas. Ao abordar a relação entre as Pessoas da Trindade, também destacou a ideia de que o amor é o vínculo que une as três Pessoas, entendendo o amor como o princípio dinâmico e vivificante da Trindade, um amor que transborda para a criação e para a vida de cada ser humano. Agostinho enfatizou que somos chamados a participar desse amor divino, por meio da comunhão com Deus e de uns com os outros. Para Agostinho, a doutrina da Trindade não é apenas uma especulação teórica, mas uma verdade com implicações práticas em nossas vidas. Enfatizou a importância de buscar a unidade na diversidade, refletindo a natureza da Trindade, apresentando-a como um modelo à comunidade cristã, na qual as diferenças individuais são honradas e celebradas, e o amor mútuo é cultivado. Embora tenha feito grandes contribuições à compreensão da Trindade, ele mesmo admitiu que seu conhecimento era limitado, reconhecendo que o mistério trinitário está além da compreensão plena da mente humana e que, diante de tal grandeza, devemos abordá-la com humildade e reverência. Assim, a abordagem do pensador de Hipona nos ensina que devemos nos engajar com mente aberta e coração adorador diante da grandeza do mistério. Embora possamos nos esforçar para compreender melhor a Trindade, devemos sempre nos lembrar de que Ela permanecerá um mistério divino, que nos desafia a buscar um relacionamento mais profundo com Deus, vivendo em amor e comunhão com os outros e com tudo que nos envolve. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Rede de Educação SSpS.